Rui Saraiva, diocese do Porto

Francisco apela a um jornalismo de proximidade e de encontro assumindo a comunicação como um valor estratégico. Talvez por isso, fez escolhas claras ao nomear leigos, profissionais da comunicação, para lugares de direção no Vaticano.

 “Nós estamos a viver uma crise. A pandemia pôs-nos todos em crise. Mas recordai-vos: de uma crise não se pode sair iguais, ou saímos melhores ou saímos piores.”

Papa Francisco na audiência geral de 26 de agosto de 2020

Estas palavras do Papa Francisco revelam que neste contexto de sofrimento mundial devido à crise gerada pela pandemia de covid-19, devemos não esquecer que este é também um momento de escolhas. E escolhas fortes: sermos melhores ou piores. Seguramente desta crise não podemos sair iguais –diz o Santo Padre. Será que vamos comunicar melhor no pós-pandemia?

O desafio do Papa 

A comunicação neste período histórico redescobriu-se. Passamos a ser mais interdependentes e conectados. As ferramentas digitais e as possibilidades de encontro à distância passaram a ser a janela quotidiana. Uma janela na qual até os comunicadores tiveram que reaprender as suas prioridades de mobilidade.

No tempo percorrido nestes catorze meses de pandemia, parece consolidar-se a ideia de que a comunicação online veio para ficar em muitas tarefas de interação, reunião, coordenação e até na produção de alguns conteúdos.

Contudo, a missão jornalística da narração objetiva dos acontecimentos necessita da presença para ver e registar. A isto se refere o Papa Francisco na sua Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais neste ano de 2021, lançando o desafio do encontro pessoal.

O Santo Padre faz um apelo muito claro aos jornalistas e aos comunicadores para que exerçam o seu ofício “encontrando as pessoas onde estão e como são”.

O Santo Padre faz um apelo muito claro aos jornalistas e aos comunicadores para que exerçam o seu ofício “encontrando as pessoas onde estão e como são”. Pede que sejam capazes de assumir a frase do Evangelho de João: “Vem e verás”, tal como “a fé cristã se comunicou a partir dos primeiros encontros nas margens do rio Jordão e do lago da Galileia” – escreve o Papa.

Sublinhando que existe uma “crise editorial” que “corre o risco de levar a uma informação construída nas redações”, Francisco alerta para a necessidade de verificarmos “com os próprios olhos”. “Se não nos abrimos ao encontro, permanecemos espectadores externos” – diz o Santo Padre na sua Mensagem.

Assinalando a coragem dos jornalistas que muitas vezes correm riscos para narrar “por exemplo, a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo”, o Papa lembra que o “jornalismo, como exposição da realidade, requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai”.

Em particular, Francisco pede na sua Mensagem atenção mediática aos mais pobres. “Por exemplo, na questão das vacinas e dos cuidados médicos em geral, pensemos no risco de exclusão que correm as pessoas mais indigentes. Quem nos contará a expetativa de cura nas aldeias mais pobres da Ásia, América Latina e África?” – declara o Santo Padre.

As escolhas de Francisco

Para concretizar este desafio do Papa, na sua Mensagem aos media, são necessárias escolhas claras. Também na comunicação na Igreja. Desde logo, é necessário interiorizar uma atitude de “procura da verdade” como escreve o Papa na oração final da sua Mensagem.

Uma atitude que expressa a coragem da escuta na sensibilidade de um encontro. Para dar voz a quem não tem voz. Garantindo a liberdade de imprensa e promovendo espaços de partilha de opiniões.

Uma atitude que expressa a coragem da escuta na sensibilidade de um encontro. Para dar voz a quem não tem voz. Garantindo a liberdade de imprensa e promovendo espaços de partilha de opiniões.

Ao mesmo tempo, o Papa ao refletir sobre os perigos das redes sociais e de uma “comunicação social não verificável” alarga o seu desafio e propõe responsabilidade: “Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controlo que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade” – escreve o Santo Padre.

Na atitude de procura da verdade exercida em ambiente responsável, Francisco apela a um jornalismo de proximidade e de encontro assumindo a comunicação como um valor estratégico. Talvez por isso, fez escolhas claras ao nomear leigos, profissionais da comunicação, para lugares de direção no Vaticano.

Os serviços da comunicação vaticana têm leigos na liderança: Paolo Ruffini é Prefeito do Dicastério para a Comunicação, Matteo Bruni é o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Andrea Monda é o diretor do jornal L’Osservatore Romano e Andrea Tornielli é Diretor Editorial do portal Vatican News.

Neste momento ainda de grande sofrimento em todo o mundo devido à covid-19, as fortes campanhas de vacinação em curso trazem a esperança de que podemos estar a aproximar-nos do pós-pandemia. Um tempo futuro no qual vai ser necessária uma melhor comunicação para construir uma nova normalidade. Não seremos iguais. Mas queremos ser melhores.

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