Paulo Rocha, Agência Ecclesia

“Vai ficar tudo bem”. A afirmação espalhou-se como um vírus: é motivadora, sem dúvida, em situações difíceis, inesperadas; dizemo-la a amigos, aos nossos familiares quando surge um desafio que parece intransponível, nas ocasiões em que acontece um acidente, uma doença; e também a dizemos agora, ao mesmo tempo que conhecemos as estatísticas dos “positivos” e dos óbitos.

Pessoalmente, no contexto da Páscoa, esta afirmação ia sendo repetida num subconsciente confinado entre discursos polarizados:  por um lado,  acompanhando a curva do que todos vemos, ouvimos e lemos, e que olha com reservas para falsos otimismos, e, por outro, no seguimento de um percurso que implica a subida ao Calvário, depois vive a expectativa em silêncio até conhecer a luz e a vida da manhã de Páscoa, no encontro com Aquele que disse, desde a primeira, hora “vai ficar tudo bem”.

O diagnóstico cru da realidade mostra que não está tudo bem nem vai ficar tudo bem! As famílias que estão isoladas não estão bem; quem está internado, ventilado, nos cuidados intensivos, não está bem; médicos, enfermeiros e um sem número de heróis da linha da frente, cuidadores de outros e servidores de todos, não estão bem!

Quando a prioridade da nossa sede de informação deixar de ser os números, as estatísticas, as conferências de imprensa sobre máscaras e contagens e se focar nos que já passam fome, naqueles a quem paradoxalmente continuamos a dizer “fique em casa” e têm a rua por abrigo; quando não considerarmos distantes os cidadãos refugiados a quem se pede para lavar as mãos e nos preocuparmos com a água que não têm para beber; e quando ouvirmos falar em desemprego, em produções paradas, em escolas e igrejas vazias, salas e salões, lojas e mercados, ruas e cidades, tudo vazio e não ficarmos indiferentes… Estamos a contribuir para que possa ficar tudo bem…

E vai ficar tudo bem?

Desejamos que sim! Bastará uma condição: querer primeiro o bem do outro e depois o bem próprio. Afinal essa é a lógica da Páscoa, a lógica da cruz, a lógica do amor. Por paradoxal que seja, é o caminho. E dá certo, desde há 2000 mil anos!  Bastará que se adeque nas opções políticas, nas estratégias económicas, nos relacionamentos sociais, nas sugestões espirituais e religiosas.

“Vai ficar tudo bem” é, assim, uma verdade e uma certeza pascal, desde o primeiro momento, desde que O Filho do Homem assumiu a cruz e aceitou ser sinal radical do que significa “dar a vida pelo outro”. Gerou incompreensões, silêncios e expectativas. Mas o final da história foi o melhor que a humanidade alguma vez conheceu ou contou: ressuscitou e ressuscitou-nos, vive e dá vida, inspira e permite dizer, de facto, que “vai ficar tudo bem”.

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