Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A falta de tempo permanece como um desafio diário. Apesar de ser um resultado de estarmos fora do tempo, um tempo cronológico por nós inventado e que não existe, o seu efeito sente-se e acaba por causar stress.

Foto de Lily Banse em Unsplash

Pais deixam de ter tempo para os seus filhos; esposos sem tempo para dedicar ao amor entre si; índices de produtividade que competem com a vida familiar e podem levar-nos à ansiedade e ao pânico; atrasos devido ao trânsito; filas intermináveis para ser atendido; tudo o que se pede hoje é para amanhã (ou ontem).

Sem fôlego.

É o que muitas vezes sentimos e vemos nos outros. – “Não tenho sequer tempo para me coçar.” – Quem sabe se talvez não seja preciso coçarmo-nos para entrarmos no tempo certo, em vez de corrermos, sistematicamente, atrás do tempo errado. Porém, o resultado é o stress e há quem invista recursos financeiros para o resolver.

Quantas pessoas não pagam aulas de ioga com o intuito de reduzir o stress. Ou, por vezes, voltam-se para fármacos na esperança de que esses contrabalancem o stress que advém do esforço para ser-se mais produtivo. Cruzei-me, recentemente, com uma solução inesperada e gratuita:

Contemplar.

A contemplação pode tornar-se um modo moderno de enfrentar o stress. É um tipo particular de meditação milenar praticado pelos monges que pode assumir um importante lugar no quotidiano. Mas talvez seja relevante entender a razão física do stress.

 

Origem

Há uma relação entre o stress e o aumento da pressão sanguínea. Independemente do estado psicológico de cada um, há uma reacção física do nosso corpo ao stress. A pressão sanguínea aumenta com a maior exposição a ambientes acelerados, sempre em mudança, e incertos, como acontece nos ambientes urbanos onde vivem cada vez mais pessoas.

A forma de responder a este aumento é evidente: relaxar.

Herbert Benson, um médico americano conta no seu livro ”The Relaxation Response” experiências feitas a pessoas que meditam, observando como, durante a meditação, houve uma diminuição do consumo de oxigénio e, consequentemente, o metabolismo das pessoas também diminuiu para níveis típicos de um estado de repouso, semelhante ao que acontece quando dormimos. Por outro lado, meditar diminui ainda o lactato sanguíneo associado à anxiedade.

Diz o Dr. Benson que «através do controlo de actos mentais voluntários, podemos alterar mecanismos “involuntários” no corpo, ou mecanismos do sistema nervoso», pelo que meditar é um desses actos mentais voluntários que vale a pena redescobrir a partir da sabedoria milenar humana.

 

Meditar contemplando

No século XIV, um monge anónimo escreve

”E se pensas que o trabalho é grande, então, podes procurar desenvolver modos especiais, truques, técnicas privadas e dispositivos espirituais por meio dos quais se pode pôr de lado outros pensamentos. E será melhor aprender de Deus estes métodos através da tua experiência do que por qualquer outro homem nesta vida.” (The Cloud of Unknowing, Anónimo)

A contemplação seria o resultado de uma experiência concreta que procurava re-centrar todo o nosso ser na busca de uma união mais profunda com Deus. De acordo com Santo Agostinho, preparar os momentos de contemplação passava muito pela recolecção.

Recolectar é o exercício de abstracção de recolher e juntar diversos pensamentos (memórias) e concentrar a mente. O objectivo consiste em desligar a mente de pensamentos exteriores (aquilo que os outros nos pedem, o que temos para fazer, as preocupações), de modo a produzir uma certa solitude mental.

Assim, existem quatro elementos básicos:

  1. um ambiente sossegado;
  2. uma palavra ou som repetido;
  3. uma atitude passiva;
  4. e uma posição confortável.

Quantas Igrejas vazias não se podem tornar no ambiente mais sossegado que temos à nossa disposição? Basta entrar.

Como palavra, quantas vezes não repetimos “Jesus” em plena Adoração ao Santíssimo, ou a palavra “Amor”? Repetir para nós a mesma palavra limpa a mente de todos os pensamentos exteriores que geram em nós stress.

A atitude passiva implica um esvaziar de todos os pensamentos e distracções (meter o smartphone em modo de avião, ou em modo de não incomodar), e acaba por ser o factor essencial que dá início ao relaxamento que baixa a pressão sanguínea e, com essa, o stress.

Por fim, a posição confortável permite-nos estar o tempo que quisermos na experiência de meditação contemplativa.

Cada acto de contemplação é um acto de amor a Deus porque cria no interior de nós mesmos o espaço para que Deus possa falar-nos, inspirar-nos, serenizar-nos e levar-nos a experimentar – ainda que por um breve tempo – um momento inesquecível de paz que pode influenciar o resto do dia.

O desafio de usar a contemplação como meditação que reduz o stress não é fácil quando não existe um lugar sossegado ou posição confortável nos momentos em que sentimos mais stress.

No Terceiro Alfabeto Espiritual, o livro do frade franciscano espanhol Francisco de Osuna que influenciou Santa Teresa de Ávila, referem-se dois exercícios que nos podem ajudar a encontrar momentos contemplativos nos momentos mais difíceis e lugares mais inesperados.

O primeiro exercício é olhar. Simplesmente. É um exercício de recolecção. Semelhante ao que fazemos durante uma Adoração, mas que podemos fazer no meio de uma multidão.

”Não vos digo para baixar, simplesmente, os vossos olhos, mas mantenham-nos fixos no chão, como homens que são aéreos e como se estivessem noutro lugar, permanecendo imóveis, e envoltos em pensamento. Algumas pessoas acham mais fácil recolectar se mantiverem os olhos fechados, mas de modo a evitar algum reparo dos outros, é melhor que na companhia de outras pessoas mantenham o olhar fixo no chão, num lugar onde haja pouco para ver, de modo a não estimular a nossa imaginação. Assim, mesmo no meio de uma multidão, podemos estar profundamente em recolecção se mantivermos o nosso olhar flectido e fixo num só lugar. Quanto mais pequeno e escuro for esse lugar, mais limitada a nossa vista estará e menos o coração se distrairá.” (Francisco de Osuna)

O segundo exercício é repetir a palavra ”não” de cada vez que tivermos pensamentos distractivos. Dizer “não” acaba por ser um modo de manter a atitude passiva que leva à contemplação.

O resultado final de encontrarmos formas inesperadas de meditar contemplativamente é agir sobre o corpo, reduzindo o stress; agir sobre a mente, libertando-a para criar; e agir sobre o espírito, porque rezar não é uma questão de ver Deus, mas de estar com Deus.

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