Uma paróquia portuguesa em Paris

Comunidades migrantes ganham visibilidade com visita do Papa a França

Foto: Fundação AIS

Terminou esta segunda-feira a visita do Papa a França. Foi uma visita histórica. Há 18 anos que o sucessor de Pedro não ia oficialmente a este país onde vive e trabalha uma grande comunidade de portugueses ou luso-descendentes. Para eles, a visita foi um tempo de festa, mas também de afirmação de uma presença no país. A Paróquia do Sacré-Coeur, em Gentilly, que aos Domingos se transforma numa autêntica igreja portuguesa, também acompanha com atenção o que se passa no mundo no que diz respeito à perseguição aos Cristãos… E o próprio Papa falou disso, referindo-se à Fundação AIS…

  Terminou nesta segunda-feira, dia 28, a visita histórica do Papa Leão XIV a França. Uma visita que foi acompanhada com muita alegria e atenção pela numerosa comunidade portuguesa que reside e trabalha neste país. Dois sacerdotes, um deles frade dominicano e o outro o capelão da paróquia portuguesa em Gentilly, falaram à Fundação AIS sobre a importância desta visita e também sobre o enorme dinamismo de fé que existe actualmente entre os migrantes, que estão atentos também ao que se passa no mundo no que diz respeito à perseguição aos Cristãos. Calcula-se que, em toda a França vivam, actualmente, cerca de 1,7 milhões de portugueses ou luso-descendentes. Só na região de Paris serão mais de 200 mil. A Paróquia do Sacré-Coeur, em Gentilly, é o ponto de encontro dos católicos portugueses que vivem na capital francesa. O Padre Rui Manuel Silva Pedro é, actualmente, o capelão desta paróquia, mas toda a sua vida tem sido, de certa forma, dedicada ao serviço dos migrantes lusos. Antes, este padre scalabriniano que nasceu em Peniche, esteve no Luxemburgo e até já foi director nacional da Obra Católica Portuguesa das Migrações. Hoje, em Gentilly, ele acompanhou o entusiasmo com que os portugueses participaram no acolhimento ao Santo Padre, dando resposta, aliás, aos apelos nesse sentido da própria Diocese de Paris. “O primeiro, foi o apelo a voluntários, e tivemos portugueses inscritos no voluntariado, o apelo também ao dom, e num destes fins de semana dedicámo-nos a recolher dons para as despesas do Papa, e também nos inscrevemos ‘online’ nos vários momentos de oração e de encontro”, explicou o sacerdote à Fundação AIS. “Tivemos 20 jovens inscritos para a Vigília dos Jovens no Estádio de França, tivemos 60 cristãos da comunidade inscritos para a Missa com o Papa na praça da Concórdia, e os religiosos que estão na paróquia, eu e o Irmão Nuno, dehoniano, participámos nas Vésperas na Catedral de Notre-Dame, em Paris”, acrescenta. Para os portugueses esta foi uma visita especial. Mas não só para os portugueses. Todos os migrantes escutaram com atenção as palavras de Leão XIV. Afinal, a Diocese de Paris tem 25 comunidades de imigrantes e cada uma delas com problemas e aspirações muito próprios. “Nós continuamos o nosso processo de participação na Igreja local, para que nos integremos serenamente, para haver um enriquecimento recíproco entre nós e também os franceses, de modo que tomemos esta consciência, e a diocese igualmente, que as comunidades de imigrantes são comunidades vivas e importantes para o futuro da Igreja e também do seio delas estão a surgir muitos catecúmenos”, observa o Padre Rui Silva Pedro.

Efervescência da vida cristã

Também o Frade dominicano Luís Almeida Monteiro destaca o dinamismo de fé das comunidades migrantes. Actualmente a viver em Zurique, na Suíça, onde é capelão da missão católica francesa, o religioso português acompanha tudo o que se passa neste país onde já desempenhou cargos de enorme relevo. Foi secretário-geral da província dominicana francesa, director da biblioteca da congregação e chegou a ser o capelão-adjunto da comunidade portuguesa em Auteil. E em Zurique, onde está, diz que sente bem o entusiasmo na vida religiosa dos franceses. “Aqui, particularmente em Zurique – diz o frade dominicano –, onde recebo quotidianamente cristãos franceses, vejo uma efervescência da vida cristã, com jovens que batem também aqui à porta da igreja, particularmente vindos de França”, diz. Para Frei Luís Monteiro, os quatro dias da presença do Papa em França permitiram “colocar os projectores sobre aquilo que se está a viver no país e também as dificuldades, as grandes dificuldades que se vivem no país, dificuldades de ordem económica, dificuldades de ordem social”, refere o dominicano, lembrando que esta visita de Leão XIV ocorreu também num tempo em que há um “fenómeno recorrente de profanação de igrejas em França, não apenas em França, mas particularmente em França”. O Padre Rui Pedro assinala também essa onda de violência que muitas vezes tem passado despercebida aos olhos da maioria das pessoas. “Tem existido recentemente, em algumas partes de França, actos de fanatismo, actos de vandalismo das igrejas, houve igrejas incendiadas, houve sacerdotes que foram assassinados recentemente também, tem havido vários acontecimentos que nos deixam alguma preocupação”, diz “E também connosco, em Chantilly, se passa a mesma coisa. De facto, não temos a igreja aberta se não houver vigilantes e esta insegurança paira no ar em várias partes da cidade de Paris. Mas não só na igreja, também no metro, também nos transportes, tem havido de facto cenas desagradáveis que nos levam a ter muita cautela nas nossas deslocações também”, explica o sacerdote português.

Uma paróquia de Paris atenta à Fundação AIS

Mas, à parte a violência, é significativa a vida da comunidade migrante. Tal como o frade dominicano tem observado na sua comunidade, no coração de Paris a vida religiosa está muito activa. Em Gentilly, explica o Padre Rui Pedro, a Missa dominical é participada por cerca de 1.200 pessoas, oriundas de várias zonas de Paris, e há ainda cerca de 300 crianças na catequese. “E, nos últimos tempos, de ano para ano, têm aumentado os pedidos de adultos para serem baptizados”, sublinha o sacerdote, que em França acompanha com atenção o trabalho da Fundação AIS. E agora, com uma razão acrescida: é que o Papa falou expressamente da AIS a propósito da ajuda que é dada aos Cristãos do Médio Oriente. Uma ajuda que é conhecida também em terras de França, assim como a informação que é partilhada sobre a perseguição às muitas comunidades cristãs perseguidas no mundo. “Temos acesso ao relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, da Fundação AIS, e nós procuramos sensibilizar os nossos cristãos para o que se passa na Nigéria, em tantos países onde, de facto, hoje acontece a perseguição aos Cristãos, de modo a que os nossos cristãos portugueses, lusófonos, que felizmente não vivem em estado de perseguição, possam ter esta dimensão missionária, serem informados do que se está a passar em algumas partes do mundo, serem solidários também na oração e em donativos e ter esta consciência de que, de facto, hoje há irmãos nossos no mundo que são fiéis ao Evangelho, resistem às dificuldades em países onde não há liberdade religiosa e também temos irmãos que são perseguidos, acusados injustamente e estão presos”, refere o sacerdote à Fundação AIS.

Paulo Aido

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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