Jacinto Lucas Pires

Se não estamos “de corpo inteiro” nos lugares (porque sempre “ligados”, sempre “noutro sítio”), perdemos capacidade de dialogar com o que aí acontece, perdemos possibilidades de espanto.

Há uns anos, estava a assistir a um Braga-Benfica, e um remate falhado sobressaltou-me como um verso modernista, um refrão de Lou Reed, um cometa na noite. A bola subiu demais, passando por cima da baliza e foi bater na grande rocha, na carne nua da montanha — que não devia estar ali. Foi o que senti na altura, foi esse o meu espanto sem palavras: aquilo não devia estar ali. Uma rocha num estádio? Uma montanha atrás da baliza? De repente, graças a uma bola errada, aquele jogo profissional da primeira divisão ganhava qualquer coisa de peladinha entre amigos. Que silêncio, queridos leitores. Na minha memória, o estádio calou-se e ouvimos todos o silêncio daquele esférico improvável tocando na pedra e regressando à relva. Um espanto monumental. Todos nós, adeptos, jogadores, treinadores, jornalistas, árbitros (sim, até os árbitros, talvez) sofrendo aquele lugar, aquela arquitetura, em ricochete. Por assim dizer — isto não é muito científico. Mas foi tão bonito que nunca mais esqueci.

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