Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

A assembleia plenária do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, na Polónia, foi uma oportunidade pessoal de acompanhar e transmitir aos leitores as várias sensibilidades que existem, neste momento, face aos vários desafios enfrentados pelo (cada vez mais) Velho Continente. Depois do discurso da Europa a “duas velocidades”, é justo falar agora de uma Europa a “muitas vozes”.

Nos países saídos dos antigos regimes comunistas, existe um forte receio perante tudo o que pareça implantação forçada de um pensamento único, venha ele de Moscovo ou de Bruxelas. Esta sensibilidade é necessária na gestão dos assuntos comunitários, por exemplo, mas é também um desafio ao diálogo com a Europa ocidental cada vez mais secularizada e seca, afastada de um conjunto de valores e ideais comuns que foram a fonte que irrigou a sua história.

Décadas depois do colapso dos regimes totalitários, o território europeu continua a ser de “missão”, no sentido católico do termo. Bento XVI alertava para uma nova ditadura, a do “relativismo acompanhado pelo domínio da técnica”. O Papa Francisco não se cansa de chamar a atenção para a cultura da “indiferença”. Duas perspetivas que se complementam no olhar sobre o que se vai perdendo, em termos de identidade, no continente europeu.

A crise, hoje, não é institucional, é de humanidade. Mas é necessário um fundamento comum de valores, de solidariedade entre países e de esperança para que os cidadãos europeus deixem de ser vistos como um problema para os seus líderes políticos, muitas vezes mergulhado em questões menores ou demasiado virado para si mesmo. Como já disse, há vários anos que “Bruxelas” está a deixar de ser o símbolo de paz e unidade europeias para passar a ser uma espécie de papão para as faixas da população mais desprotegidas. A chegada em massa de refugiados e migrantes só vem agravar a situação.

A esperança da reunificação após o fim da cortina de ferro é um património demasiado importante para que o deixemos desaparecer. Os mentores desta nova Europa (reunificada, para os políticos; reconciliada, para a Igreja) têm de estar atentos às necessidades concretas das populações que são chamados a servir – esse fim nobre da política que cada vez mais parece mais esquecido…

A Europa precisa de redescobrir-se, nos valores que lhe deram origem e nas intuições que fundamentam esses valores, de forma a querer ser “seguida” pelos seus e pelo mundo. Negligenciar este património é comprometer o futuro deste projeto político.

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