Um olhar católico sobre a Sida em África

Em 20 anos podem existir 90 milhões de pessoas infectadas As Nações Unidas acreditam que, dentro de 20 anos, no continente africano vivam cerca de 90 milhões de pessoas infectadas com o vírus da Sida. O estudo, intitulado “A Sida em África” e que, durante dois anos, envolveu 150 especialistas, revela que os actuais 25 milhões de africanos portadores do vírus da Sida podem, em, duas décadas, passar a ser 90 milhões, ou seja, 10% de toda a população do continente. Jesús Romero, responsável pelas Missões de Paz da Comunidade Santo Egídio, revela à agência Zenit a sua convicção de que “se a Sida não for atacada, a África desaparecerá”. A Comunidade romana leva quase uma década de trabalho pela erradicação da Sida em Moçambique e, devido aos resultados positivos, o seu trabalho foi estendido a outros países africanos (Malawi, Angola, Nigéria, Guiné Bissau, Guiné Conacri, África do Sul, Suazilândia). Durante os últimos quatro anos foi colocado em andamento um projecto que combate o contágio por via materno-infantil, o DREAM (Drug Resource Enhancement against Sida and Malnutrition). O projecto obteve os melhores resultados até hoje na África subsaariana: 97% das crianças nascidas de mães seropositivas nasceram imunes ao HIV. Além disso, nove em cada adultos tratados com a triterapia, coadjuvada por um adequado regime alimentar, vivem bem e levam uma existência normal. Dream é um projecto oferecido de forma totalmente gratuita. Dos 70.000 pacientes tratados com anti-retrovirais, 7.000 gozam da cobertura oferecida pelo programa da comunidade de Santo Egídio em Moçambique, e quase 4.000 são seguidos pelo regime terapêutico. Jesús Romero relata que a luta contra a Sida por parte da Comunidade de Santo Egídio começou no ano de 1996, com a chegada dos anti-retrovirais, num esforço para que estes pudessem chegar à África. Este responsável lembra que há uma diferença substancial entre Europa e África no que diz respeito ao tratamento da Sida: “na Europa, o doente de Sida tem, em geral, as suas necessidades básicas cobertas – alimentação, o acompanhamento médico, a atenção familiar, ou inclusive a própria saúde -; na África, o povo que vem aos nossos centros tem carências de saúde, de alimentação, etc.”. “A luta contra a Sida na África teria de ser elaborada desde uma perspectiva global da pessoa, não só desde o ponto de vista farmacológico. Por isso, o que montamos é uma aproximação global à doença, que inclui visitas de operadoras de saúde às casas dos doentes, um suplemento nutricional, um seguimento familiar e a administração gratuita da terapia”, explica. Sobre a rejeição do preservativo como medida preventiva da Sida, por parte da Igreja Católica, Jesús Romero defende o trabalho feito nos moldes actuais pela Comunidade de Santo Egídio, lembrando que “o resto das medidas elaboradas até agora monstraram-se insuficientes ou não funcionam”. Na mensagem para o Dia Mundial do Doente 2005, celebrado em Fevereiro, João Paulo II lançou um apelo para que se combata a Sida através “da castidade e de uma sexualidade correcta”. “Para combater a Sida de uma maneira responsável, é preciso aumentar a prevenção pela educação para o respeito do valor sagrado da vida e a formação para uma prática correcta da sexualidade”, refere. A mensagem dedica grande parte da reflexão ao continente africano e à epidemia que o afecta. Em relação ao número crescente de contágios pela via sexual, o Papa vinca que “eles podem ser evitados, sobretudo através de uma conduta responsável e do respeito à virtude da castidade”. A mensagem papal encoraja as organizações internacionais a “promover iniciativas inspiradas pela sabedoria e a solidariedade, visando sempre a defesa da dignidade humana e o direito inviolável à vida”. A crítica à indústria farmacêutica é retomada, com o Papa a apontar que “face às emergências da Sida, a salvaguarda da vida humana deve ser tomada acima de qualquer outra consideração”.

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