D. João Lavrador, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais

D. João Lavrador

O Papa Francisco ao criar um Dicastério para a Comunicação Social manifesta o relevo que esta tem na sociedade e na cultura actuais. Quanto á afirmação de que estamos perante uma nova cultura que emerge do digital e que tem uma expressão muito forte nas redes sociais é algo que vai penetrando na consciência da Igreja.

A partir de uma certa época, a Igreja reconheceu que já não estamos perante um desafio do modo de utilização dos meios de comunicação social mas estamos perante a enorme interpelação que advém de uma nova cultura.

Basta ver o conteúdo das mensagens dos últimos Papas para o Dia Mundial das Comunicações Sociais para nos depararmos com a mudança de linguagem e de conceitos.

Sobretudo o Papa Bento XVI e o actual Papa Francisco dedicaram grande número de mensagens a esta temática do digital e das redes sociais, focando o novo paradigma de uma cultura que emerge desta realidade comunicativa.

A partir do Sinodo dos Jovens, o Papa Francisco, atento como está à realidade, porque de jovens se trata, não poderia deixar de se referir à cultura emergente, muito relacionada com os jovens, dependente do digital e divulgada nas redes sociais.

Na verdade, importa tomarmos a sério esta realidade que se nos impõe. A evangelização que para ser profunda e abrangente não poderá prescindir da cultura, também agora se sente por ela confrontada tal como fica definida atrás.

Também aqui podemos citar as palavras de S. Paulo VI que dizem «importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem, no sentido pleno e amplo» (EN, 20). E, ainda, «o Evangelho, e consequentemente a evangelização, não se identificam por certo com a cultura, e são independentes em relação a todas as culturas» (EN, 20).

Porém, devemos tomar consciência que «o reino que o Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura, e a edificação do reino não pode deixar de servir-se de elementos da civilização e das culturas humanas» (EN, 20). O alento para evangelizar num contexto cultural novo advém da certeza que «o Evangelho e a evangelização independentes em relação às culturas, não são necessariamente incompatíveis com elas, mas susceptíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas» (EN.20).

Serve também para este tempo que exige uma nova evangelização que não poderá descurar a nova cultura emergente enraizada no digital e tecida nas redes sociais a advertência que lemos na Evangelii Nuntiandi quando afirma que «a ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi também de outras épocas» (EN, 20).

No contexto de uma autêntica evangelização «importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa evangelização da cultura, ou mais exactamente das culturas» (EN, 20). Aliás, «estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa Nova» (EN, 20). Contudo, tal como noutras épocas da história da evolução cultural, «um tal encontro não virá a dar-se se a Boa Nova não for proclamada» (EN, 20).

Tomada a sério a cultura actual que está determinada pelo digital, teremos de encarra os enormes desafios que ela nos coloca. Para nos ajudar a esta nova forma de nos relacionarmos e às novas linguagens, teremos de dar lugar aos jovens nas nossas comunidades, dotando-os de verdadeiro protagonismo e integrando-os para que eles, em relação mútua, com outras idades, não só amadureçam a sua personalidade mas também introduzam a sua comunicação no interior da Igreja e das suas instituições.

Um novo tempo a exigir uma nova evangelização na qual os jovens devem ter um protagonismo activo.

Estamos a iniciar uma caminhada rumo à JMJ 2022 que muito poderá ajudar a concretizar estes objectivos.

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