A caminho da solenidade do Natal, o presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade fala à Ecclesia e Renascença sobre os desafios de celebrar o nascimento de Jesus em tempos de Covid-19

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)

 

Apesar das limitações impostas pela pandemia, vai ser possível celebrar a Missa do Galo, este ano. É um sinal positivo?

Sim, com todo o cuidado que requer, mas é um sinal de esperança porque nós podemos até ousar dizer que nós não podemos viver sem o Natal, tem uma relação muito estreita com a Páscoa que é o centro da nossa fé. Os cristãos sentiram necessidade em primeiro de celebrar a Pascoa e nunca o deixamos de celebrar. Mas a partir do século IV, a solenidade do Natal ocupou também um lugar importante na liturgia da Igreja. Por relação com o 25 de março, por relação também com a festa pagã do deus sol, mas seja como for, a noite de Natal e tudo aquilo que envolve a solenidade do Natal, sobretudo as quatro Missas: da Vigília, da Noite -aquela que habitualmente se chama a do galo – a da aurora e a do dia, são como que este mistério que é mais luminoso que o sol.

 

Em março, a Conferência Episcopal determinou a suspensão das celebrações comunitárias e veio depois a adotar regras para o seu regresso, que se mantêm até hoje. É seguro ir à igreja? As comunidades católicas deram o exemplo?

Com todos os dados que dispomos é seguro e é de confiança. Nós estamos no estrito cumprimento das regras sanitárias e numa cooperação recíproca com as autoridades civis e da saúde e daquilo que conhecemos tem sido exemplar o comportamento das comunidades. E nisto centramo-nos também no essencial e além de todos os cuidados de saúde e de proteção, as comunidades valorizaram também muitos aspetos que antes não estavam tão sensíveis, como por exemplo o acolhimento, os grupos de acolhimento. Há quem já diga também que se devia restaurar os antigos ostiários – aqueles que acolhem à porta das Igrejas – e não apenas para dar o gel e indicar o lugar, mas para criar esta relação de que é uma família de famílias, de não termos medo de celebrar presencialmente a nossa fé. Porque sem a Eucaristia é que não podemos viver. Os mártires de Abissínia diziam não podemos viver sem o domingo, mas eles estavam a dizer isto para as autoridades pagãs. Mas nós podemos reinterpretar e numa boa exegese dizer: nós não podemos viver sem o memorial do domingo. Isto é a Eucaristia, que pode não ser ao domingo como dia próprio da semana, mas pode ser num outro dia da semana quando estamos impedidos por motivo de força maior de nele participar. Felizmente que em todas as Dioceses e em todas as comunidades – daquilo que nos é dado conhecer – tem sido exemplar a celebração, a preparação. Todo o cuidado no antes, no durante e o depois.

 

Falou do acolhimento e das pistas dadas para futuro. Mas que outro ensinamento a Igreja apreendeu com estas limitações impostas pela Covid-19? E como olha, já com alguma distância para o que se passou, sobretudo para o facto de termos assistido a exceções por vezes incompreendidas? 

São enormes os desafios desta pandemia que ainda está em curso. Não podemos já fazer a avaliação do que aconteceu porque ainda não sabemos em que etapa estamos destas várias ondas que têm acontecido. Aquilo que nós, desde a primeira hora, fizemos é numa colaboração muito aproximada com as autoridades civis e as autoridades de saúde atendendo sempre ao bem maior que é o dom da vida. E apelamos sempre ao bom senso e à coerência. Às vezes algumas determinações ou orientações não foram muito claras e não houve o diálogo necessário, mas penso que tudo isso foi ultrapassado no diálogo com a Conferência Episcopal Portuguesa, com o seu presidente com aqueles que estavam no grupo de trabalho e de relação com as autoridades governamentais. E as orientações que nós elaboramos e que estão em vigor desde o dia 8 de Maio são da responsabilidade da Conferencia Episcopal Portuguesa com homologação da parte das autoridades da saúde, porque nós queremos, como dizia São João Bosco, ser sempre honestos cidadãos e bons cristãos, na responsabilidade  e numa cidadania ativa e responsável. Mas são inúmeros os desafios. A Conferência Episcopal como já foi anunciado, no dia 1de janeiro apresentará também um documento exatamente sobre isso, sobre os desafios patronais que se põem à Igreja e à sua presença no mundo e sobretudo à sua grande missão que é a Evangelização. O que é que aprendemos, o que é que aprofundamos e quais são os desafios de esperança, na realidade concreta das nossas comunidades, nós queremos operacionalizar e queremos melhorar. Porque este tempo foi de grande aprendizagem, de grande humildade, e também de nos situarmos na nossa própria fragilidade. Mas com a força e a confiança de que Deus não nos abandona e que está connosco até ao fim dos tempos. E mesmo em barca agitada como recorda o Papa Francisco, Ele está connosco. E acreditamos que Ele não nos abandona e a Igreja é este sinal, se quisermos o Sacramento de salvação que mesmo sendo noite, mesmo nesta pandemia não fica retirada da sua missão e nunca esteve inoperacional, mesmo quando em momentos mais delicados não teve a celebração comunitária da fé. Mas, nunca deixou de exercer a sua ação pastoral na caridade, na educação e aqui nós temos, e nunca é de mais relevar o trabalho das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), das comunidades, da Cáritas, de tantos outros grupos, de tantos homens e mulheres que deram do seu tempo e da sua vida para que ninguém ficasse de fora. E nós continuamos não só na celebração, mas naquilo que é a nossa própria missão, a apelar contra o medo. O tempo de Natal é isso mesmo. A noite de Natal vem ecoar de novo aquilo que os anjos disseram aos pastores: ‘Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, nasceu o Salvador’. E é ter esta consciência de que somos amados e perdoados por Deus, que uns com os outros e uns aos outros nos temos de ajudar para vencer as dificuldades com as quais nos deparamos e de um modo especial neste tempo de tanta dor, de tanto luto, de tanta incerteza, da crise sanitária que depois despoletou tantas outras crises e também espirituais.

Há uma preocupação que persiste, que tem a ver com os mais velhos. A CNIS, por exemplo, recomenda às pessoas que estão em Lares que evitem deslocações. Isto cria, desde logo, a questão da celebração eucarística do Natal, porque a recomendação é que não vão a casa de familiares, como fariam noutra situação, para evitar contágios. O que é possível fazer para equilibrar estas duas preocupações?

Todo o cuidado é pouco, de facto, mas é possível, por tantos meios… Nós, na nossa cultura, com toda a afetividade que envolve a celebração do Natal, vemos que é muito doloroso o que está previsto para os lares, de um modo especial, e para a reunião mais alargada das nossas famílias.

Eu tive uma celebração num lar, na Fundação Betânia, aqui em Bragança, que tem um plano de contingência bem elaborado: foi possível celebrar, sem ter de passar pelo meio das pessoas, com uma entrada própria. Na celebração, sentia, eu próprio me comovi, interiormente, com aqueles olhares, com aqueles rostos, via uma grande comunidade. É possível celebrar e levar esta palavra, esta presença, mesmo para a distribuição da Comunhão foram dois colaboradores, que tornei ministros da Comunhão, no próprio ato da celebração, para evitar contactos, medos, perigos de contágio.

Como o Papa Francisco fala na carta que escreveu a propósito do Ano de São José, é preciso ter uma coragem criativa, que não ponha em causa a vida das pessoas, sobretudo dos nossos mais velhos, que são o nosso património, a nossa sabedoria, o nosso maior enlevo. Com a nossa coragem, com a nossa inteligência, com a nossa delicadeza, vamos levar-lhes esta ternura, comunicar essa ternura, nos meios que hoje são possíveis.

Alguns não entendem, pela sua idade, pela sua debilidade, mas a maioria compreende. Sofre no coração, mas para que possam ter mais Natais, como nós recorrentemente vamos dizendo, é preciso que este tenha todos os cuidados. Sublinho, todo o cuidado é pouco, mas esse cuidado não nos pode desviar da cultura do cuidado, da cultura do encontro, como o Papa propõe para o Dia Mundial da Paz de 2021.

Comunicar a ternura, a bondade, a misericórdia, está ao alcance de todos nós, nos Lares, nas famílias, nas paróquias. Hoje as pessoas têm consciência da gravidade da situação, mas isso não nos pode impedir do encontro possível e, sobretudo, de olharmos ao essencial.

Este Natal também nos remete para o essencial, para o amor, para a relação, para a ternura, para a compaixão, não como estratégia ou sinal que queiramos fazer, mesmo nas nossas instituições, mas porque é da nossa própria natureza. Isto vem-nos da própria celebração do Natal, que é Deus-connosco.

 

O Natal é um dos momentos centrais das celebrações litúrgicas, desde muito cedo. Como se afirmou esta celebração, ao longo dos séculos, até chegar ao que representa hoje, até em termos sociais e culturais?

É uma grande história. Desde o início há o dia de Páscoa, o domingo como Páscoa, semanal, mas, do que sabemos, só a partir do século IV se começou a celebrar o Natal. Com as proporções que temos hoje, é preciso recuar uns oito séculos, voltar a São Francisco de Assis, à sua mensagem tão atual, hoje, quando ele, naquela noite de Natal (1223), quis representar o próprio nascimento, o que tinha visto nos mosaicos de Santa Maria Maior, o que tinha visto na Terra Santa, em peregrinação. Quis transpor isso para Greccio e convidou os seus amigos para essa representação, mas quis que se fizesse ao mesmo tempo que se celebrava a Eucaristia. Não desligando a Eucaristia da representação do Natal, como se fosse algo teatral. Belém é a casa do pão, este que nasce é o pão da vida: só na celebração da Eucaristia tem sentido isto mesmo.

Depois, foi sendo decalcado, celebrado e assumiu estas proporções, que temos hoje, com a solenidade própria do Natal e, como já dissemos, a Missa da Vigília, da. Noite, da Aurora, do Dia; depois a Oitava, como na Páscoa. É sempre esta relação íntima do Natal com a Páscoa, como nos remetem as próprias orações da Liturgia neste dia (sobretudo a oração coleta na Missa da Noite e do dia), e até a própria luz, as luzes, como Cristo a verdadeira luz do mundo. Tudo isso é um reflexo da Vigília Pascal, que para nos é o momento central de todo o ano litúrgico.

Esta celebração não pode ser de modo nenhum infantilizada! O Natal é para os adultos na fé, que transmitem aos mais novos esta Luz que passa de geração em geração (como diz aquela canção para as crianças: ‘esta Luz pequenina vou deixá-la brilhar!’). É importante que todos nós cuidemos dela e nunca a deixemos a pagar. Ligadas à celebração do Natal estão as coroas do Advento, a Luz da Paz Belém que os escuteiros têm introduzido em todas as dioceses e comunidades. Esta passagem da Luz que, naquela noite com um misto de mistério, magia, encanto e encontro, nós queremos transpor como a vontade e comunicar algo que nos ultrapassa.

Mesmo este ano – daquilo que me é dado constatar –, nunca houve tanta luz e cor nas cidades vilas e aldeias! É a vontade de trazer esperança, soluções! E o Natal pode até ser para nós este laboratório de esperança para acolher com surpresa a vida que Deus nos oferece.

 

Foto: Lusa

Na última audiência geral, o Papa Francisco convidou a purificar o modo de viver e festejar o Natal, sobretudo saindo de uma visão mais consumista. Este ano esse é um desafio mais visível? Quais são os seus votos para a celebração do Natal em tempos de pandemia?

Sublinho o que o Papa Francisco tem dito, sobretudo nas audiências e na oração do ângelus, nesta preparação do Natal, também provocatoriamente. ‘No Natal as pessoas dizem: o que eu vou comprar?’ Deviam pensar: ‘o que é que eu vou oferecer, o que é que eu vou ser mais parecido com o que celebramos neste mistério de luz’.

Não encontrei palavras melhores e por isso propus na mensagem de Natal e vou propor na Noite de Natal: um poema de uma monja beneditina que partiu para a Páscoa eterna há pouco mais de um ano, mas deixou uma fecundidade espiritual, sobretudo num Mosteiro da Ilha de San Giulio, na Diocese de Novara, com 100 monjas, tendo começado com cinco companheiras. É Ana Maria Cànopi. Ela diz assim: ‘Perco-me na profundidade do grande mistério; mistério luminoso na noite, mistério do eterno no tempo, mistério do espírito na carne, mistério do tudo no nada’.

E a busca, o encontro com este mistério, desafia-nos desta vez, este ano, neste Natal, a reinventar a esperança. É esta mensagem de esperança e de proximidade que gostaria de deixar a todos e a cada um e obrigado por esta oportunidade!

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