Vice-diretor da Faculdade de Teologia analisa a relevância do saber teológico e o trabalho de uma escola fundada há 50 anos.

No dia da Faculdade de Teologia, o padre Alexandre Palma afirma que a “inquietação intelectual” leva cada vez mais gente ao curso de Teologia, que não se destina apenas a futuros sacerdotes, fala da aposta na internacionalização, da necessidade de se fomentar o diálogo científico e cultural, da salutar “tensão” entre “progressistas” e “conservadores”  e considera natural que a Faculdade seja atualmente liderada por uma mulher leiga, porque a Faculdade de Teologia “não é deste ou daqueles”, mas de toda a Igreja.

Ângela Roque (Renascença), Paulo Rocha (Agência Ecclesia)

 

Agência Ecclesia/MC

Na abertura das comemorações dos 50 anos, a direção da Faculdade de Teologia considerou que é preciso “redescobrir” e “reforçar” o papel central da Teologia no universo dos saberes. O que é que está a ser feito para atingir este objetivo?

Desde logo deixe-me vincar a importância dessa indicação. Creio que o lugar da Teologia é aqui duplo: é um trazer do pensar académico para o interior da vida da Igreja, mas é também um trazer do pensar teológico, crente, para o seio da comunidade académica no geral, em Portugal. Neste sentido, a Faculdade de Teologia está um pouco nesta charneira, trazendo a voz do pensamento académico para o seio da Igreja e trazendo o que é a problemática da fé, do pensar teológico, para o espaço público. O que é que está a ser feito? A primeira coisa é aquilo que uma faculdade tem de fazer todos os dias, que é formar novas gerações, responder às solicitações dos alunos, formá-los, esse é o primeiro serviço, que é pessoa a pessoa, aluno a aluno, onde se constrói esse lugar, essa voz da Teologia no espaço público e na vida da Igreja. Mas, depois existem outras dimensões, o trabalho de investigação, a publicação, a presença nos média, como é aqui o caso…  Ou seja: trazer também a vitalidade da Faculdade de Teologia para o espaço público, é estar seguramente ao serviço disso.

 

Mas há um ‘acantonamento’ da Teologia, circunscrito por vezes a um grupo de alunos, nomeadamente aqueles que se preparam para o sacerdócio? Ou há um alargamento de fronteiras?

Nós procuramos acolher todos aqueles que nos batem à porta. De facto, existe um número significativo de candidatos a ministérios na Igreja, de vária índole, provenientes de dioceses, congregações, masculinas e femininas. Temos também um público de leigos, em termos de alunos, que procuram formação nesta área, seja por curiosidade, procura de um certo perfil profissional ou por formação ao longo da vida, gente que tem outras graduações noutras áreas e quer enriquecer-se sob este ponto de vista. Estes são os nossos públicos, diversificados na geografia em que a Faculdade está presente – Lisboa, Porto e Braga. Portanto, vamos ao encontro disto que procuram. Não quer dizer que não procuremos também, de alguma maneira, abrir as portas a outros públicos, e aqui o facto de sermos uma unidade dentro de uma Universidade, permite-nos e estimula-nos a ter esta inter e transdisciplinaridade, que nos põe necessariamente em contacto com outros saberes, com outras ciências, com outras disciplinas e com outros públicos.

 

Outro desafio é a internacionalização da Faculdade, o relacionamento com outras instituições de ensino, a partilha de investigação. O que é que está a ser feito?

Isso decorre daquilo que estávamos a dizer. Essa abertura não é apenas à comunidade nacional, mas hoje tem a escala do próprio mundo, como tudo tende a ter. A Faculdade de Teologia é, até sob este ponto de vista, precocemente internacional, porque estando em parte suportada numa certa dinâmica eclesial, onde existia já uma grande circulação de estudantes estrangeiros que vêm estudar para Portugal, de portugueses que são missionários, existe já uma tradição de internacionalização relativamente precoce ao nível do corpo discente. O que é que estamos a fazer? Precisamos de responder a solicitações neste campo discente, mas também no campo dos professores, da investigação, da colaboração, temos aproximado muito as relações com várias escolas, várias academias, várias faculdades no Brasil, temos no nosso Plano Estratégico (2015-2010) uma atenção muito particular – e queremos ter cada vez mais –  ao mundo africano de língua oficial portuguesa. Também é uma linha estratégica de serviço à comunidade, à sociedade, à universidade, que queremos assumir. Depois, obviamente, também estimulando parcerias com escolas na Europa, faculdades, que já temos.

Deixe-me também acrescentar este ponto – não é apenas a parceria com instituições académicas, que isso é o nosso core business, é o mais natural, mas temos uma panóplia bastante considerável de parcerias com outras entidades da sociedade civil, desde a Cáritas a fundações, ao CNE (Corpo Nacional de Escutas), pedidos de dioceses. Ou seja, procuramos de alguma maneira interagir com a sociedade civil, não só na sua presença académica.

 

A interação e as parcerias com outras instituições académicas acontece a nível internacional. A nível nacional isso é impossível?

A nível internacional é um esforço grande. Somos sempre poucos, mas temos feito um caminho nesse sentido, de irmos lecionar fora, acolhermos professores cá, trânsito de docentes, trânsito de discentes. Internamente é possível, desde logo, dentro da própria Universidade Católica. Não posso deixar de reconhecer o lugar das outras Faculdades no interior da UCP, com quem temos laços de grande proximidade e de serviço recíproco. Por exemplo, existe uma unidade letiva transversal a todos os cursos da UCP, na sua maioria, chamada ‘Cristianismo e Cultura’, que é lecionada a partir da Faculdade de Teologia nas outras unidades e vice-versa. Também contamos com as competências dos nossos colegas da área de Estudos de Cultura, da Gestão, para virem, em alguns pontos, trazer formação aos nossos estudantes.

 

E com outras Universidades?

Com outras faculdades, temos pontualmente boas relações, por exemplo, com a Faculdade de Letras (de Lisboa).

 

Até ao nível de estudos?

Ao nível de estudos e de investigação. Podemos partilhar trabalho conjunto com investigadores de outras faculdades. Ou seja, nós não estamos fadados a uma certa insularidade e é isso que tentamos combater. Se aquilo que tem presente na sua pergunta é uma certa a ausência da teologia, uma certa dificuldade …

 

Ou exclusividade da Faculdade de Teologia na investigação teológica em Portugal…

Como unidade de ensino e investigação especificamente da teologia, sim, somos caso singular no cenário português.

 

Existem depois as Ciências Religiosas…

As Ciências Religiosas como um curso de alguma maneira associado à teologia e temos querido desenvolver nos últimos anos  – e esta é também uma linha do nosso Plano Estratégico –  a área de Estudos de Religião, onde podemos cooperar com muitos investigadores de várias áreas, e de várias academias.

 

Fazia também parte do Plano Estratégico a criação do Instituto de Estudos de Religião. O balanço é positivo?

O Instituto teve um arranque com um conjunto de seminários e de propostas de estudos avançados em alguns tópicos particulares. Por exemplo, o que é a relação entre a religião e a secularidade, entre a fé e a secularidade, neste dinamismo da secularização. Neste momento o Instituto está num certo reajuste da sua própria estrutura, mas o balanço é positivo, sendo que os Estudos de Religião estão também desenvolvidos no âmbito do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER), que também foi criado para estimular a relação entre Teologia e Estudos da Religião e também o Centro de Estudos de História Religiosa, que é um centro de estudos da Faculdade de Teologia, com créditos firmados e já com um grande historial de serviço à academia e à sociedade civil.

 

Entre os ‘cinco passos em cinco anos’, definidos no Plano Estratégico, está o diálogo científico e cultural. Qual o contributo da Faculdade de Teologia para essa intervenção sociopolítica na sociedade, a partir do património que investiga, nomeadamente a Doutrina Social da Igreja?

Eu não afunilaria nas questões apenas da Doutrina Social. Por exemplo, este tópico que estava a levantar, que é ajudar a perceber que o religioso não se extingue nas sociedades pós seculares, é algo que, em alguns âmbitos, é ainda um pouco contra intuitivo. E este tem sido um esforço, baseado até em estudos empíricos que foram desenvolvidos por docentes e investigadores da Faculdade de Teologia, que têm procurado evidenciar a presença do religioso, disseminada, menos institucional com certeza, com muitas dinâmicas e em transformação, seguramente. Mas, este é um serviço que tem tido algum impacto público. Estou a recordar-me de um estudo recente, desenvolvido no âmbito do CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião) em parceria com outras entidades, como a Fundação Francisco Manuel dos Santos, sobre o perfil da dinâmica religiosa na área metropolitana de Lisboa. E isso teve algum eco público em programas televisão, em publicações e também em âmbito propriamente académico, em debate entre pares.

Um outro projeto que desenvolvemos, que teve a ver com uma releitura a partir do centenário de Fátima, um pequeno projeto também desenvolvido no CITER, foi uma espécie de laboratório para procurar perceber algumas dinâmicas do religioso.

Creio que este é um serviço que a Faculdade não vai prestar, já vem prestando, e continuará obviamente a prestar. Com a sua voz, porventura com um impacto que não será de grande escala, de média escala, mas também estes exercícios académicos, de investigação, não têm logo um impacto imediato.

 

Referiu há pouco que a nível de alunos há cada vez mais leigos a frequentar o curso de Teologia, que já não é só para quem vai ser sacerdote, religioso ou religiosa. Mas, como é que se chama a atenção para a importância desta disciplina? Como é que se leva um jovem estudante, que nunca tenha pensado nisto, a perceber que esta pode ser uma área de estudo e de investigação, que não está desligada da nossa realidade nem do contexto em que vivemos?

A Teologia lida com a questão fundamental da condição humana, que é, no fundo, a questão de Deus, que é um lado da medalha da questão sobre nós próprios, quem somos. A Teologia não terá o monopólio destas questões fundamentais, bem entendido, mas é claramente um campo da reflexão humana que trabalha esta questão fundamental. Nós trabalhamo-la particularmente a partir do horizonte da experiência cristã, onde nos perguntamos, investigamos criticamente, hermenêuticamente, como é que a tradição cristã foi sendo pensada, vivida, absorvida, assumida, testemunhada, como é que ela foi evoluindo no tempo, como é que ela se coloca diante dos desafios do presente. E conhecer este elemento, este conjunto de realidades, parece-me um dado fundamental, seja para quem procura conhecer o cristianismo a fundo, seja para quem procura conhecer o impacto que o cristianismo, ou a dinâmica do religioso, teve, tem e terá nas sociedades modernas.

Creio que não podemos fazer uma justa interpretação da história da humanidade, seja o seu passado, no presente ou perspetivando o futuro, ignorando este tópico, e, portanto, um conjunto de competências inerentes à reflexão teológica parecem-me absolutamente centrais para perceber esta dimensão que não conseguimos eliminar do coração humano.

 

E se pensarmos no diálogo cultural, esse é o principal contributo que a Faculdade de Teologia pode dar?

Sim, trazer esta outra racionalidade… trazer ao conjunto a harmonia dos saberes, das várias racionalidades que habitam no espaço universitário, mas genericamente habitam nas sociedades. Trazer a voz desta racionalidade que arranca a partir uma experiência religiosa, enriquece o espaço público e ao mesmo tempo também enriquece a própria experiência religiosa, porque ela aí vê-se confrontada com a necessidade do diálogo, do confronto, de ajustar o seu diálogo, ajustar o seu próprio testemunho. Há aqui uma espécie de relação recíproca da bondade para a sociedade ter a Teologia no seu seio e da bondade para a Teologia de estar no espaço comum, no espaço público.

 

Perfil do teólogo

Se lhe pedisse para definir o perfil do aluno de Teologia, como é que o definiria?

Existe, de facto, um número significativo de alunos que estão orientados para o exercício de um ministério na Igreja. Porque esta é uma condição de acesso aos próprios ministérios, faz parte desse percurso a componente académica, tem de se fazer o curso de Teologia. Existe um conjunto de leigos que procura formação superior nestas áreas, por inquietações da sua própria vida crente, ou porque se orienta para a docência da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Mas, existe hoje um conjunto significativo, ou pelo menos interessante, de gente madura, já sénior, que depois de uma vida profissional, às vezes em etapas de reforma, descobre, tem a inquietação espiritual, intelectual, tem o tempo e tem o interesse e então, nessa fase da vida, vem frequentar na Faculdade, às vezes como aluno-ouvinte, uma série de cadeiras, de disciplinas, pelas quais tem interesse. Portanto, o perfil é, apesar de tudo, diversificado, entre portugueses e estrangeiros. Podemos falar de uma diversificação do público.

 

Na experiência crente católica experimenta-se cada vez mais, nos dias de hoje, alguma tensão entre os genericamente denominados ‘conservadores’ e ‘progressistas’. Acontece essa tensão no debate teológico?

Creio que sim.

 

E é salutar?

Até certo ponto, é salutar. Existe um determinado grau de intensidade da tensão que pode ser desbloqueadora, construtiva, pode-nos fazer avançar, até um certo ponto, bem entendido. Portanto, a ideia de uma espécie de paz perpétua, de puro acordo, pode ser bastante bloqueadora. Na teologia, como aquilo que nós procuramos não é entrar na espuma dos debates, por mais atuais e candentes que eles sejam, mas é procurar ir aos fundamentos, às fontes, à história dos processos, isso ajuda muito a desconstruir alguns clichés, algumas ideias muito repetidas, mas que às vezes mereciam ser mais devidamente ponderadas.

 

Indo além dos fenómenos das redes sociais, onde também muitas vezes este debate acontece?

Sim. Eu sou pouco versado em redes sociais, tenho muito pouca competência para entrar nesse campo, mas, de facto, o estudo da teologia faz-se muito a partir da leitura de fontes, do confronto, ouvir vozes contrastantes, e perceber que de tudo isto se faz a teologia, e que de tudo isso se faz o cristianismo.

 

Portugal tem muitos teólogos e teólogas, sendo que a Faculdade de Teologia até é dirigida neste momento, e pela primeira vez, por uma mulher e leiga. Foi uma mudança de paradigma? Tem sido uma mais-valia?

Uma das coisas bonitas, se posso dizer assim, da nossa Faculdade de Teologia é que, ao contrário do que acontece noutros lugares, ela não é –  desde a sua génese, há 50 anos –  deste ou daqueles. Ela resulta da convergência de clero secular, dos seminários diocesanos, primeiro em Lisboa, e depois progressivamente outros que foram convergindo para a Faculdade de Teologia. É das comunidades religiosas, que tinham os seus percursos de formação e que também convergiram para a Faculdade de Teologia. Temos clero secular, clero religioso e temos também, desde muito cedo, o contributo muito valioso de docentes leigos. Portanto, a nossa Faculdade de Teologia é verdadeiramente um ente eclesial, no seu sentido mais lato, porque não é destes ou daqueles, mas é, e quer continuar a ser, de toda a Igreja, nas suas múltiplas expressões diversificadas.

 

E as mulheres têm tido sempre o seu papel e o seu lugar?

É evidente que terão cada vez mais, como acontece genericamente na sociedade e na Igreja. Mas, creio que a Faculdade de Teologia, nesse aspeto, não está atrás, bem pelo contrário, de muitas outras congéneres.

 

Mas, que sinal é este de ter uma mulher diretora na Faculdade?

Eu se calhar falo mais por mim, não vejo que isso seja propriamente… É uma colega nossa, com muitos anos de casa, com uma grande maturidade na gestão de escola, do Centro de História, que já dirigiu, etc. Era a pessoa indicada para aquele lugar nesta fase, independentemente de ser homem ou mulher. Mas, por acaso é mulher.

 

Revista ‘Ephata’

Terminamos a nossa conversa com uma referência à ‘Ephata’, a nova revista da Faculdade de Teologia. Que ferramenta é esta também para o diálogo entre saberes?

Uma revista é sempre um lugar de expansão da investigação, do conhecimento que se vai produzindo numa unidade, como é uma Faculdade. Nós tínhamos até aqui três revistas, correspondendo aos três núcleos da Faculdade – Lisboa, Porto e Braga. Vivemos tempos onde precisamos de convergir para ganhar escala e foi também isso que nos levou a trazer o capital muito rico das três revistas dos três centros da Faculdade para uma só revista, para podermos dar a essa revista uma escala maior e podermos projetá-la nos indexadores internacionais. Porque hoje as revistas científicas estão muito sujeitas a critérios de avaliação, de padronização e podermos qualificar a nossa revista, permite subir nos rankings desses indexadores e dar maior alcance ao trabalho que aqui vamos desenvolvendo e também àqueles que, de outras unidades, escrevem e publicam na nossa revista. Hoje este intercâmbio é muito comum no meio universitário.

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