Susana Magalhães sublinha que humanos têm que continuar no controlo de ferramentas tecnológicas, «ainda que nem todas sejam explicáveis para todos»

Lisboa, 16 abr 2026 (Ecclesia) – A presidente da Comissão de Ética do Instituto São João de Deus defendeu esta quarta-feira que a utilização da inteligência artificial [IA] deve ser feita apenas quando é oportuna, deixando alertas paras os riscos na saúde mental.
“Nós devemos usar a inteligência artificial sempre que é adequado e útil, mas não usar para tudo só porque existe”, afirmou Susana Magalhães, em declarações à Agência ECCLESIA, no XV congresso da Psiquiatria São João de Deus, no Centro Ismaili, em Lisboa, que se estende até sexta-feira.
Cerca de 250 pessoas participam na iniciativa, organizada pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e o Instituto São João de Deus, com o tema “Saúde Mental e Pós-Modernidade: O Analógico e o Digital”.
A investigadora em Bioética salienta que esta ferramenta deve ser aplicada em todas as tarefas em que pode agilizar e melhorar a qualidade de vida de seres humanos, dando-lhes a oportunidade de se dedicarem a outras facetas do quotidiano.
No entanto, realça Susana Magalhães, é necessário formar a nova geração “para saber discernir quando é que o uso” desta tecnologia “é excessivo e não é adequado ao contexto”.
“E não usar a inteligência artificial como substituto da nossa inteligência, quer da razão, quer da inteligência emocional, para a construção de relações”, acrescentou.

A responsável enfatiza, ainda assim, que esta ferramenta, “quando bem utilizada, é muito produtiva e pode ser uma excelente fonte de ideias novas, de inovação, de criatividade, mas não dispensa a pessoa”.
A coordenadora da Unidade de Conduta Responsável no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto abordou também o impacto negativo das tecnologias digitais e da IA nos utilizadores.
“Nós, de facto, corremos o risco de aumentar o isolamento, aumentar a solidão, criar burnout e transformar estas gerações mais novas em gerações que estão cansadas a priori, ainda antes de terem começado a fazer alguma coisa”, disse.
Susana Magalhães apontou alguns pilares pelos quais a literacia para o uso da IA tem que passar, sublinhando que um deles é o facto de os humanos terem que “continuar a estar no controlo das tecnologias, ainda que nem todas sejam explicáveis para todos”.
“Um outro pilar é o pilar da transparência, é nós sabermos que estamos a interagir com sistemas de inteligência artificial e não possibilitar que esses sistemas finjam que são humanos, quando de facto não são”, referiu.
A responsável destaca também a dimensão da beneficência e da não-maleficência: “É aí que entra essa questão de nós utilizarmos a inteligência artificial para nosso bem e aí temos todos que concordar em comunidade de que bem estamos a falar”.
A presidente da Comissão de Ética do Instituto São João de Deus advertiu para o risco do empobrecimento da qualidade do conhecimento com uso da IA, ressaltando a importância de continuar a ir às fontes, ler os textos originais, conhecer os autores e estudar muito bem a área para a qual esta ferramenta está a ser usada.

“Corremos o risco de assumir como verdadeiro o que é falso, assumir como algo de qualidade algo que é muito pobre em qualidade e a longo prazo isto vai levar a uma diminuição da qualidade do conhecimento”, ressaltou.
Susana Magalhães interveio na tarde desta quarta-feira na Mesa 1 intitulada “Entre o Algoritmo e a Relação” do XV congresso da Psiquiatria São João de Deus, abordando o tema “Bioética: dignidade, limites e limitações”.
O programa do XV Congresso da Psiquiatria São João de Deus aborda temas como a inteligência artificial aplicada à psiquiatria, a ética digital, os novos padrões de sofrimento psíquico e a humanização da prática clínica em contextos cada vez mais mediados pela tecnologia.
O encontro reúne profissionais de diferentes áreas – médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, investigadores, gestores e decisores.
LJ/OC
