Reitor do Seminário Interdiocesano, em Braga, admite que a crise pode levar os cristãos a reduzir a ajuda a estas instituições, agravando as dificuldades que já têm

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Eclesia)

Foto: Agência ECCLESIA/LFS

A mensagem da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios para a Semana dos Seminários sublinha que escolher ser padre hoje é um desafio maior do que noutras épocas, exige uma “fé corajosa”. Isso está a ser levado em conta pela Igreja através da pastoral juvenil e vocacional, e depois pelos seminários, na formação que é dada?

Sim, é um desafio muito grande. Naturalmente que quando falamos que hoje é mais delicado ser padre e acompanhar os jovens que sentem o chamamento a ser padres, é porque este é o tempo que estamos a viver, é a nossa geração, comparar com outras épocas não é fácil. A dificuldade e os desafios que sentimos hoje têm a ver com as características da nossa própria época, dado o desenvolvimento humano, dada a rapidez com que os fatores sociais e eclesiais se vão sucedendo.

Hoje quer o ser presbítero, quer a formação para este ministério, traz desafios muito particulares, que têm a ver com aquilo que o Sínodo sobre ‘Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional’ evocou ser a pluralidade de juventudes, de proveniências, de experiências humanas, seja de experiências familiares díspares, seja de expressões de fé que os jovens vão contactando. O acompanhamento, nestas circunstâncias, é muito mais delicado, tem de ter mais atenções, à metodologia, aos aspetos diversos do discernimento e do acompanhamento no que toca aos presbíteros e à sua vida, ao seu ministério.

Hoje a Igreja tem tantas necessidades, é chamada a ser, como o Papa Francisco diz, ‘hospital de campanha’, portanto, somos chamados a ter lidar com aquilo que aprendemos a ser no Seminário, mas também com a coragem, a docilidade de, fora já do seminário, na formação permanente, na vida ativa, aprender a ser muito mais, e a acompanhar a evolução do ser da Igreja.

 

Sobre a formação e os desafios que os tempos vão colocando ao trabalho de quem está nas equipas formadoras dos seminários, foi esta consciência das mudanças que levou a Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios a lançar a ideia e a preparar um novo Plano Nacional de Formação – o termo latino é Ratio – que envolve as várias dioceses portuguesas?

Sim, naturalmente. Já é preocupação da Igreja no seu topo, digamos assim, a Ratio Fundamentalis ela própria já pede a todas as conferências episcopais que tenham o cuidado de contextualizar a formação sacerdotal, que a Santa Sé vê desde um determinado prisma, com seus princípios, para assegurar que o presbítero seja sempre formado com o coração de Pastor ao jeito de Jesus Cristo, mas depois a Igreja tem a preocupação de que esta formação seja contextualizada.

 

Está a referir-se ao Decreto Orientador para a formação dos futuros padres, que o Vaticano publicou em 2016.

Precisamente, em 2016 houve já esta atualização da Ratio Fundamentalis, que governa a formação sacerdotal no mundo. O documento de 2016 pede que as conferências episcopais tenham a coragem de contextualizar essa formação com características muito próprias, daquilo que a Igreja é chamada a responder em cada contexto. Para nós, aqui, naturalmente o contexto é nacional, mas a própria Ratio Nationalis é um conjunto de elementos formativos, de preocupações, de instrumentos que são comuns, mas que tem de deixar espaço para que cada diocese e cada Seminário tenha o seu próprio projeto formativo. Os princípios da formação ao mesmo tempo respeitam a realidade, as necessidades, o acompanhamento circunstanciado.

 

Já há alguma projeção de quando é que esse documento poderá ser apresentado à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)?

Ainda não se pode dizer, é um documento provisório, está em trabalho e em estudo.

 

Mas está a ser feito com a colaboração das dioceses, não é um documento que alguém está a redigir num escritório para depois apresentar a todos?

Não, não. Precisamente, se é um documento para contextualizar a formação, seja a nível nacional, seja depois em aberto, respeitando a realidade de cada diocese e a tradição de cada Seminário, que está atento à realidade através dos seus pastores, dos párocos, das famílias, da pastoral em geral, em cada diocese.

Este documento não é feito num escritório, é trabalho de uma comissão que está ligada à Comissão Episcopal Vocações e Ministérios. É um conjunto de reitores que está a dar início, tendo em conta várias dimensões: a pastoral vocacional, a questão da maturidade afetiva, as próprias etapas da formação, desde o discipulado à configuração com Cristo. E a própria formação permanente do clero, porque os seminários preocupam-se com a continuidade da formação, depois da formação inicial, e também as várias dimensões da formação: humana, espiritual, intelectual e pastoral.

Este documento está a ser iniciado como um laboratório, terá de passar a uma próxima fase, que é de unificação, para que não seja um documento muito longo e possa ser muito prático, comungando ideias dos vários elementos da formação sacerdotal. Um documento mais solidificado – no espírito daquilo que a Igreja tem protagonizado, de consulta das bases – terá depois de se expôr a todos os seminários, será entregue à CEP para avaliação, e depois à Santa Sé, para que o possa ratificar.

 

Mas, que mudanças é que são expectáveis, tendo em conta as indicações dadas pelo Documento Orientador do Vaticano, que sublinha a  importância da formação integral e da maturidade psíquica, sexual e afetiva dos candidatos ao sacerdócio? Esses indicações já levaram a algumas mudanças. O que é que é expectável agora, com o novo Plano?

Diria que em termos práticos, dada a importância da maturidade afetiva, e tendo em conta a realidade que vivemos na nossa sociedade, concretamente em Portugal, teremos de levar a sério sempre – na sucessão daquilo que foram os acontecimentos na Igreja, e das chamadas de atenção aos senhores bispos para esta maturidade afetiva -, e ter a coragem de propor um acompanhamento o mais personalizado possível.

É verdade que os jovens que sentem o chamamento do Senhor a ser presbíteros vêm hoje de proveniências muito diferentes: experiências familiares, paroquiais, a relação com os movimentos. O próprio percurso da fé é hoje um percurso muito especial, porque corremos o risco de que cheguem aos seminários jovens que ainda não têm uma iniciação cristã solidificada e, portanto, o Seminário pode também ajudar na complementaridade à família, às paróquias, aos movimentos, à formação cristã.

Hoje a maior preocupação dos seminários, na minha ótica, terá que ver com duas pontes: a primeira, a da pastoral vocacional, o discernimento que o Sínodo pede seja cada vez mais personalizado, e um tempo de proximidade ao Seminário, hoje chamado o tempo propedêutico, que é um tempo muito necessário e oportuno para que haja crescimento…

 

Essa é uma das novidades do documento de 2016…

É, torna obrigatório este tempo propedêutico. Depois, a outra ponte é a da saída do Seminário, a etapa final.

A iniciação à Pastoral é outro aspeto delicado, dado que hoje formamos jovens no Seminário, são seis anos de formação, ficam bastante qualificados do ponto de vista da formação humana, espiritual, intelectual e pastoral, mas depois a Igreja no mundo tem hoje tantos desafios… Um deles é o desafio social, são as instituições de solidariedade social, que hoje o Seminário reconhece que tem de formar ainda mais e melhor, para que os jovens sacerdotes saibam acompanhar processos muito sérios, que têm que ver não só com o acompanhamento humano  e a dignidade das pessoas, mas também com aspetos sociais, com a economia, etc.

 

30Foto: Agência ECCLESIA/LFSÉ preciso estar atento às mudanças na sociedade, ter uma atenção realista aos problemas das pessoas… A pandemia, por exemplo, veio expor muitas fragilidades, as dificuldades que as pessoas têm em lidar com a solidão, com o medo, com a doença. Aos próprios sacerdotes tem sido exigido que tenham mais disponibilidade para ouvir, para escutar, para acompanhar, o que sabemos que nem sempre acontece. É uma área que os seminários também devem reforçar em termos de formação e preparação dos futuros padres?

Sem dúvida. Já vamos tomando consciência de que a pandemia nos traz lições, como disse expõe muitas situações.

Hoje a Igreja está chamada a ser muito criativa no  acompanhamento das pessoas, porque está muito focalizada nas assembleias litúrgica, que estamos a tentar acolher e convocar com muito cuidado, segundo as normas, mas o campo pastoral é muito vasto.

Vemos, por exemplo, um aspeto concreto, além das assembleias litúrgicas, o acompanhamento dos doentes, das pessoas que estão sós, das pessoas que passam por privações e pobreza, desemprego, situações de alguma ansiedade e dificuldade de gerir as emoções quando se perde um emprego e a dúvida se vai voltar porque se tem uma família para sustentar. Hoje, cada vez mais e a partir do Seminário, temos de formar na coragem para, ao nível pastoral, voltar a ver o que era essencial.

O Evangelho e a postura de Jesus – uma vez que a formação configura ao bom Pastor – é uma janela aberta a toda essa novidade, que está sempre presente no mundo. O Evangelho é sempre o mesmo e traz-nos os princípios do essencial da pastoral, e um dos princípios é o olhar de Jesus sobre o ser humano. Jesus caminhava e encontrava-se com um doente, mesmo que houvesse uma multidão ele apartava-se para o escutar, para o provocar, para curar, cuidava e tinha momentos de ensino em grupo, aos discípulos e à multidão.

O Seminário vive agora no meio da pandemia, é chamado a integrar regras, a optar criativamente por outras formas de realizar a vida comunitária no quotidiano, e tudo isto está a ser uma aprendizagem.

 

As famílias tiveram de fazer adaptações por causa do impacto da pandemia. Imagino que estas instituições também tenham de ter adaptado o seu dia-a-dia, nas coisas mais corriqueiras. O que foi preciso fazer, no seu caso, no Seminário Interdiocesano, em Braga?

Este Seminário tem um cariz muito próprio, uma vez que os seminaristas e formadores são de quatro proveniências diferentes em termos diocesanos: Bragança-Miranda, Guarda, Lamego e Viseu, que de longa data fazem esta experiência de comunhão na formação. A grande aprendizagem foi feita com as regras que nos foram sugeridas, acolhidas pela Direção Geral de Saúde e assumidas pelas dioceses, que tivemos de aprender, em março, com a quarentena.

No início da quarentena foi reagir ao momento, uma vez que a Faculdade de Teologia encerrou as aulas presenciais e passou a ser online. A nossa reação foi enviar os seminaristas para as famílias, suspeitando que permanecer aqui durante muito tempo pudesse não ser fácil. Foi um desafio.

Num primeiro momento propusemos um plano de acompanhamento dos seminaristas à distância, tendo também momentos através do Zoom, online. Foi um desafio e uma aprendizagem interessante, desde a oportunidade de oração em conjunto, pelo telefone, pelas redes sociais. Uma vez que temos o grupo dividido por etapas, cada formador pode acompanhar o seu seminarista, saber como estavam e como o podiam assessorar.

Voltámos depois a uma certa vida comunitária, aquando dos exames, alguns deles foram presenciais. Foi outra aprendizagem, tentar fazer a vida comunitária em vários grupos, o que obrigou à multiplicação de celebrações, continuar com as regras dentro de casa, cuidado com saídas ao exterior, sempre o uso da máscara, o álcool gel, a distância dentro de casa e a forma como se está em conversa com os outros. Depois, a outro nível, há o refeitório, a sala de estar e as capelas, tivemos de nos adaptar.

O regresso a um novo ano académico e formativo obrigou aos mesmos cuidados que a sociedade e as dioceses sugerem.

 

Houve algum caso num Seminário, ou as estruturas conseguiram manter as regras de maneira a não ter havido situações de contágio?

Não tenho neste momento conhecimento seguro se houve casos graves ou muito graves de contágio.

 

Por norma as instituições conseguiram adaptar-se à realidade e implementar as medidas necessárias?

Penso que sim. Em geral os Seminários têm uma facilidade, têm casas muito grandes, salas e capelas muito grandes. À exceção do nosso Seminário Interdiocesano, habitamos na Rua de Santa Margarida (Braga) e pedimos à Faculdade e à arquidiocese, para poder utilizar outros espaços contíguos ao do Seminário para podermos alargar a nossa presença de forma a cumprir as regras essenciais.

Em geral, os seminários têm edifícios grandes e dá para isso. Infelizmente as comunidades são hoje mais pequenas, o que ajuda no cumprimento das normas.

 

Aproveito esta ponte para falarmos da tão falada crise vocacional. Há ou não uma crise vocacional, na sua opinião?

Até há bem pouco tempo foi-se dizendo que havia crise vocacional, tendo em conta que, numericamente, há poucas vocações presbiterais para a tradicional pastoral de manutenção. Mas não é essa a minha opinião.

Os formadores, e a Comissão, vamos comungando da certeza de que se dissermos ‘crise vocacional’ não é só o ser humano que está em crise, mas Deus. E não é verdade, não podemos dizer isso. Na gramática vocacional a iniciativa é sempre de Deus, que no silêncio, no segredo, continua a chamar os jovens a serem felizes. Será que a escuta e as respostas estão a ser dadas convenientemente? Estará o clima social e o clima eclesial apurado para que os jovens possam escutar devidamente e depois ser ajudados a responder ao chamamento do Senhor, que é sempre um chamamento a uma vida feliz, de escolhas livres? É isso que podemos e devemos trabalhar mais, a escuta e a resposta.

 

Esta entrevista chega às pessoas no último dia da Semana dos Seminários, e no Domingo em que habitualmente as comunidades católicas são convidadas a apoiar materialmente, com os seus donativos, estas instituições. Sabemos que num ano marcado pela pandemia isso vai ter impacto no montante recolhido. Teme que haja dificuldades financeiras acrescidas para a gestão dos Seminários, ou confia que a solidariedade das comunidades cristãs seja suficiente?

Eu diria que é um desafio grande. A sustentabilidade dos Seminários, hoje – e da formação, concretamente – é muito delicada tendo em conta esses fatores.

É verdade que a contribuição das comunidades aos Seminários pode sofrer esse declive derivado das dificuldades económicas provocadas pela pandemia. Isso não é de admirar. Assim, as dioceses e os Seminários são chamados a optar por uma gestão de recursos cada vez mais humilde e responsável. Esse é um fator muito importante na formação. Hoje somos chamados a ajudar os seminaristas a aprender a lidar com as coisas do dinheiro, da economia, para futuramente serem capazes de ser responsável neste campo.

 

E é mais uma ligação à realidade e à vida concreta das pessoas.

Isso mesmo. Os seminários não estão fora da situação.

 

Uma última pergunta relacionada com a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, marcada para 2023. Está  também ligado à organização deste evento. Pode ser uma ocasião para despertar novas vocações sacerdotais ou outras? Tem essa expectativa?

Eu diria que sim. Antes e depois da própria JMJ, que é feita de uma semana e dois ou três dias vividos com o Santo Padre, será de facto um tempo vivido com muita alegria, muita emoção e muita fé, naturalmente.

Eu diria que o tempo que precede, a preparação e o tempo depois das Jornada Mundial da Juventude, terão de ser bem aproveitados do ponto de vista pastoral.

Creio muito, e aposto muito no trabalho sinodal. A Igreja em Portugal, concretamente, está a fazê-lo, seja em ligação ao Comité Organizador Local, seja nos vários âmbitos da pastoral da Igreja, seja a pastoral familiar, que o Sínodo tomou consciência que não pode ser dispensada no acompanhamento dos jovens. Tem de ser num trabalho sinodal, porque os jovens se referem não só ao ensino e educação na fé, mas também à família.

Acredito que este tempo de preparação num trabalho sinodal e sinérgico pode ter frutos, também ligados com as vocações.

Partilhar:
Share