Sudão do Sul: Religiosa portuguesa denuncia insegurança no país após “massacre de quase 200 pessoas”

“São as pessoas inocentes, as crianças, as mães, que pagam o preço mais alto”, afirma a irmã Beta Almendra

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 16 mar 2026 (Ecclesia) – A irmã comboniana, Beta Almendra, que está em missão na diocese de Wau (Sudão do Sul), descreve um clima de “insegurança crescente” naquele país em que “são as pessoas inocentes, as crianças, as mães, que pagam o preço mais alto”.

“Um ataque brutal em Abiemnhom, no primeiro domingo de março, causou a morte a quase duas centenas de civis e provocou o deslocamento de mais de 4 mil pessoas”, refere uma nota enviada à Agência ECCLESIA.

Os primeiros relatos apontavam para, pelo menos, 169 mortos, mas este número deverá “ser maior, dada a existência de largas dezenas de feridos. Para a Igreja, tratou-se de um massacre”.

Num comunicado divulgado pouco depois pela Conferência Episcopal do Sudão e Sudão do Sul, os bispos classificam o ataque como um crime “hediondo e sem sentido”, e afirmam que “não há qualquer justificação para o assassinato de civis inocentes”, e que “tais atos são uma ofensa contra Deus, o Autor da Vida, e um grave pecado contra a humanidade”, refere a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS)

Nessa declaração, os prelados afirmam ainda que receberam “relatos angustiantes de ataques brutais” e condenam a cultura da vingança e violência que está a crescer no país.

“Vingança não é justiça. Punição coletiva não é força. Sangue por sangue não é dignidade. Esta mentalidade tem de acabar”, afirmam os Bispos.

Toda esta violência ocorre no meio da crescente instabilidade política no Sudão do Sul, que remonta a 2018, quando se deu o rompimento do acordo de paz assinado entre o presidente Salva Kiir e o seu então vice-presidente Riek Machar.

A situação é tão grave que o Alto-Comissário para os Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, alertou, a 27 de fevereiro, que o país se encontra num “ponto perigoso”, em que há o risco de regresso pleno aos tempos da guerra civil, e que esta é uma “das crises esquecidas do mundo”.

Uma crise que é seguida, com natural angústia, pela Irmã Beta Almendra, uma religiosa comboniana portuguesa que está em missão na Diocese de Wau.

Em mensagem enviada para a Fundação AIS, a propósito do ataque em Abiemnhom, a irmã não tem dúvidas em falar em “massacre de quase 200 pessoas”.

“Foram mulheres, mães e filhos que os rebeldes entraram e dispararam. Dispararam por todos os sítios e mataram muita gente. E porquê estas guerras? Porquê estes conflitos? É tudo uma questão de poder.”

Tal como os bispos, também a irmã Beta Almendra aponta o dedo para uma cultura de vingança que está a destruir o Sudão do Sul.

“O poder realmente atrai muita gente e atrai também o mal. Há uma tribo que quer prevalecer sobre a outra, sobre o território, e claro que depois surgem estas vinganças que, de tempos em tempos, são terríveis”.

Por tudo isto, a religiosa pede, através da Fundação AIS, as orações dos portugueses, as orações de todos.

“Peço, com grande carinho, com grande amor, que rezem por esta gente. Nós aqui, em Wau, ainda estamos um bocadinho longe destes conflitos, mas temos recebido muita gente que tenta escapar, recebemos muitos, muitos deslocados, pessoas que não têm nada… Não há grande esperança para esta gente”, diz, a terminar, reforçando o pedido de orações e a certeza de que a Igreja está ao lado dos que mais necessitam. “Tentamos ser um ponto de esperança, um ponto de apoio, um ponto de carinho”, diz, a terminar.

O Sudão do Sul é um país prioritário para a Fundação AIS, não só ao nível dos projetos de ajuda de emergência que são desenvolvidos, nomeadamente de apoio a refugiados, mas também de auxílio à sobrevivência de padres e religiosas, na tradução para línguas locais de material catequético, de que se destaca a Bíblia das Crianças.

LFS

 

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