Comunidade Vida e Paz realiza III Jornada «Motivar para a mudança» para valorizar voluntariado e pede apoios para responder efetivamente a situações perante «falta de respostas nacionais» e «desinvestimento na área»
Lisboa, 16 out 2026 (Ecclesia) – A Comunidade Vida e Paz realiza este sábado a III Jornadas «Motivar para a mudança», este ano com um enfoque no voluntariado, e chama a atenção para a mudança da população que diariamente a instituição assiste.
“As respostas são insuficientes. Se hoje as pessoas todas que estão na rua tomassem a decisão de sair da rua, pedir ajuda, nós não teríamos respostas suficientes para elas e isto é angustiante, isto é um drama”, conta à Agência ECCLESIA Renata Alves, diretora-geral da Instituição Particular de Solidariedade Social.
“Criamos uma unidade de alojamento para pessoas em situação de sem abrigo, tem capacidade para 40 pessoas, está sempre completa; temos sete respostas de apartamentos partilhados, também estão sempre lotados; as comunidades terapêuticas e as comunidades de inserção, é exatamente o mesmo”, lamenta.
A responsável, mais do que lamentar a falta de respostas que tem solicitado ao “poder político, seja ele o central, o local, o Estado, o Governo”, fala num “desinvestimento na área, não só na área da intervenção com as pessoas em situação de sem abrigo, mas sobretudo na área do tratamento das toxicodependências e do alcoolismo”.
“A própria Estratégia Nacional, não sabemos bem como está nem o que esperar das mudanças. Obviamente se nos dessem mais apoios financeiros era excelente, mas pelo menos que acompanhassem o aumento da inflação e atualizassem os acordos e as comparticipações que têm connosco”, explica.
Renata Alves alerta para a necessidade de se atuar “preventivamente” para que o número de pessoas em situação de sem-abrigo não aumente, perante o grande problema habitacional existente.
“É muito importante apostar na prevenção primária, porque muitas pessoas que estão atualmente mas em situação de vulnerabilidade e falamos de famílias a passar muitas carências, podem vir a ser as próximas pessoas em situação de sem-abrigo. Devíamos procurar perceber se têm rendas em atraso, que tipo de apoio é possível prestar para que, daqui a seis meses, o número de pessoas que estão em situação de sem-abrigo não seja maior”, assinala.
O voluntário Nuno Fraga recorda um encontro com uma pessoa em situação de sem abrigo que uma noite lhe perguntou: “Sabes qual a diferença entre nós? Cinco rendas em atraso”.

O retrato atual das pessoas em situação de sem-abrigo está a alterar-se e Nuno Fraga dá conta de jovens, dependentes do jogo online, que estão a ir para as ruas, acrescentando que atrás de uma dependência bem outra.
“Se há 20 ou 30 anos atrás, falávamos de pessoas com problemas, sobretudo de toxicodependência, de alcoolismo, neste momento nós temos uma diversidade de problemas, que vão desde a falta de habitação – temos um problema de habitação social muito grande – problemas de saúde mental, com consequências na incapacidade para tomar decisões saudáveis para a vida, dependências que persistem com substâncias psicoativas, mas agora também dependência de jogo online”, descreve a diretora-geral da instituição.
No Dia Internacional da Erradicação da Pobreza, a IPSS, tutelada pelo Patriarcado de Lisboa, a Comunidade Vida e Paz quer valorizar um dos pilares que sustenta a instituição, que é o voluntariado.
“Este encontro vai nos permitir refletir muito sobre o papel do voluntário, o impacto que ele tem na sociedade e numa sociedade que está em mudança. Os problemas sociais são cada vez mais complexos e importa perceber como é que o modelo de voluntariado atual pode, de facto, responder àquilo que são as necessidades também atuais da sociedade”, indica.
Nuno Fraga, voluntário há quase 20 anos na Comunidade Vida e Paz, integra a volta noturna a cada 15 dias e nessa noite não se deita antes das 4 ou 5 da manhã, afirmando que a tarefa o deixa satisfeito.
“Estamos ali para servir as pessoas. Levamos dois ouvidos bem abertos, um sorriso – porque ao longo do dia as pessoas viram-lhe a cara, e devemos levar bom senso para iniciar conversas, não para cobrar ou confrontar. Respeito e escuta ativa”, sugere o voluntário.
A conversa com Renata Alves e Nuno Fraga vai ser emitida no programa de rádio na RTP Antena 1, sábado às 06h00.
LS
