Francisco encontrou-se com jovens da comunidade de 41 países, incluindo Portugal

Roma, 25 nov 2021 (Ecclesia) – O Papa Francisco pediu hoje a 71 jovens da comunidade ‘Scholas Ocurrentes’, de 41 países, incluindo Portugal, que pensem no “exemplo” que lhes pode dar um refugiado, alertando para as suas dificuldades, e incentivou que não fiquem presos “culturalmente”.

“Temos que abrir nossos corações para a vida dos refugiados. Não são pessoas que vieram fazer turismo para outro país ou escaparam por motivos comerciais, mas escaparam para viver, arriscando a vida para viver”, disse o Papa, esta tarde, no encontro realizado no Colégio Pontifício Internacional Maria Mater Ecclesiae, em Roma.

Francisco explicou os jovens da comunidade ‘Scholas Ocurrentes’ que a “vida de refugiado é muito dura”, é viver na rua, “não na sua rua”, mas na rua da vida onde “é ignorado, espezinhado, tratado como nada”.

“Pensem no exemplo que me pode dar um refugiado, o que me pode dar a vida de um refugiado, como tenho de agradecer a vida e não ter de escapar da minha pátria”, pediu.

Os jovens, com idades entre os 16 e os 27 anos, são provenientes dos cinco continentes e pertencem a diferentes culturas, credos religiosos – judeus, muçulmanos, cristãos, hindus, budistas, agnósticos e outros – e contextos socioeconómicos, refugiados, estudantes de universidades de prestígio e alguns “excluídos do sistema educativo”.

Austen, refugiado do Ruanda, perguntou ao Papa como é que como comunidade internacional se pode dar esperança aos milhões de pessoas em todo o mundo que tiveram de fugir de casa; O jovem, que agora estuda na África do Sul, contou que os seus pais tiveram de fugir do seu país no genocídio de 1994, e foram para a República Democrática do Congo.

Foto Scholas Ocurrentes

“A condição de refugiado indica sempre que você deixou um lugar que era seu, a sua terra natal. Os seus pais viveram aquele horrível genocídio no Ruanda, e você do Congo vivia a necessidade de fugir, de sair de uma tragédia, de uma prisão, de algo que não permitia viver como um homem livre”, começou por responder Francisco.

“Os refugiados que tentam escapar e arriscam a vida ao fugir no Mediterrâneo, no Mar Egeu, no Atlântico a caminho das Canárias, estes refugiados têm apenas uma obsessão: Sair”, acrescentou, alertando para o que chamou de campos de concentração na costa da Líbia e a ação das máfias que exploram, torturam, e vendem-nos.

Ana Catarina Raimundo, jovem portuguesa de 18 anos, que participa nas atividades da ‘Scholas Ocurrentes’, que tem sede nacional em Cascais, e esteve no encontro com o Papa.

“Todos podemos ter um papel na mudança da vida das pessoas. E os jovens, que são o presente, têm de pensar no que podem fazer para melhor a vida de pessoas com muitas dificuldades como o testemunho que ouvimos”, disse em declarações à Agência ECCLESIA.

Neste contexto, lamento que muitas vezes os jovens vivam “numa bolha”, não estão preocupados, mesmo que exista a ideia que não fazem anda, a comunicação social nem sempre passa a informação da melhor, “e tudo tem de mudar”.

No Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, que se assinala esta quinta-feira, o Papa denunciou também que os traficantes de pessoas vendem mulheres, raparigas e jovens mães “como mercadorias”.

“Quando falamos de refugiados não falamos de euros, mas de irmãos e irmãs que tiveram de escapar e alguns foram agarrados nesses campos de concentração pelos traficantes; Ser refugiados é caminhar sem solo seguro, sem saber onde”, observou.

Francisco disse que há quem tenha de “agradecer” a sua vida e o facto de não ter de fugir do seu país, como os refugiados que fogem porque “têm um sentimento de liberdade, de justiça”, mas pediu cuidado para não ficarem “presos culturalmente”.

“Aprendam a escapar das prisões que vão apresentando, determinados hábitos sociais, o socialmente correto, que às vezes aprisionam com condutas que vão impedindo os sentimentos”, acrescentou.

Ana Catarina Raimundo conta que “é muito inspirador” ouvir o Papa “não pelo título” mas “pela pessoa que é”, porque tudo “tem um sentido”, como os apelos à “união”, o convite ao encontro, e “respeitar acima de tudo todas as culturas, todas as religiões”.

Foto Scholas Ocurrentes; Ana Catarina Raimundo ao centro com a t-shirt Scholas

Desde terça-feira até domingo, os jovens da Comunidade ‘Scholas’ estão a reunidos de forma presencial a partilhar as experiências que viveram até agora durante a pandemia e as “lições aprendidas nas suas diferentes comunidades”.

Para a jovem portuguesa, o encontro com Francisco “completa a experiência toda” que estão a viver, onde percebe que as pessoas completam-se apesar das diferenças.

“Encontramos aquele ponto comum que é a nossa capacidade e vontade de mudar o mundo e fazer melhor”, concluiu a estudante de Medicina na UCP, que despertou “para a cidadania, para o associativismo”, desde que participou no primeiro projeto do Scholas Ocurrentes Portugal.

Scholas Occurrentes’ é uma organização internacional de direito pontifício presente em 190 países nos cinco continentes e que, por meio da sua rede, integra meio milhão de redes educativas.

CB/PR

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