Antigo presidente da União das IPSS aborda resposta à pandemia e relação entre Estado e Instituições Sociais

Foto: Lusa

Lisboa, 24 jan 2021 (Ecclesia) – O padre José Maia, antigo presidente da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social, considera que o Estado tem falhado na sua relação com estas organizações, criticando a falta de investimento no setor.

“O nosso Estado não funciona, não funciona. Ele é muito bom a mandar, a fazer regras, mas não há uma consciência. Eu lamento dizer isso, mas como cidadão livre e atento, digo: o nosso Estado devia empenhar-se muito mais na resposta à ajuda aos mais necessitados. Não admito que se ande a pedir, por esmolas, aquilo que é devido por justiça social”, indica o convidado da entrevista conjunta Renascença/Ecclesia, publicada e emitida semanalmente aos domingos.

O religioso fala de um Estado “calaceiro”, recordando a sua experiência de negociação com responsáveis políticos.

“Dava a impressão de que nos faziam um grande favor quando pagavam parte do muito que nos deviam. E houve muita necessidade de bater o pé, e batê-lo forte”, lamenta.

O Estado tem de cumprir os compromissos que estabelece; de facto, havia uma lógica que era o pagamento até 75 por cento, porque os grandes encargos das instituições são os seus trabalhadores e nós temos a noção de que muitos trabalhadores recebem salários muito aquém daquilo que seria justo pagar-lhes”.

O padre José Maia foi eleito presidente da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social a 6 de fevereiro de 1988, cargo onde permaneceu durante 14 anos, culminaram com a transformação da UIPSS na atual CNIS – Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social.

O entrevistado questiona os debates que surgiram, em plena pandemia, sobre a divisão público/privado, sublinhando que, “quem tiver camas e respostas, neste momento, em consciência ética é obrigado a pô-las ao serviço da comunidade”.

“A tragédia com que o país está confrontado não se compadece com essas coisas ridículas, tacanhas, ideológicas”, observa.

O responsável defende maior intervenção cívica e política dos católicos, num país onde “há muita coisa a denunciar” em termos de justiça social.

“Nós temos é de encostar o Estado à parede. Eu não gosto de pedir. Encostar o Estado à parede”, declara.

O padre José Maia refere ainda que, após a pandemia, a situação das pessoas idosas deve merecer “grande reflexão”.

“Dar anos à vida tem sido importante, o que nós não estamos a ser capazes é de dar vida aos anos, é de fazer que pessoas mais idosas tenham oportunidades”, precisa.

Questionado sobre a suspensão das Missas públicas, neste novo confinamento, o sacerdote considera “natural que a Igreja queira dar um sinal, ela mesma, de que é bom ter esta precaução e criar todas as condições para que se evitem aglomerações de pessoas”.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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