O Papa Francisco abriu formalmente o Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, que a partir deste domingo decorre, pela primeira vez, em cada diocese do mundo. Em entrevista à Ecclesia e Renascença, o padre Paulo Terroso, membro da Comissão da Comunicação, aponta desafios e expectativas sobre um processo inédito

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Foto: Synod.va

Como é que recebeu este convite? É um grande desafio e uma responsabilidade?

É um desafio e uma responsabilidade. Foi surpreendente: estava a iniciar as minhas férias, quando recebi uma mensagem do Thierry (Bonaventura), o responsável por esta comissão de media, e pela comunicação da Secretaria do Sínodo dos Bispos. Pediu para falar comigo, fez a proposta e é quase irrecusável.

É interessante, porque desde o Tempo Pascal, ao meditar no livro dos Atos dos Apóstolos, na minha oração pessoal e também na Basílica dos Congregados (Braga), a linha de reflexão foi muito o Espírito Santo como protagonista da Igreja. No meio disto tudo, quando chega esta notícia, este convite, foi quase como a confirmação de um caminho que eu próprio iniciei.

As pessoas costumam falar de coincidências, um amigo ensinou-me a compreender também as “Deuscidências”. Assumo com alegria, disponibilidade e espírito de serviço, num momento tão especial como este, que alguns qualificam, e bem, como o momento mais importante na história da Igreja, depois do Concílio Vaticano II (1962-1965).

 

Tem oportunidade de acompanhar de perto este momento, aliás já o fez em Roma, a 9 e 10 de outubro, integrado numa equipa vasta. Há uma aposta para que o Sínodo seja comunicado?

Sim, a equipa é bastante alargada, ainda não está completa, é uma equipa internacional. Passa por tentar abranger a presença da Igreja em todo mundo, com o objetivo fundamental de que o Sínodo real seja o Sínodo mediático.

Vamos pensar só em dois dos últimos Sínodos, que para mim são paradigmáticos – mas isso aconteceu também com o Concílio Vaticano II -, o Sínodo sobre a Família (2014-2015) e o Sínodo sobre a Amazónia (2019). Tivemos muito ruído, mas sobretudo – e essa é que é a grande questão – a receção feita pelas pessoas, pelos católicos, e não só, é feita a partir dos órgãos de comunicação social, aquilo que leem, que ouvem, aquilo que veem. Há falta de profundidade, às vezes a informação não é a melhor…

Os próprios párocos, todos nós, sentimos isso nas nossas comunidades. Ainda há pouco tempo uma senhora me disse: “Então, o Papa Francisco não disse que os divorciados recasados podiam comungar?”. Não, não disse isso. Foi o que ouviu, mas ele não disse isso.

É importante ajudar a aprofundar o que vai ser dito, para que chegue às pessoas e se crie aqui um processo sério, no sentido espiritual, de reflexão.

 

Desse ponto de vista, uma Comissão dedicada à comunicação é certamente fundamental…

É fundamental.

 

E também para a forma como a Igreja comunica, a própria linguagem que usa? Porque também se tem a ideia, por parte dos órgãos de comunicação que recebem a informação, de que a Igreja ainda comunica de forma demasiado fechada?

Há sempre, e creio que todos o entendemos, uma linguagem técnica: eu não sou especialista em Economia e Finanças, e muitas das vezes também estou a ouvir a rádio, a ver a TV, a ler, e não percebo o que lá está escrito ou a ser dito. Há uma linguagem técnica.

Da nossa parte, devemos tentar comunicar melhor, simplificar, ajudar a compreender o que está a ser dito, mas não faltarão também editores de religião? Não estou a falar só da Igreja Católica, de religião? Ou seja, especialistas nas nossas redações que tenham conhecimento profundo do fenómeno religioso? Ou ele também está relegado para segundo, terceiro plano, e não é considerado assim tão importante?

Não quero culpar órgãos de comunicação social, mas é preciso ter gente especializada nas nossas redações que percebam o fenómeno religioso, com profundidade. Portanto, creio que aqui há uma responsabilidade, de parte a parte: da Igreja, em comunicar bem, ter uma maior proximidade, diálogo, e promover até encontros para falar sobre o que está a acontecer, quais são os grandes temas, descodificar toda a linguagem, porque esta linguagem técnica faz parte de todos os saberes; e, ao mesmo tempo, da parte dos órgãos de comunicação social, termos pessoas especializadas em religião.

 

Leopoldina Reis Simões e Padre Paulo Terroso.
Foto: Synod.va

A Comissão da Comunicação também integra uma leiga portuguesa, a Leopoldina Reis Simões. Vão trabalhar em conjunto com o Vaticano, com o Dicastério para a Comunicação e Sala de Imprensa da Santa Sé, mas também é pedido que o façam localmente, ao encontro dos media em cada país…

Sim, e cada país, como acontece em Portugal, tem um secretariado. Creio que proximamente acontecerá esse encontro, para criar uma sintonia e fazer passar essa mensagem, a partir já de uma estrutura existente.

A nossa missão é fazer passar essa mensagem, mas nunca sobrepondo-nos, ou sem estar articulados, no caso de Portugal com o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, dirigido pela Isabel Figueiredo. Será numa relação muito próxima com ela que vamos trabalhar.

 

Há uma semana participou nos trabalhos de abertura do Sínodo, no Vaticano, onde ouviu os desafios e até recados que o Papa deixou – para que esta não seja uma iniciativa “de fachada” ou apenas uma “reflexão teórica”. Este é mesmo um momento de viragem na Igreja?

É, não tenho dúvida, pelo desejo de mudança e também por aquilo que presenciei. Haverá resistências? Há e haverá. Isto não é muito simpático de dizer, mas ninguém está disposto a perder poder sem dar luta, quando entendemos que a nossa missão é de poder e não de serviço. Há também medos, mas o medo é também falta de fé.

É chegado o momento, no meu entender – e no ponto de maturidade do pontificado do Papa Francisco – da receção plena do Concílio Vaticano II, nomeadamente dos documentos ‘Lumen Gentium’, ‘Ad Gentes’ e ‘Gaudium et Spes’.

Este processo é imparável, de auscultação de pessoas e de as envolver. Só o processo em si vai provocar uma transformação das pessoas, iniciar o processo de auscultação, que antes de mais é um processo espiritual, sobretudo com a ajuda dos nossos irmãos da América Latina.

Precisamos de compreender isto: o pontificado do Papa Francisco entende-se a partir do que aconteceu na América Latina, onde ele também foi um dos protagonistas, na Conferência de Aparecida (2007). Com a ajuda deles, nós vamos conseguir envolver toda a Igreja, vai ser um período de grande transformação.

O que está aqui em causa, de uma forma muito simples, é: ou queremos e vivemos numa Igreja clerical – que não é essa a Igreja que o Espírito de Deus quer – ou então uma Igreja sinodal, onde todos, leigos, padres e bispos, caminham em conjunto, iluminados pelo Espírito Santo, realizando aquilo que é vontade de Deus.

 

A questão da América Latina tem sobretudo a ver com um modelo mais horizontal, mas participado, onde toda a gente está mais próxima do processo de decisão. A minha pergunta vai nesse sentido – até porque falámos da questão do poder, da autoridade – qual é o desafio mais difícil? As vozes mais contrárias ainda não se fizeram ouvir, mas acha que vai haver dificuldades neste processo?

De imediato o mais difícil vai ser implementar este processo, vamos precisar de tempo. Eu não me admiraria que este processo de auscultação das igrejas locais fosse prolongado, isto é, fosse para além de abril. Não me admiraria mesmo.

Já agora gostaria de dizer isto: se eventualmente – e já houve conferências episcopais que o fizeram saber – sentirmos que há dificuldade, que precisamos de mais tempo, devemos dar a conhecer isso à Secretaria, e tomar consciência de que este processo não é ‘ok, fizemos isto, arrumamos e agora Roma que decida’. Não, não pode ser isso!

 

Isso é o menos sinodal possível…

É o que o Papa Francisco não quer. Até porque o cardeal Mario Grech (secretário do Sínodo dos Bispos), ao encerrar no dia 9 os trabalhos na ala sinodal apresentou sugestões. Os teólogos que pensem e que trabalhem, é preciso aprofundar a eclesiologia da ‘Lumen Gentium’ (‘Luz dos Povos’, Concílio Vaticano II), aprofundar a dimensão pneumatológica da Igreja. Perceber se se consulta o povo de Deus, ou se estamos a fazer a consulta dentro do povo de Deus, porque bispos, padres e o Papa, também são povo de Deus. São questões que precisam de ser aprofundadas e os teólogos têm um momento extraordinário, sobretudo os eclesiólogos, de fazer este trabalho. Mas, a primeira grande dificuldade vai ser implementar este processo, que é profundamente espiritual, e aqui precisamos dos nossos irmãos da Companhia de Jesus. Há outras tradições no discernimento, mas esta está profundamente enraizada naquilo que é a espiritualidade inaciana, nos exercícios espirituais. Que nos expliquem o que é isso de realizar o discernimento.

Eu diria: implementação e compreender que aquilo que vai acontecer não é um inquérito, senão a Igreja encomendaria um estudo de opinião, e as conferências episcopais e entregavam-no lá. Não é isso. É escutar aquilo que o Espírito Santo tem a dizer à Igreja, é uma experiência comunitária de discernimento, portanto é muito mais exigente.

 

Encontrar, escutar e discernir são os verbos que vão marcar este Sínodo, disse o Papa Francisco…

Eu acrescentaria: ‘tomar decisões’, porque essa é uma parte importante.

 

Este Sínodo prossegue a partir deste domingo nas várias dioceses do mundo. Em Portugal a maioria assinala o arranque do processo sinodal com eucaristias, presididas pelos respetivos bispos. Há quem diga que este é um arranque de alguma forma tímido e demasiado formal para o que se quer deste Sínodo. Concorda?

De um ponto de vista mediático, talvez. Mas, da perspetiva que é importante que seja vivido, não, porque este é um processo espiritual.

Foi dada liberdade às conferências episcopais e às igrejas locais para iniciarem este processo da forma que achassem mais conveniente. Eu estive numa das reuniões com representantes das conferências episcopais europeias, e o Bispo D. Luis Marín (subsecretário do Sínodo dos bispos) disse de uma forma muito clara: ‘sejam criativos’. Portanto, se fazem assim é porque entenderam que era o melhor modo de o fazer, mas não tinha de ser assim.

Agora, se deste modo se assinala que o Sínodo é um processo espiritual, a celebração da Eucaristia, uma Liturgia da Palavra ou o povo de Deus reunido em oração à escuta daquilo que Deus lhe tem para dizer, não me parece de modo algum errado. Poderá não ser a forma mais expressiva e original de o fazer, ou com mais impacto mediático, mas não está errado. E, como digo, foi dada liberdade às igrejas locais de iniciarem este período sinodal como achassem melhor.

 

Mas estamos a falar de um processo que é inédito, é a primeira vez que o Sínodo vai bater à porta de cada pessoa. Uma resposta formal, ainda que nesta fase inicial, não dificulta a perceção da novidade que efetivamente este momento representa?

Concordo, e aí está: se calhar é este modo que temos de ser Igreja que ainda não está em saída, com novas expressões, está ainda muito formatado.

Eu não sei se isto é inconfidência….

 

Se há coisa que os jornalistas gostam é de inconfidências…

Na apresentação do processo sinodal, a disposição dos sacerdotes e dos leigos dentro da ala sinodal tinha outro sonho, outra fantasia, não foi possível… Este também é um processo de conversão, de mudança, de darmos significado à realidade e de nos entendermos como Igreja.

A ideia de estar na ala sinodal era tão simples como isto, era não haver ali lugares exclusivos para esta ou aquela pessoa. Houve cardeais que o fizeram, não estiveram na primeira fila, mas misturados entre todos.

O que é que o Logo do Sínodo escolhido nos diz, para expressar a vontade do Santo Padre e do Espírito Santo, que é ser uma Igreja que caminha junta? É que não vai o bispo à frente nem atrás, vai lá no meio, vão pessoas, vão os mais frágeis. E aproveito para dizer isto: é preciso ouvir as margens, e ainda temos muito a caminhar.

Se repararam, na abertura do Sínodo tivemos testemunhos todos interessantíssimos, mas ouvimos as margens? Foram todas pessoas muito empenhadas, comprometidas, mas já fazem parte da estrutura. E nós precisamos de outros, dos que estão em processo de conversão, de luta até interior, que se sentem marginalizados.

Uma pergunta a fazer na Igreja é: quem são os leprosos de hoje? Pessoas que não queremos tocar, queremo-las afastadas, não lhes damos oportunidade ou espaço de se integrarem, mas que desejam, e esperam da nossa parte o maior acolhimento.

Como digo, este é um processo espiritual e também de conversão.

 

É um processo de desconforto?

Desconforto. Hoje dizemos muito ‘sair da nossa zona de conforto’, é mesmo isso.

 

Em Portugal espera uma participação ativa das comunidades e movimentos, dos católicos em geral?

Pois, temos de motivar e entusiasmar. Creio que sim, e já vemos algumas dioceses mais empenhadas, pelo menos nas redes sociais, há casos particulares que conheço melhor, na minha diocese.

Não estou a querer desculpar, mas há aqui a questão do tempo. Este processo inicia-se depois das férias, embora os bispos tivessem recebido indicações desde maio, as equipas levam algum tempo a ser constituídas, ainda não temos as pessoas de contacto conhecidas. Ainda há aqui muito trabalho para fazer, e tem de haver um grande empenho também da comunicação social. Também acreditamos no poder comunicativo do Papa Francisco, que faça as pessoas interrogarem-se, nas comunidades ou paróquias perguntarem ao padre ‘mas, não está a decorrer qualquer coisa? Uma auscultação do povo de Deus? Aqui na paróquia quando é que vamos iniciar?’. Eu acho que não fica mal, fica muito bem e é necessário.

 

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