Irmão Bernardino Frutuoso esteve 10 anos no Peru e lembra que «uma das primeiras barreiras para evangelizar é a língua»

Lisboa, 12 out 2019 (Ecclesia) – O diretor da revista ‘Além-Mar’, dos Missionários Combonianos, afirma que o “desafio” do Sínodo para a Amazónia é “mudar modelos clássicos de evangelização, partindo do conhecimento, da realidade” de cada povo.

“É um trabalho difícil, conheci missionários que estiveram ali 20, 30 anos. Os Missionários da Consolata têm uma grande missão no Brasil há 70 anos na mesma missão, para poder estabelecer este tipo de contacto, de presença que começa por gerar confiança recíproca, vai conhecendo um pouquinho da cultura e da realidade desse povo que quer evangelizar”, exemplificou o irmão Bernardino Frutuoso.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o Missionário Comboniano assinala que o Sínodo especial dos Bispos para a Amazónia é para refletir sobre esses povos “tantas vezes esquecidos” e onde “sempre foi muito difícil de evangelizar”.

O irmão Bernardino Frutuoso, que viveu durante 10 anos no Peru, explica que há povos na região pan-amazónica que foram “ficando isolados” porque “é muito difícil” chegar às zonas mais afastadas da Amazónia, com viagens de dias para chegar a uma pequena população indígena.

Segundo o religioso português, uma das primeiras barreiras para evangelizar “é a barreira da língua”, às vezes muito difíceis, faladas “por pequenos grupos”, sem dicionários ou gramáticas.

Quanto ao contexto político, o missionário recorda que a Amazónia “é um território vasto, vastíssimo, e uma realidade muito complexa”.

‘Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral’ é o tema da assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica – que tem uma extensão de 7,8 milhões de km2, incluindo áreas do Brasil, Bolívia, Perú, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa; dos seus cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos.

Segundo o missionário comboniano, a palavra “o integral é importante” porque a relação destes povos “com a natureza, com a mãe terra”, é “muito diferente” daquela a que os ocidentais estão habituados.

“Há essa ideia de que a natureza está para partilhar. Ela partilha comigo os frutos da terra, do mar, do rio. Há essa relação muito de uma convivência sã e não de exploração que a maioria dos ocidentais tem; A primeira vez que sobrevoei a Amazónia, nos anos 90, era realmente impactante ver aquela selva verde por debaixo dos olhos, nos últimos anos já se notava, sem muito esforço, a desflorestação”, desenvolveu.

O irmão Bernardino Frutuoso assinalou que os missionários que estiveram na América Latina receberam “com grande alegria” o anúncio deste sínodo que “se concentra na Amazónia”, mas tem “um valor para toda a Igreja, um valor universal”.

O diretor da Revista ‘Além-Mar’ explica que tem acompanhando o sínodo desde a sua preparação, publicando muitos artigos “sobre a realidade dos povos, os grupos eclesiais, entrevistas a bispos, organizações, missionários” para que realmente “possa ser voz destes povos tão excluídos e tão sem voz”.

PR/CB/OC

 

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