As tradições passam de uns para os outros e são elas que alimentam o Natal e os seus sonhos. É este renascer que nos dá o sentido da caminhada em família. E nesta terra de mar, onde chegaram as famílias de Estremoz, de Lamego e dos Açores, deu-se uma fusão de tradições que se perpetuam até hoje. No dia oito de Dezembro em que celebramos o dia da Mãe, começa-se a pensar nos preparativos para o nascimento do Menino. O presépio dos bonecos de barro de Estremoz assume o seu pedestal no cimo da lareira, elemento central da reunião da família na noite de Natal.

Faz-me sempre lembrar a soma das alegrias antecipadas num dia de viagem, aninhados em cobertores no banco traseiro de um carro pequeno, mas enorme a transportar tanta magia. Os encontros, a noite, as histórias, a mesa, os doces, e depois os doces sonhos…. Maravilhávamo-nos em frente ao madeiro gigante, o maior que o avô Tomé encontrasse durante todo o ano, igual a um grande tesouro, quanto era possível aquecer o Menino. De seguida, corríamos à casa do forno, perfumada com o cheiro a filhoses da avó Felicidade e adornada de melões e uvas passas dependuradas, de ramalhetes de tangerinas, de cestos de pão quente, de panelas de ferro ao lume. Logo íamos apanhar o musgo para fazer um presépio tão simples quanto era o Menino Jesus, S. José e Nossa Senhora. Os pastores e as ovelhas andavam na pastagem uns metros à frente da casa, as lavadeiras estavam no tanque comum da aldeia, os patos nas poças geladas do campo, os reis éramos os que íamos chegando de longe, oferecendo e recebendo afectos e os anjinhos chegavam de todo o lado, batendo às portas e espreitando às janelas.

Era no meio dessas memórias e histórias que ia com os meus meninos buscar musgo ao campo para fazer o nosso presépio de figuras toscas de barro, recriando os reais ambientes bucólicos. Sonhavam com o Menino Jesus que iria nascer, mas passou também a existir a árvore de Natal, enfeitada com a estrela e luzes, simbolizando Cristo, como a luz do Mundo.

Começam os preparativos para a grande Noite, a grande reunião de família, que antes sempre em casa dos avós, agora rotativo em casa de cada um dos irmãos. A mesa de Natal acrescentada, bem decorada e de cores vivas, transparecendo a alegria que vai na alma de cada um. Começam todos a chegar em corrupio, com os cheiros da cozinha a fazer adivinhar o aconchego do estômago. Depois de entradas várias, chega o célebre bacalhau cozido com grão, batata e couve troncha, como em Lamego, tudo regado de bom azeite e bom vinho. À espera, fica o peru assado para o dia de Natal. Entretanto, seguem-se as tangerinas, diospiros, melão e uvas, entrecortando os sabores, as conversas e risadas intermináveis. Já mais tarde se passa ao arroz doce, às filhoses, azevias e sonhos, terminando com o licor de maracujá dos Açores e o bolo de chocolate em forma de Natal. Seguidamente faz-se um pequeno teatro ensaiado ou improvisado, dizem-se uns poemas, cantam-se músicas de Natal ou simplesmente recriam-se e revivem-se as histórias já vividas. Chega a esperada hora da entrega de presentes aos mais novos e a troca entre adultos. Mas nós, os quatro, mantemos a secreta magia de saber que os nossos presentes irão para os sapatinhos, pé ante pé deixados à chaminé, já que a lareira fica toda a noite a aquecer o Menino.

Com muitos abraços de alguns que se despedem, vamos para a Missa do Galo assistir ao momento alto que está para acontecer, o Nascimento de Cristo. Os sinos já chamam e a entrada na igreja iluminada, com os acordes de Noite Feliz, tudo converge para o presépio talhado por mãos de amor. Saímos da igreja com o nascimento dentro de nós e a brisa que vem do mar refresca as almas.

Ouve-se o apito do navio muito perto e as gaivotas alegres anunciam o dia de Natal. Trazemos connosco os cânticos ao Menino Jesus, que nos pretendem aquecer agora e ressoar o Natal pelo ano fora.

Isabel Melo

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