Nota episcopal desafia a recentrar a ação da Igreja na «lógica do cuidado», mais do que repensar estruturas, numa «sociedade marcada pela dispersão e pelo isolamento»

Setúbal, 08 mai 2026 (Ecclesia) – O bispo de Setúbal divulgou hoje a nota episcopal “Cuidar com o coração: presença, esperança e vida no mistério da dor” afirmando a necessidade de uma “lúcida reorganização da geografia pastoral” centrada na “lógica do cuidado”.
“A conjugação entre envelhecimento, solidão e fragilidade social constitui um apelo claro à reorganização da presença pastoral, orientando-a para formas mais próximas, contínuas e territorialmente enraizadas”, afirma D. Américo Aguiar no documento divulgado no dia em que o Papa Leão XIV assinala o primeiro ano de pontificado.
O bispo de Setúbal afirma que “cuidar da fragilidade na doença, na morte e no luto exige uma presença estruturada, capaz de chegar aonde as redes familiares se tornaram também elas muito frágeis ou inexistentes”.
D. Américo Aguiar sublinha que a Igreja “é chamada a redescobrir a sua vocação de proximidade concreta” e “tem de ser presença significativa junto dos mais frágeis e sinal visível de cuidado numa sociedade marcada pela dispersão e pelo isolamento”, apontando para a necessidade de “uma lúcida reorganização da geografia pastoral”.
Torna-se, assim, necessário repensar a distribuição das comunidades, a articulação entre paróquias e serviços e a constituição de redes que assegurem uma presença efetiva junto dos mais frágeis. Não se trata apenas de reorganizar estruturas, mas de recentrar a ação pastoral na lógica do cuidado, garantindo que nenhuma pessoa nem realidade concreta fique fora do horizonte da presença eclesial”.
O bispo de Setúbal aponta “a compaixão e a empatia” como “condições essenciais da ação pastoral”, o que “exige mais do que adaptações superficiais”, antes uma “transformação profunda do modo de compreender, discernir e agir pastoralmente”, colocando no centro o “coração do pastor”.
“Antes de qualquer estratégia ou organização, é o coração do presbítero que deve estar continuamente configurado ao de Cristo”, afirma.
D. Américo Aguiar lembra que “quem cuida precisa também de ser cuidado” e alerta para os perigos da “pressão pastoral” e da “multiplicação de tarefas” e da “exposição constante ao sofrimento” que “podem desgastar a capacidade de escuta e de proximidade”.
“É essencial criar espaços de silêncio, de oração, de partilha fraterna e de acompanhamento espiritual, onde o coração do pastor possa ser descansar e reconstruir-se”, afirma
Uma Igreja que cuida dos seus pastores, protege o centro da sua própria missão. Só um coração habitado pela compaixão, pode gerar uma proximidade verdadeira”.
O bispo de Setúbal afirma que o cuidado de quem sofre interpela a uma pastoral da esperança “enraizada na vida concreta das comunidades e atenta às situações reais das pessoas.
Na nota episcopal “Cuidar com o coração: presença, esperança e vida no mistério da dor”, o bispo de Setúbal diz que “envelhecimento, solidão, fragilidade social e familiar” são histórias de vida marcadas “pela doença, pela morte e pelo luto”, o que reclama uma “resposta que não pode ser adiada nem superficial”, mas implica a capacidade de “olhar de frente para a fragilidade humana nas suas expressões mais concretas: a doença, a morte e o luto”.
Num segundo momento, somos chamados a uma verdadeira conversão pastoral, que passa pela compaixão e pela empatia e que tem, no coração do pastor, um lugar decisivo”.
D. Américo Aguiar aponta depois para a necessidade de “edificar uma autêntica proximidade, capaz de consolar, mobilizar e transformar, mesmo no meio da dor”.
Mais do que multiplicar iniciativas, somos chamados a transformar o nosso modo de estar: aprender a ver com mais atenção, a escutar com mais profundidade, a permanecer com mais fidelidade. A Igreja não é chamada a fazer tudo, mas é chamada a estar onde ninguém quer estar.
O bispo de Setúbal lembra que “cuidar é identidade antes de ser ação”, apela a uma “ética da proximidade”, afirma que a doença é “lugar de encontro e humanização” e refere-se à necessidade de devolver à morte a “verdade pascal”, sugerindo “a urgência de uma presença pastoral firme e profundamente humana no momento da sepultura.
Acompanhar o luto implica reconhecer que não se trata apenas de superar uma perda, mas de reconfigurar a relação com quem morreu e reconstruir o sentido da própria vida”.
Na nota episcopal, o bispo de Setúbal aponta desafios pastorais na “lógia do cuidado”, afirmando que a diocese “é chamada a assumir compromissos concretos” na área da pastoral da saúde, promovendo uma “pastoral de visitação contínua”, do apoio ao luto, sugerindo nomeadamente a formação de leigos “para o ministério da consolação”, e integrando a dimensão da esperança nos “itinerários pastorais, tornando cada paróquia “espaço de acolhimento e reconciliação”.
“Que a nossa Diocese seja verdadeiramente a casa onde a esperança se aprende, se partilha e se renova; que seja o lugar onde cada pessoa, independentemente da sua fragilidade, encontra rosto, nome e pertença. Que nos sintamos chamados a ser uma comunidade que não foge da fragilidade, que não teme a noite e que não desiste de ninguém”, conclui o bispo de Setúbal na nota episcopal.
PR
