Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Procurava estar em Deus. Cada palavra proclamada da Palavra era saboreada. A meditação que o sacerdote fazia na homilia ajudava a entrar mais profundamente no Mistério de Deus, e a vivência comunitária daquela Eucaristia dava sentido e significado à minha fé. Por um breve momento, olhei para a ala da direita da Igreja durante o cântico de Ofertório e tudo descambou.

O que via não tinha qualquer sentido. Comecei a pensar se, talvez, não seria dos poucos que estava incomodado com um irmão a contemplar, não Deus, mas o pequeno ecrã do seu smartphone. Não era o momento das leituras, e com o dedo lá ia fazendo swipe e scroll. A ânsia de dopamina, hormona cerebral de gratificação instantânea, aparentemente, superava a possibilidade de um diálogo profundo com Deus. Fiquei intrigado, mas não foi o único episódio.

Numa outra celebração da Eucaristia, numa cidade diferente, enquanto caminhava para receber Jesus que se dava totalmente a cada um de nós na comunhão, alguém, sentado no banco, descontraidamente, enviava uma mensagem a outra pessoa com um conteúdo banal. Sim, talvez a minha atitude não fosse a melhor por ter vislumbrado de soslaio o conteúdo, e ficado, novamente, intrigado e curioso sobre o que seria mais importante do que entrar num momento de diálogo profundo com Deus. Perdoem-me, por favor.

Há uns anos, numa breve crónica de jornal, o economista João César das Neves observava quantas pessoas, sobretudo com mais idade, atendiam na missa o telemóvel para dizer que não podiam atender por estar na missa (!?!). Então, se não podiam atender, porque o faziam? Ao partilhar esta perplexidade com um sacerdote amigo, com sabedoria ele dizia – “ mas, ao menos, do outro lado alguém ficou a saber que ainda se vai à missa.” De facto. Mas hoje, nem isso.

Numa audiência semanal a 8 de Novembro, o Papa Francisco introduzia uma série de catequeses sobre a Eucaristia e a um dado momento diz:

«[a] um certo ponto o sacerdote que preside à celebração diz: “Corações ao alto?”. Não diz: “Telefones ao alto para fazer fotografias!”. Não, não é agradável! E digo-vos que me causa muita tristeza quando celebro aqui na Praça ou na Basílica e vejo tantos telefones elevados, não só dos fiéis, mas até de alguns sacerdotes e bispos. Por favor! A Missa não é um espetáculo: significa ir ao encontro da paixão e ressurreição do Senhor. Por isso o sacerdote diz: “Corações ao alto”. Que significa isto? Recordai-vos: não levanteis os telefones.»

Quando propus num artigo; se o leitor estaria disposto a aceitar o desafio de 4 missas sem levar o telemóvel, uma leitora partilhou-me que costuma levar, mas tinha o cuidado de o deixar em silêncio. Dizia ainda que«devemos ter em conta que o barulho desconcentra todos os que o ouvem, sacerdote incluído. Já ouvi um queixar-se, em plena missa, pelo facto de não conseguir manter a necessária concentração, devido ao toque de telemóveis. Um outro reage com humor “decretando” multas a quem quebrar a regra do silêncio.» Mas, para além desta e de outra leitora que subscrevia a intenção do desafio, não recebi feedback de mais ninguém. Teria tocado num assunto que incomoda e mais vale ignorar? Ou, mais provavelmente, as pessoas não lêem ou ligam aos meus artigos de opinião na Ecclesia… 🙂 Tranquilo.

Os estímulos induzidos pelo uso do smartphone alteram a química do nosso cérebro, de tal modo que passamos a ter dificuldade em passar mais do que alguns minutos sem olhar para o mesmo. A Eucaristia é um momento de profundidade, recolhimento interior, vivência comunitária da fé, em que o maior estímulo seria o espaço e tempo que dedicamos ao diálogo com Deus. Seja através dos cânticos, orações, comunhões (da Palavra, com os irmãos, no pão eucarístico) ou silêncio. Mas conscientes de que as cores são reais e não saturadas, como num ecrã; as mensagens apelam à escuta da voz interior e não à vista exterior; e o estímulo tem uma origem diferente daquela que obtemos com um telemóvel. Aquele tédio; que estimula o encontro com os nossos pensamentos e Deus dentro de nós é mais benéfico do que podemos imaginar.

Por mais que justifiquemos o uso de um smartphone na missa com uma App que contém as leituras e orações, nada nos assegura de que não receberemos uma notificação que nos distrai (nem mesmo em modo de voo, pois, há Apps que enviam na mesma notificações). Por outro lado, um livro impresso com a liturgia diária não gasta bateria e torna-nos pró-activos ao reflectirmos sobre como podemos traduzir o que lemos na Sagrada Escritura em vida. Um smartphone torna-nos re-activos ao sermos, quase de imediato, impelidos a partilhar uma passagem gira pelas redes sociais. São as acções que transformam vidas, não as reacções.

– “Quer isso dizer que não devemos levar o telemóvel para a missa?” – se não és capaz de te concentrar profundamente na celebração da Eucaristia, e não resistes a dar, de vez em quando, uma ”espreitadela” no “dito-cujo”, experimenta não levar. Não porque não deves, mas por quereres um relacionamento profundo e totalmente imerso em Deus, aceitando a Sua Vontade no momento presente. É mais difícil fazer a Vontade de Deus quando não educamos a nossa vontade. Pois, corremos o risco de ficar submissos a uma vida digital cada vez mais afastada da vida real. Por fim, o que merece cada vez mais a nossa atenção são as crianças.

Diversos investigadores do Canadá fizeram um estudo; com uma amostra de mais de 2000 famílias sobre o efeito que o tempo de ecrã tem sobre o grau de atenção das crianças pequenas, concluindo que os que consomem mais do que 2h de ecrã/dia têm:

  • 5x maior probabilidade de desatenção;
  • mais de 7x maior probabilidade de contrair défice de atenção.

Vemos ainda muitas crianças enterterem-se na missa com o telemóvel dos pais. Parece ser um descanso para os pais, mas enquanto uma criança que pinta, escuta, uma criança com o olhar fixo no ecrã fica surda. Como poderá Deus dizer-lhes seja o que for? Pensemos nisso.

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