Semana Santa: Grupo Gólgota transporta há 35 anos a «fé para as ruas», com recriações dos últimos dias de Cristo

Santa Maria da Feira acolhe encenações, que demoram meses a preparar e que mobilizam público até à cidade

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Santa Maria da Feira, 03 abr 2026 (Ecclesia) – O Grupo Gólgota, de expressão cultural e social da espiritualidade passionista, recria há 35 anos os últimos dias de vida terrena de Jesus, em Santa Maria da Feira (Diocese do Porto), envolvendo cerca de 300 elementos e atraindo multidões.

“É uma grande catequese. Acima de tudo, nós tentamos ensinar de uma forma diferente. Dar catequese de uma forma diferente. De uma forma vivida”, explica Salomé Sousa, que participa no projeto há 30 anos, em declarações à Agência ECCLESIA.

A integrante do Grupo Gólgota destaca que as encenações são “uma forma de viver a religião”.

“Tenho quase a certeza que 90% dos nossos elementos que fazem a representação em si, que têm textos ou que fazem simplesmente figuração, não estão a representar, estão a viver aquilo que sentem e aquilo em que acreditam”, expressa.

Fundado em 1991, o Grupo Gólgota iniciou as suas atividades a 29 de março, com uma representação ao vivo da Via-Sacra, dos passos de Cristo rumo ao Calvário onde depois é crucificado e morto.

Salomé Sousa recorda que foi cativada a integrar o projeto pela “entrega das pessoas”, que apesar do trabalho, famílias e filhos pequenos, abdicavam do tempo em casa para os ensaios à noite.

“Toda a gente fazia tudo, toda a gente representava, toda a gente arrumava, toda a gente montava, toda a gente ajudava a vestir uns aos outros”, lembra.

As recriações dos últimos momentos de Cristo envolvem cerca de três centenas de elementos do Grupo Gólgota, incluindo atores, membros da logística e do guarda-roupa.

“Isto envolve muitos ensaios. Cerca de três meses antes, já com a escolha dos personagens com ainda maior antecedência, e todos esses ensaios tentamos ao máximo que as pessoas compareçam, principalmente os atores com texto e as personagens principais”, relata.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é a primeira encenação teatral e realizou-se no Domingo de Ramos.

Nuno Rafael interpreta o papel de Cristo e assume que dar vida a esta personagem “é difícil, mas acima de tudo gratificante”.

O ator salienta que o que interessa é chegar ao fim e ver que as pessoas gostaram e destaca o sentimento de conseguir passar a mensagem “ao fim de tantas semanas de trabalho” e “de ensaios”.

“Custa um bocado a sair da personagem. O tirar as vestes não se sai logo da personagem, mas já fiz de mau, agora faço de Cristo. Cada personagem é a sua personagem e custa sair de todas, de Cristo se calhar um bocadinho mais”, partilha.

Ligado ao Grupo Gólgota está também Daniel Padrão, há mais de 20 anos, e que este ano assume o cargo de encenador.

“É muito desafiante. Acarreta muita responsabilidade, principalmente porque toda a gente conhece a história e a história não pode ser mudada. E temos que encarar isto como muito mais do que um teatro. É uma manifestação pública”, refere.

A maior parte dos elementos do Grupo Gólgota vêm dos passionistas, alguns já têm algum historial com catequistas, com catequizandos, com grupos jovens, todos eles ligados à religião.

“E penso que por aí, a parte das encenações dentro do Grupo Gólgota, incentiva as pessoas a carregarem ainda mais e a transportarem essa moral e essa fé para as ruas”, mencionou.

Em declarações à Agência ECCLESIA, o padre passionista João Paulo Silva diz que as recriações nesta Semana Santa podem simbolizar uma “forma forte” de chamar o público ao “compromisso com Cristo para depois no seu quotidiano serem plenamente cristãos”.

“Não sabemos quem vem, há anos que vem mais gente, menos gente, este ano com este belo tempo tivemos uma presença grande nesta entrada triunfal e por isso acreditamos que havemos de tocar no coração de algumas pessoas”, ressaltou.

A assistir à primeira das três recriações estavam, no meio do público, Ricardo Jorge e o filho Lourenço.

“Tentamos vir todos os anos, sempre que nos é possível tentamos vir, tentamos participar e tentamos trazer os nossos filhos”, indica o pai, que vê nestas encenações uma forma de dar catequese.

“Eles aprendem muito e nós também acabamos por recordar aquilo que aconteceu e aquilo que também aprendemos, portanto tentamos sempre participar”, acrescenta.

Ricardo Jorge defende que a “igreja tem que sair da igreja e mostrar-se à comunidade e a toda a gente”.

“Não podemos ter vergonha de fazer esta festa fora da igreja, por isso sim, temos que sair”, sublinha.

Depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, realizou-se na passada quarta-feira a recriação da Última Ceia, do Castelo até ao Claustro do Convento dos Lóios, e realiza-se hoje, pelas 21h30, a Via Sacra, do Palácio da Justiça até ao Castelo.

O Programa ‘70×7’ deste domingo vai dar destaque às vivências das celebrações da Semana Santa e pascais em Santa Maria da Feira.

HM/LJ/OC

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