Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga

1 – As celebrações da Semana Santa, associadas ao tempo Quaresmal que a precede e à Páscoa na qual culmina, são uma das manifestações coletivas mais revelantes da Igreja Católica em Portugal. Num tempo em que se procura, em muitos lugares, o reconhecimento das práticas associadas à Semana Santa como Património Cultural Imaterial, devemos convocar uma reflexão sobre estas realidades sociais, mormente as práticas associadas à religiosidade dado o seu caráter profundamente dialético e simbólico.

2 – O Património Cultural, imóvel, móvel e imaterial, é um dos âmbitos mais óbvios onde a Igreja se cruza com as comunidades humanas. À partida rejeitamos o preconceito existente de que o lugar da religião se resume à esfera privada do indivíduo. Esta atitude corresponderia a uma cedência para com o laicismo exacerbado, que se funda meramente num ideal social e não propriamente na realidade objetiva dos indivíduos e das suas relações sociais mais autênticas. Contudo, não negamos que existe uma ideologia dominante que defende que a religião foi, e ainda é compreendida como um fenómeno anacrónico ou marginal que já não pode despertar muito interesse no quotidiano ou influenciar a vida pública numa sociedade moderna[1].

3- Obviamente que, considerando a Cultura como o conjunto de práticas e formas de vida que expressamos no nosso quotidiano, temos necessariamente que integrar as práticas de natureza religiosa na esfera cultural, dado que as mesmas fazem parte da experiência concreta das pessoas. Por isso mesmo, quando nos referimos às solenidades da Semana Santa temos necessariamente que falar de Cultura. Recordemos que a relação da Igreja com a Cultura foi um dos principais debates da terceira sessão do Concílio Vaticano II. De que forma poderia a Igreja quebrar ou limitar a linha imaginária que as sociedades deixaram adensar-se entre o que consideram ser de natureza religiosa e, por conseguinte, de âmbito privado, e aquilo que é efetivamente público?

4 – Diz-nos a Igreja que a cultura “é tão natural ao homem, que a sua natureza não tem nenhum aspeto que não se manifeste na sua cultura” (Conselho Pontifício da Cultura, 1999). Este entendimento alargado do conceito de cultura, obviamente que integra a dimensão religiosa, presente num incomensurável rol de ações promovidas pelo ser humano. Como sabemos a questão da religiosidade não é consensual, muito menos o seu aprofundamento num contexto em que se revelam alguns desvios que decorrentes de uma prática da religiosidade popular desordenada, proveniente, algumas vezes, de um culto demasiado apegado a rituais esvaziados de conteúdo e pouco reveladores de uma espiritualidade autêntica.

5 – No caso das celebrações da Semana Santa temos que afirmar que, apesar dos desvios, não deixaram de ser constituídas por práticas de natureza eminentemente espiritual. Essa é, aliás, a motivação sempre declarada a priori. No entanto, é também espetáculo e isso entrevê-se particularmente na multidão de turistas que procuram anualmente algumas localidades, como é o caso de Braga. Continua obviamente a ser significativa a dimensão espiritual e devocional de muitos dos crentes que participam nos cerimoniais, no entanto é evidente a mistura de outras motivações mais ‘profanas’. Uma parte significativa dos cerimoniais que compõem a Semana Santa por todo o país, mormente as grandes procissões, constitui-se hoje tal qual um espetáculo em que podemos identificar atores e espectadores.

6 – Tal como perspetiva Guy Debord vivemos numa sociedade do espetáculo em que se verifica uma inversão do sentido das coisas[2]. Este caráter mediático conduz muitas pessoas, que procuram estes cerimoniais por mera curiosidade. Levam a máquina fotográfica, não participam nos ritos e apenas procuram registar o que se vai passando. Esta fronteira, tão tenuemente explorada, entre o espiritual e o mediático é uma problemática que integra a identidade hodierna das solenidades da Semana Santa e Páscoa, em especial quando aplicada à religiosidade popular minhota. Como não lembrar o especial mediatismo das procissões da Semana Santa em Braga ou do célebre Compasso Pascal na paróquia amarense de Fiscal? Apesar disso, antes de emitir juízos de valor precipitados, precisamos de perceber que no mediático também reside o espiritual e que a devoção também pode ser espetáculo.

7 – O que é a procissão das velas em Fátima senão um verdadeiro ato de religiosidade? No entanto, não deixa de se afirmar como um dos espetáculos mais imponentes da experiência de fé a nível mundial. Também as celebrações da Quaresma, Semana Santa e Páscoa, enquanto práticas culturais, se subjugam ao papel que os media adquiriram na sociedade, investindo sucessivamente em meios de comunicação e, até, na sua monitorização, tendo por finalidade aferir impactos e contribuir para a atração de mecenato. Estaremos perante uma cedência à “ditadura” que os media impõem à sociedade hodierna ou apenas diante de uma natural adaptação da Igreja à sociedade em que nos inserimos?

Rui Ferreira

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[1] Dix, S. (2007) O que significa o estudo das religiões: Uma ciência monolítica ou interdisciplinar?, Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
[2] Debord, G. (2012) A sociedade do espectáculo, Lisboa: Antígona.

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