Enfermeiro João Paulo Nunes participou do projeto «Forvida – programa Obrigado Mãe» e divide-se entre a formação dos futuros enfermeiros e prestação de cuidados em projetos de intervenção social

Foto: Agência ECCLESIA/LS

Lisboa, 28 jun 2022 (Ecclesia) – João Paulo Nunes, enfermeiro com especialidade infantil e pediátrica, esteve em Angola envolvido num projeto «Forvida – programa Obrigado Mãe», para apoio à saúde materna, com resultados na diminuição de 70% da mortalidade materna e neonatal.

“Estão identificadas, a nível internacional, as causas da mortalidade materna – a hemorragia pós parto e a infeção puerperal, que acontece após o parto. Sabendo as duas grandes causas que são a origem de mais de 70% das mortes, é evidente que se olharmos para elas de forma preventiva, acutilante, determinada e em grupo, a probabilidade é diminuir e foi isso que fizemos”, conta à Agência ECCLESIA.

O projeto «Forvida – programa Obrigado Mãe» envolveu a Fundação Fé e Cooperação, a Cáritas Portuguesa, a Cáritas Angola, a Escola Superior de Enfermagem São Francisco das Misericórdias, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto Camões, e foi executado no Centro Materno-infantil Nossa Senhora da Graça, em Benguela.

“Qualquer mulher que tinha o parto naquele centro eram contactadas por telefone cinco vezes durante 42 dias. No primeiro dia telefonávamos, alertávamos para a questão da hemorragia, e a infeção através da febre, e dizíamos para a pessoa recorrer logo aos serviços de saúde para pode ser medicada e ter uma recuperação. Uma mulher após o parto é normal ter uma hemorragia, dentro de certos parâmetros, mas se for clara a informação e as mulheres reconheceram quando devem aceder aos serviços, estamos a melhorar os cuidados de saúde”, explica.

Também em relação aos bebés a melhoria nos cuidados de saúde à nascença foram efetivos.

Muitos milhares de crianças morrem no primeiro mês de vida, muitas nos primeiros sete dias de vida, e ainda mais no primeiro dia de vida. Esta lógica estatística faz-nos perceber que se incidirmos a vigilância nos primeiros dias de pós parto, estamos a prevenir a morta daquelas crianças”.

O especialista indica “cuidados básicos” e ensino “rigoroso” às mães, em especial sobre amamentação, “febre e riscos de asfixia” e higienização do coto umbilical, para além da proximidade como “valor essencial e transforma os comportamentos das pessoas.

Este projeto, tendo sido iniciado em Benguela, quer chegar a outros locais com a parceria do Ministério da Saúde de Angola.

João Paulo Nunes assume que em Angola, encontrou pessoas “muito próximas da natureza, da sua origem, da sua vocação essencial que é ser”.

“Essa vocação essencial percebe-se nas pessoas, no seu comportamento, na maneira como olham para nós, na forma como escutam com atenção – que nunca encontrei noutro lado – na forma como nos colocam questões, na forma como são respeitosos e como apreciam o nosso tempo e atenção para com eles. Este é o ser humano que encontrei”, recorda.

João Paulo Nunes divide-se no mundos da formação dos próximos enfermeiros e da prestação de cuidados em projetos de intervenção em diferentes realidades, mas, assume, que todo o trabalho que realiza é “uma mistura entre o saber falar e o saber levar aos outros alguma coisa”.

“Uma sintonia entre o saber e o saber fazer que depois em termos deontológicos se junta com o saber ser”, indica.

A enfermagem, reconhece, apareceu “por acaso” na vida mas explica ter acontecido “no espaço de valores cristãos muito semelhantes” aos que tinha conhecido no Movimento Encontro de Jovens Shalom, onde foram reveladas “perspetivas de vida mais profundas” e “olhares de Deus sobre a vida mais diferenciados do que até então”.

“Foi nesse espaço que aprendi a perceber que somos sujeitos, independentemente dos outros, mas em comunhão, com uma individualidade reconhecida pelo Criador e com uma missão específica, que beneficia de uma atitude pessoal, profissional e social. Realizamo-nos quando levamos até aos limites as nossas mais virtuosas capacidades. Há um compromisso ético”, explica.

João Paulo Nunes entende que as obras de misericórdia que afirma ter aprendido com o padre Vítor Melícias, «Dar de comer a quem fome, dar de beber a quem tem sede, abrigar os peregrinos, vestir os nus, visitar os doentes», por exemplo, são obras que um enfermeiro faz na sua área profissional.

A Igreja é composta por cristãos, uns são enfermeiros, assistentes sociais, jornalistas, e todos temos a obrigação de alimentar os famintos, mesmo que alimentar os famintos signifique uma coisa para os enfermeiros e outra para os jornalistas, mas o paradigma é comum”.

A conversa com João Paulo Nunes pode ser acompanhada esta madrugada, pouco depois da meia-noite, no programa Ecclesia na Antena 1, ficando disponível no portal de informação ou em formato podcast.

LS

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