Pedro Gil 

Praça Central? Sim, o encontro aberto a todos para uma ampla conversa sobre cristianismo, sociedade e cultura, desta vez à volta do sugestivo título “A difícil arte da amizade social”. Encontro acontece a 20 de novembro em Almada.

Praça Central? Sim, o encontro aberto a todos para uma ampla conversa sobre cristianismo, sociedade e cultura, desta vez à volta do sugestivo título “A difícil arte da amizade social”. Um tema com os pés na terra. No próximo dia 20 de novembro. Em Almada. A coisa promete. Abramos 4 entradas para compreender o que está em causa.

O tema nasce da “Fratellit tutti”, texto do Papa sobre a fraternidade humana, onde se foi buscar o subtítulo: “Como é importante sonhar juntos!”. Para muitos, “fraternidade”, “solidariedade”, “amizade”, e todo um etc. de expressões semelhantes, são tópicos que já cansam. Palavras estafadamente gastas, a quem alguém roubou o poder fresco e surpreendente de mudar vidas e sociedades.

Por isso, a primeira reação é de compreensível cautela e cepticismo: “oh não, mais do mesmo não!”.

Sem fazer “spoiler”, podemos saborear um aperitivo de 4 entradas que permita concluir com um suficiente, ainda que titubeante, “se calhar, vai valer a pena”.

 

1ª entrada – “Fratelli tutti ergo filii tutti”, ou melhor “Fratelli tutti quia filii tutti”

A história e o quotidiano mostram que é muito difícil a fraternidade pacificada. Há uma incontornável fragilidade humana em cada pessoa, onde paradoxalmente coabitam um grande potencial de bem e uma estranha inclinação para o erro e até malícia. Aquilo que alguém já chamou mistura de barro e graça que é cada um, só se resolve com um reconhecimento de que a fraternidade se baseia numa comum filiação. Ora a referência a um pai comum só transforma a fraternidade em amizade e benevolência, se esse pai não for ausente ou maléfico, mas vivo e pleno de poder de bondade e de cura. Um discurso sobre a paz é tanto mais credível e transformador quanto mais se basear não nas forças humanas, mas na poderosa força de bem que vem de um Deus bom. Faz, pois, todo o sentido que a “Fratelli tutti” termine com uma oração a Deus, e que a “Praça Central” termine com uma eucaristia. Não são um extra ou opcional: são a chave do euromilhões da fraternidade.

2ª entrada – O perdão: tão difícil e tão necessário

Como gerir as ofensas que sofremos? Em especial quando vêm não de estranhos mas das pessoas mais próximas e de quem mais gostamos? E o outro lado: como havemos de fazer depois de termos magoado duramente pessoas que não devíamos ter ferido de modo nenhum? O tempo certamente cura muitas feridas, mas há feridas que só se curam com o perdão oferecido e recebido. “Hoje é fácil cair na tentação de voltar página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para diante. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa.” “O perdão não implica esquecimento. Antes, mesmo que haja algo que de forma alguma pode ser negado, relativizado ou dissimulado, todavia podemos perdoar. Mesmo que haja algo que jamais deve ser tolerado, justificado ou desculpado, todavia podemos perdoar. Mesmo quando houver algo que por nenhum motivo devemos permitir-nos esquecer, todavia podemos perdoar. O perdão livre e sincero é uma grandeza que reflete a imensidão do perdão divino. Se o perdão é gratuito, então pode-se perdoar até a quem resiste ao arrependimento e é incapaz de pedir perdão.” (Fratelli Tutti, 249-250). Na Praça Central intervirá o cardeal Sean O’Malley o rosto da Igreja que mais e melhor enfrentou os casos de abusos e que acompanhou muitas vítimas nos difíceis processos de cura e reconciliação.

3ª entrada – A amabilidade, essa “tecnologia” futurista

Temos pressa, não há vagar para salamaleques. Muitos pensam que há adornos líricos que só gente ociosa e que não é deste mundo pode dar-se ao luxo de ter e neles desperdiçar o seu tempo. “São Paulo designa um fruto do Espírito Santo com a palavra grega chrestotes (Gal 5, 22), que expressa um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros, para que a sua existência seja mais suportável, sobretudo quando sobrecarregados com o peso dos seus problemas, urgências e angústias. É um modo de tratar os outros, que se manifesta de diferentes formas: amabilidade no trato, cuidado para não magoar com as palavras ou os gestos, tentativa de aliviar o peso dos outros. Supõe dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam.” (Fratelli Tutti 223). É talvez fácil a amabilidade de circunstância, o “boa tarde” de café e o “com licença” de elevador. Mas tentemos aplicar essas sugestões a uma assembleia de condóminos, a uma reunião de partilhas, aos debates parlamentares, e à conversa de café à saída de um “Benfica-Sporting”. Dá para sentir o carácter revolucionário da “tecnologia” da amabilidade. Daí o interesse, por exemplo, da participação na Praça Central do tema da “escuta activa” abordado pela Rute Agulhas e da “conversa nas redes sociais” pela Rita Fevereiro.

4ª entrada – Uma recheada “ficha técnica”

Embora com começo às 9.00 e fim às 20.00 há tempo para uma manhã com 3 sessões gerais sucessivas, e a tarde com 2 blocos seguidos de 4 sessões paralelas rematada pela Eucaristia; e  a intervenção de 49 oradores de vários perfis e experiências de vida que, em conferências, em debates, em mini-conferências, vão conversar sobre ideias, testemunhos e sugestões, de forma a que a “difícil arte” da amizade social, entre as suas sombras e os seus sonhos, se torne mais realizável.

Toda a informação se pode encontrar no site www.cnal.org.pt, da Conferência das Associações de Apostolado dos Leigos, cuja comissão organizadora é composta por João Cordovil Cardoso, João Sousa, Rosário Lupi Bello, Elsa França, Júlio Marín, Simão Mira, Mafalda Rebelo, António Fonseca, José Diogo Ferreira Martins, Paulo Rocha, Ricardo Perna. O assistente religioso é o P. Luís Marinho.

Publicado em https://pontosj.pt/

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