Nuno Valente fez o caminho quatro vezes e não quer parar

Agência Ecclesia/MC

Lisboa, 23 jul 2019 (Ecclesia) – A experiência de peregrinar no caminho de Santiago levou o advogado Nuno Valente a “sentir-se colocado à prova” e desafiado a ver “outra forma de estar na vida”.

“Esgotei o cartão da máquina fotográfica e fiquei aflito, tentei desvalorizar e viver aquele dia. Hoje rio-me de ter levado um iPod para ouvir música, ficou sem bateria e nem sequer levei o carregador. Já não haveria mais música e nunca pensei mais nisso. Fui colocado à prova, fui confrontado com uma opção, ou te inquietas ou vais aceitar e poder ver outra forma de estar na vida”, conta à Agência ECCLESIA.

Este peregrino de Lisboa ouviu falar dos itinerários até Compostela e resolveu “pôr pés ao caminho”, depois optou pela simplicidade.

“Quando cheguei a Valença fui jantar pelas 21 horas, aqueles horários normais que depois percebi que não são os do peregrino.. E isso denunciava que era a primeira vez que fazia o caminho, no dia a seguir sabia que tinha de seguir setas mas não sabia onde é que elas estavam… eu estava aflito e custou-me imenso atinar”, refere, a rir.

Nuno Valente é um advogado aposentado que teimou em ser tratado como, “simplesmente Nuno”, era assim que se sentia bem, como um simples peregrino, onde ninguém lhe perguntava o nome ou o que fazia. 

“Fundamental de quem faz os caminhos é ser peregrino, alguém que se decidiu a percorrer os caminhos, não há uma alteração da identidade da pessoa mas até de certa forma podia surgir… É o peregrino, nunca deixará de ser, mas a identidade está relacionada com o caminho que se faz, mais o que se é ou se desempenha na vida”, defende.

Além de uma vida cheia, de stress e agenda preenchida, o caminho trouxe a Nuno a ideia de que “não se consegue controlar tudo na vida”, é necessário ter a possibilidade de parar e deixar-se conduzir. 

“O caminho ajuda-nos muito a pensar e depende da nossa capacidade de aceitar o que vai acontecendo; encontrar alguém e não me interessar pelo que faz, que funções ou estatuto tem, o mais importante é o relacionamento com as pessoas, simples e sem preconceitos”.

Nuno Valente fez quatro vezes o caminho, o português (De Valença a Compostela) e uma vez o da Costa portuguesa (de Sagres a Compostela), e teve muitos receios iniciais, “de saber se conseguia ou não”, de se magoar, de se perder ou alguma outra coisa surgir.

“Eram muitas interrogações que se colocavam e depois que é terrível, a dualidade sucesso-fracasso… Mas Deus dá-nos a capacidade de nos espantar com o que nos sucede e isso é muito o que traz o sabor do caminho. Há uma coisa que me acontece sempre: não me apetece parar em Santiago porque aprendi a olhar para o caminho não como uma meta mas como um percurso que é preciso fazer, assim como na vida”, explica.

O peregrino tem a experiência de caminhar sozinho ou num pequeno grupo mas, uma das vezes a companhia foi um grupo grande e as experiências marcaram. 

“Caminhando com mais pessoas há menos tempo para interiorizar o caminho, mas é muito interessante a partilha que se pode fazer com quem caminha. Era um grupo de Taiwan, muitos católicos, outros não, duas missionárias e um padre da Verbum Dei e teve momentos fantásticos, como a celebração da eucaristia e havia imensos peregrinos que se juntavam. Aproveitar aquele dia da forma como o dia se lhe ofereceu é outra ideia que o caminho ajuda a formar… não é o que foi nem o que poderia ter sido, é o que se está a viver hoje, com quem sucedeu fazer o caminho”, conta.

Ao longo do caminho foi conhecendo outros peregrinos, outras experiências de vida, de religião e espiritualidade mas há uma que recorda com especial carinho.

“Conheci-o no albergue de Porriño, ainda no início do caminho, e o olhar dele fascinou-se. Conversámos e no dia a seguir caminhei com ele que levava a sua neta de 18 anos, já para o auxiliar e para a motivar para o caminho. Ele tinha 90 anos, caminhava há 15 anos, era agricultor e explicava todas as plantas e sementeiras, era fascinante.

Sabe qual era o nome deste peregrino? – Santiago”, recorda Nuno Valente, de olhar emocionado. 

Apesar de querer sempre continuar o caminho, Nuno não esconde que a chegada a Compostela é sempre um momento especial.

“A chegada nunca é igual, a capacidade que temos, a transformaçao interior que aconteceu… é uma  experiência que, quando sucede é a verdadeira peregrinação e deve aplicar-se a qualquer dia da nossa vida”, conclui.

Os caminhos de Santiiago vão ser o tema dos programas de rádio ECCLESIA, na Antena 1, nesta semana de 23 a 26 de julho, pelas 22h45, ficando depois disponíveis online.

Santiago de Compostela: O caminho de «um simples peregrino» – Emissão 23-07-2019

SN

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