Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Pode ser uma visão ainda difícil de entender, mas esta crise mundial pode aproximar-nos mais do que poderíamos imaginar. A realidade parece fragmentar-se diante de nós. Alteraram-se os ritmos. Aliás, quais ritmos? As escolas esforçam-se por chegar a uma nova “normalidade” na aprendizagem, mas não é a mesma coisa. Depois, quando saímos à rua sentimos um misto entre o alívio do ar fresco fora de casa e o receio de estarmos a respirar uma gotícula perdida que nos infecta. O que fazer? O que pensar? Haverá alguma luz que nos ajude a integrar esta fragmentação social? Talvez o próprio desastre.

No seu livro ”Um Paraíso Construído no Inferno” (A Paradise Built in Hell, Penguin Books, 2010), a escritora americana Rebecca Solnit mostra como a unidade da humanidade emerge diante dos desastres (naturais ou provocados) e das crises. Perante os cenários de divisão gerados em momentos de crise, como esta pandemia, as pessoas encontram nas dificuldades vividas por todos um motivo para se unirem e ajudar-se.

A ideia de Paraíso emerge da esperança de que um dia a situação irá resolver-se e, até lá, sentimos cada vez mais a necessidade de sermos irmãos uns dos outros e vivermos uma autêntica fraternidade universal. Seguramente que um dia iremos olhar para estes tempos e pensar como no sofrimento universal a humanidade viu nesse uma oportunidade de amadurecer. A partir das dificuldades que ninguém desejaria surgem as possibilidades de se abrir uma estrada para o futuro. Assim, como afirma Solnit, «os desastres provideciam uma janela extraordinária para o desejo social e a possibilidade».

Na manhã de 18 de Abril de 1906, um terramoto sem precedentes que durou um minuto foi o suficiente para destruir grande parte da cidade americana de São Francisco. A experiência daquele desastre natural foi expressa numa frase colocada num estabelecimento que dizia – «Um Toque da Natureza Torna Todo o Mundo Família».

O estabelecimento havia sido rebaptizado de Mizpah Café, em que a palavra Mizpah, de origem hebraica, significa uma ligação emocional entre aqueles que estão separados. Este é um tempo favorável a esta experiência. E pela capacidade de nos conectarmos online para nos ajudarmos, nem que seja com uma simples presença, faz deste tempo, um tempo de Mizpah Digital. Mas é, também, um tempo de redescoberta da nossa natureza.

A natureza humana mostra-se com maior clareza diante das adversidades, e no caso de crises globais pandémicas, reconhecemos a nossa capacidade para a resiliência, a imaginação, a generosidade, a empatia e a coragem. Basta pensar

  • na quantidade de dias a que tantos se sujeitaram para bem de todos (distanciamento social);
  • ou a criação rápida de equipamentos para suprir as necessidades de saúde mais imediatas (por exemplo, as máscaras costuradas e as viseiras impressas a 3D);
  • ou o apoio dos hotéis com quartos em que as pessoas possam estar em isolamento para proteger os seus;
  • ou naqueles que dão sangue – como os polícias – pela incapacidade das pessoas que usualmente o fazem se deslocarem às respectivas unidade de coleccção;
  • ou ainda pelo esforço e zelo de tantos médicos, enfermeiros, pessoal hospitalar, bombeiros, carteiros para cuidar dos mais frágeis ou trazer alguma normalidade à nossa vida.

Podemos ser tentados a pensar que a luta pela sobrevivência depende de se revela mais forte, mas até essa ideia que temos da evolução natural é desafiada. Peter Kropotkin no seu tratado de 1902 sobre a «Mútua Ajuda: Um Factor da Evolução», contradiz a perspectiva competitiva da evolução Darwiniana, observando que, mesmo na natureza,

«a comunicação transformou a ajuda mútua num termo de significância mundial.»

O mundo hoje pode comunicar durante o distanciamento social como nunca antes, e o espaço para o altruísmo que leva artistas a fazer concertos gratuitos online, entre outros exemplos, mostra como esta crise constrói o tecido social de um manto que cobre o mundo de compaixão (sofrer com) e generosidade. Quem não deseja fazer parte de um mizpah global que abra um horizonte de esperança?

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