Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

É preciso admitir que “Zoomar” está na moda. De facto, quando participava numa missa por Skype, pude observar como as pessoas tinham dificuldade em controlar-se e tiravam uma Snapshot (ou várias), ou entravam na chamada sem ter o cuidado de desligar o microfone, tornando-se estas e outras coisas, fontes de distracção que o Zoom elimina facilmente. Daí perceber a razão para Zoomar. Mas haverá um preço a pagar no futuro pela experiência que estamos a fazer?

Foto de Gabriel Benois em Unsplash

A tecnologia é uma extensão das nossas capacidades, mas essas não se restrigem ao que fazemos com as mãos. A capacidade para construir e desenvolver relacionamentos é intrínseca à natureza humana e se a tecnologia extender essa capacidade, deveríamos fazer a experiência de vivermos numa comunidade global, onde as pessoas cuidam umas das outras. Será isso que acontece na Era Zoom?

Com a insistência de que uma iniciativa só chega a muitas pessoas se usarmos as redes sociais e/ou transmissões on-line, parece-me estarmos a dar mais ênfase aos ”Gostos” e visualizações conseguidas, do que a construir um sentido autêntico de comunidade. Um sentido onde quem lê, escuta ou visualiza se sinta perto de quem escreveu, falou ou transmitiu.

Quando comecei a acompanhar o percurso feito por Fred Rogers (1952-2003), pouco reconhecido fora dos Estados Unidos, mas muito aclamado nesse país, e mais conhecido como Mr. Rogers, pensei estar diante de alguém que soube construir um sentido de comunidade que mudou a vida de muitas pessoas, sem com isso viciá-las em ”Gostos” ou no que é supérfluo (até porque tais coisas vieram depois do seu tempo). Por exemplo, o futuro da televisão pública americana estava em jogo e várias personagens do mundo da televisão foram ao senado americano para persuadir o seu financiamento. Em jogo estava convencer um senador em particular, John Pastore.

Ninguém conseguia convencer o Senador Pastore, até que Fred Rogers falou da sua experiência com as crianças e de como era importante o trabalho que fazia com elas através da televisão, procurando falar apenas para uma e dedicar-lhe toda a sua atenção. Dizia Rogers ao Senador Pastore — “No fim do programa termino com ‘Tu fizeste deste dia, um dia especial, por seres apenas tu. Não há ninguém no mundo como tu, e eu gosto de ti, assim como és.’ E sinto que se nós na televisão pública pudéssemos clarificar que os sentimentos são mencionáveis e podemos controlá-los, estaríamos a fazer um grande serviço à saúde mental.” — E quando pede ao Senador se pode partilhar o que canta às crianças quando está com elas, o Senador acede ao pedido, e ele declama, terminando — ”Eu posso parar quando quiser. Parar quando desejar. Posso parar, parar, parar em qualquer momento… E que bom sentimento é sentir assim! E saber que o sentimento é realmente meu. Saber que há algo profundo dentro de nós que nos ajuda a tornarmo-nos o que podemos ser.” — ao que o Senador Pastore, comovido, responde com — “Eu acho que é belo. Eu acho que é belo. Parece que ganharam 20 milhões de dólares.” O que podemos aprender com Rogers?

Os meios de comunicação são uma forma de nos ligarmos, mas possuem, também, consequências inesperadas. Uma dessas foi a conversão das partilhas que fazemos nas redes sociais, e grupos de WhatsApp, em momentos de validação pessoal. De tal modo que a finalidade de um grupo WhatsApp pode ser totalmente desvirtuada e passa a ser este canal de validação pessoal onde se partilha tudo e mais alguma coisa à espera de que alguém reaja ao que nós partilhámos. Por isso, avaliar o impacto de uma tecnologia na vida das pessoas deveria ser feito com alguma frequência.

Há quem argumente que a tecnologia tem uma vida própria e, realmente, quando vejo o modo como essa altera o nosso comportamento, faz algum sentido uma impressão como essa.

A análise mais frequente do impacto de uma tecnologia na nossa vida tem muito a ver com a simplicidade e profundidade de vida que temos. Isto é, se vivemos no essencial, ou se vivemos para que o temos e deixamos de ter. Penso que o caminho da aprendizagem — viver para aprender — é um caminho de profundidade.

A simplicidade tem muito a ver com o estilo de vida e a dimensão espiritual da nossa vida. Por alguma razão fala-se pouco desta dimensão nos circuitos de análise do impacto tecnológico na vida das pessoas. A nossa dimensão espiritual não se restringe à experiência religiosa. Essa é uma manifestação da dimensão espiritual, mas o que fazemos de criativo, também expressa a dimensão espiritual da vida humana.

A dimensão espiritual não é algo que seja fácil de expressar com palavras simples que todos possam entender por ser, essencialmente, algo experiencial e a diversidade de experiências é imensa. Com isto quero dizer que a dimensão espiritual está intrinsecamente ligada à unicidade da pessoa. E a unicidade, por definição, é incomparável. Daí a importância do sentido de comunidade e diminuir o peso da ideia de remeter a dimensão espiritual para algo do foro pessoal. É pessoal, sim, mas enquanto recusarmos que é, também, parte integrante da nossa vida, no sentido positivo de construir uma mente saudável, teremos uma visão ainda incompleta da análise do efeito da tecnologia na vida humana.

“Zoomar” é um modo de nos ligarmos e criarmos comunidade, mas penso valer a pena questionar até onde devemos “Zoomar.” Caso contrário, corremos o risco de não construir a comunidade, mas de a substituir por mais um écrã.

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