Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Não são os mais fortes que sobrevivem, como Darwin pensava, mas os mais aptos a comunicar. Como todo o ser humano é capaz de comunicar, só o egoísmo possui a força necessária para diminuir a capacidade de sobrevivermos. Mas há uma nuance. Comunicar é uma escolha que somente pessoas livres conseguem fazer.

Foto de Priscilla Du Preez em Unsplash

Nos alvores da humanidade, a caça era essencial para a sobrevivência da espécie humana. É uma opção económica que muitos pensam ser mais essencial do que a comunicação para sobreviver. Porém, para caçar, o vento transporta os odores dos animais e dos humanos, de tal modo que o caçador deveria colocar-se numa posição contra o vento, de modo a evitar que o animal o detectasse. Sem essa comunicação, não haveria economia que permite o ser humano sobreviver.

Se no passado, a sobrevivência da nossa espécie dependia da capacidade de comunicar, na Era da Informação que actualmente vivemos, mais evidente é a importância dessa capacidade. E não somente para a evolução cultural que ocorre em simultâneo com a evolução da natureza, mas, também, para a nossa vida espiritual.

O Papa Francisco publicou uma série de pensamentos num livro ”Diferentes e unidos — Com-único logo existo” (DU), onde começa por afirmar que «Deus não é Solidão, mas Comunhão; é Amor e, consequentemente, comunicação, porque o amor sempre comunica, comunica-se a si mesmo para encontrar o outro» (DU, p. 6). De facto, se Deus não se comunicasse, pouco haveria no mundo que fosse por Ele transformado. Também nós, só se nos comunicarmos é que experimentamos a força transformativa da metáfora da comunicação. Mas esta capacidade evolutiva está em risco e, com essa, também estará em risco a nossa sobrevivência?

Quantas famílias conseguem estar numa refeição, juntas, sem ter perto de si o telemóvel? (DU, p. 9) Segundo o Papa Franscisco, «comunicar é precisamente tomar do Ser de Deus e ter a mesma atitude; não poder ficar sozinho» (DU, p. 12), pelo que na comunicação está expressa a realidade cristã de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus.

Há uma grande confusão entre comunicar e conectar. Não são a mesma coisa. A conexão digital facultada pelas redes sociais, trocas de mensagens, superficializam a comunicação entre as pessoas. Quando nos comunicamos, damo-nos a nós mesmos. A mente, o coração e as mãos estão próximas (tanto quanto possível) do outro, e não tanto no ecrã através do qual nos conectamos com o outro. Porém, tudo isto pode ficar em causa quando não comunicamos sempre na verdade, quer por desconhecimento, quer propositadamente.

«Uma pessoa fala com aquilo que é e que faz. Todos nós estamos em comunicação, sempre. Todos nós vivemos comunicando e estamos continuamente em equilíbrio entre a verdade e a mentira» (DU, p. 69)

Nos últimos tempos, a desinformação tem alterado resultados políticos, gerado homicídios, e até genocídios como no Myanmar. A desinformação não é inofensiva e mostra a importância de procurar comunicar sempre na verdade para sobreviver.

Por outro lado, além da desinformação, assistimos à acumulação de dados que acabam por saturar o nosso horizonte de conhecimento e confundir mais do que esclarecer. Curioso como já Aldous Huxley, em 1932, no seu livro ”Admirável Mundo Novo”, alertava como as pessoas acabariam por adorar as tecnologias que desfazem a sua capacidade de pensar; vivem num mundo onde não há razões para banir os livros porque já ninguém os lê; e onde a verdade seria afogada num mar de irrelevância no interior de uma cultura que se torna, cada vez mais, trivial. Sim, Huxley escreveu sobre estes assuntos muito antes sequer da televisão.

O Papa Francisco alerta, também, que além da acumulação de dados, surge uma tendência para «substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza» (DU, pp. 75-76)

Lembro-me, também, da ”Máquina” na visão de E.M. Forster, quando escrevia em 1928 o que um filho dizia para a sua mãe que vivia somente para a Máquina — «a Máquina é muito, mas não é tudo. Eu vejo algo parecido contigo neste ecrã, mas não te vejo. Escuto algo parecido com a tua voz através deste telefone, mas não te oiço. É por isso que quero o teu regresso. Vem e fica comigo. Visita-me, para que possamos ver-nos face a face, e falar sobre as esperanças que estão na minha mente» (em The Machine Stops, Modern Classis, Penguin, p. 4). Forster e Huxley visionaram o que vivemos hoje. Um assombro.

O Papa diz ainda ser «paradoxal o facto de que, apesar de imersos num turbilhão de comunicação, através dos média, [as pessoas] possam sentir-se cidadãos do mundo, mas experimentam uma profunda insatisfação e solidão» (DU, pp. 77-78). De facto, nunca sobrevivemos se estivermos sozinhos, daí que a comunicação fortaleça os nossos relacionamentos, quando vivida na verdade. Pois, «a comunicação deve ser humana, e , ao dizer humana, quero dizer construtiva, isto é, deve fazer crescer o outro» (DU, p. 81).

Os algoritmos que nas redes sociais aprendem a captar, cada vez mais e melhor, a nossa atenção, deixaram de ser projecto humanos e começam a ganhar uma vida (artificial) própria. E podem tornar-se um risco à nossa sobrevivência quando nos usam sob o disfarce de nos fazerem sentir usuários. Mas o que vemos à nossa volta, depois de sabermos os efeitos que a infobesidade tem na nossa saúde social, é o desinteresse previsto por Huxley no século passado. E pensamos ser imunes a todas as críticas feitas ao excesso de conexão digital. Mais ainda, acredita-se que estes são meios servem para aprofundar a vida espiritual e realizar o anúncio do Evangelho. Não é bem assim.

O Papa Francisco é claro — «o anúncio exige relações humanas autênticas e directas para levar a um encontro pessoal com o Senhor. Por conseguinte, a internet não é suficiente, a tecnologia não basta (…) é indispensável estar presente, sempre com um estilo evangélico» (DU, p. 84).

No final de “Diferente e Unidos” encontra-se um texto inédito onde o Papa vai à raíz da sobrevivência dos comunicadores mais aptos — «os homens “comunicam-se” não apenas porque trocam informações, mas porque tentam construir uma “comunhão”. Portanto, as palavras devem ser como pontes colocadas para aproximar diferentes posições, criar um terreno comum, um lugar de encontro, comparação e crescimento» (DU, p. 127). Um espaço de sentido e significado onde saber aprender a sobreviver, comunicando-se reciprocamente, e cada vez melhor.

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