Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Esta semana o Papa Francisco convida-nos a celebrar o quinto aniversário da Carta Encíclica Laudato Si’, trazendo para o fluxo de informação actual centrado na pandemia, um argumento subtil que corremos o risco de esquecer, e não me refiro às alterações climáticas, mas à sustentabilidade dos relacionamentos.

Foto de Rian Adi em Unsplash

O distanciamento social é um desafio para todos, mas creio ser algo que temos experiência no que diz respeito ao relacionamento com a natureza. Quantas vezes nos lembramos da última vez em que fizemos uma experiência relacional concreta com a Natureza? Alguma vez o fizemos? É possível estabelecer um relacionamento sem haver proximidade? Que tipo de relacionamento é possível estabelecer onde a “conversa” não se faz com palavras entre as partes, mas gestos ou uma simples presença silenciosa?

A palavra sustentabilidade refere-se à capacidade de manter algo a um determinado nível. Na perspectiva ambiental refere-se a evitarmos esgotar os recursos naturais, de modo a não comprometer o equilíbrio ecológico dos ecossistemas terrestres. Estamos habituados a encarar os relacionamentos como um resultado ou um meio, mas eu creio que são, antes de mais, um recurso. Isto é, a matéria prima para uma vida plena. Por outro lado, recordo-me de um pensamento de Blaise Pascal que se adequa à importância que a sustentabilidade relacional tem para nós. Diz Pascal,

«Como pode a parte conhecer o todo? Mas aspiramos, talvez, a conhecer ao menos aquelas partes ao nosso nível. Mas as partes do mundo estão de tal forma conectadas e interligadas entre si que eu penso ser impossível conhecer uma sem conhecer as restantes.

Nós estamos (…) conectados a tudo o que conhecemos: precisamos de um lugar para nos circunscrever, tempo para dar duração à nossa vida, actividade de modo a viver, elementos que constituem o nosso corpo, calor e alimento para nos nutrir, ar para respirar.

O fogo não pode existir sem ar. Então, de modo a compreender um deles, precisamos de compreender o outro.» (B. Pascal, “Pensées”, n. 230)

A relacionalidade, isto é, o facto de tudo estar em relação com tudo, é algo que o Papa Francisco sublinha inúmeras vezes na Laudato Si’. E esta unidade única entre tudo o que existe é capturada ainda por Pascal quando diz que —

«(…) todos somos mantidos juntos por uma ligação natural e impecável que enlaça as coisas mais distantes e diferentes entre si. Mantenho não ser mais possível conhecer as partes sem o conhecimento do todo, como conhecer o todo sem o conhecimento das partes individualmente.» (B. Pascal, “Pensées”, n. 230)

Num mundo em que o distanciamento social é uma exigência humanitária, repensar a sustentabilidade significa descobrir o que lhe é essencial, como me parece ser os relacionamentos que estabelecemos com os outros e a natureza. Gostaria de apontar para um que procurar ligar a vida em casa com um relacionamento mais profundo com a natureza: jardinagem caseira.

Um estudo; recente da Universidade de Princeton descobriu que a jardinagem feita em casa (home gardening) é uma das principais razões para o bem-estar emocional das pessoas. Para além de terem elevados índices de felicidade, também são elevados os níveis de significado que dão à sua vida. Ou seja, a jardinagem em casa oferece-nos a oportunidade de crescer numa vida plena.

Agora que estamos confinados em casa, e pedem-nos, ainda, algum distanciamento social para proteger os mais vulneráveis, talvez uma forma simples, rica e cheia de significado de celebrar a Laudato Si’, seja começar um novo hábito de jardinagem em nossa casa.

Recomendo: Teresa Chambel, “Um Jardim dentro de Casa”, A Esfera dos Livros, 2015.

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