Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Os últimos momentos que estamos a viver vieram trazer algum desequilíbrio às nossas vidas. Ou, talvez essas assentassem os equilíbrios em aspectos demasiado transitórios, como tem sido o caso das novas tecnologias. Estes aspectos evidenciaram-se em algumas questões que me fizeram num webinar organizado pelo Movimento para um Lar Cristão (MLC), dedicado à Família, Educação e Conversão Ecológica”.

O tema que desenvolvi intitulado ”Despertar para uma nova comunhão entre nós e o ambiente” reflectia sobre a noção de Antropoceno que expressa o modo como nos tornámos uma força geológica da natureza, a comunhão como uma palavra transformativa, o movimento da atenção plena à consciência plena (noofulness) e alguns elementos da sua prática. Nomeadamente, a natureza relacional da solitude, dois dos vários hábitos universais transformativos (caminhar e notar em coisas novas), a influência que tem a percepção do tempo e, por fim, o futuro do communiocentrismo, uma noção que introduzi em 2008 na revista Brotéria. Mas, na prática, pelas palavras procurava novos pontos de vista para podermos despertar da dormência interior em que nos encontramos.

Essa dormência interior está muito relacionada com as novas tecnologias, incluindo os smartphones que colocam fluxos elevadíssimos de informação nas nossas mãos, e as redes sociais que muitos consideram como veículos primordiais de conectividade e parte integrante de uma Nova Evangelização. Porém, parece-me que esses modos novos de nos relacionarmos fragmentam e desequilibram mais do que pensamos.

O facto de nos vermos, e aos outros, com a atenção demasiado presa pelas novas tecnologias corre o risco de nos fechar sobre nós mesmos, em vez de nos abrirmos aos outros. Por outro lado, se nos abrirmos somente aos outros em detrimento da nossa vida interior, ou se nos preocuparmos exageradamente com o que passamos para fora sobre nós próprios através das novas tecnologias, isto é, uma imagem editada e aprimorada nas cores, geram-se desequilíbrios. A culpa não é nossa, mas do desconhecimento daquilo que se está a passar.

A intenção de qualquer tecnologia é a de ampliar as nossas capacidades. E a conectividade é uma capacidade importante no desenvolvimento humano. Por exemplo, as redes sociais surgiram e cresceram com a intenção original de ampliar essa conectividade. Porém, as grandes empresas deram-se conta que de poderiam fazer muito, mas muito dinheiro, com a simples captura da nossa atenção, vendendo essa atenção aos advertisers (anunciantes) que pagam a essas empresas pelos anúncios que se apresentam nos nossos murais. Essas empresas perceberam, ainda, que o modo de capturar a nossa atenção seria estimular a produção de dopamina no nosso cérebro, um neurotransmissor natural associado ao sentimento de realização. E fizeram isso com botões de resposta imediata (como os “gostos”, e os corações, palmas, etc.), gerando em nós uma gratificação instantânea, transformando-se num sistema de validação pessoal em relação à vida e pensamentos que partilhamos. O resultado inesperado foi o gradual isolamento das pessoas do mundo à sua volta. Ou seja, conectados à app e desconetados do mundo. Mas é no mundo que a narrativa da nossa vida se desenrola.

Um segundo desequilíbrio associa-se à velocidade cada vez maior da informação a que estamos sujeitos, e que alguns consideram como necessária na sociedade actual. Ora, essa aceleração gera um impacto sobre o relacionamento com os outros e, sobretudo, com o meio ambiente. No testemunho apresentado por Margarida Alvim, coordenadora do projecto ecológico Casa Velha, no webinar do MLC, dizia que «a transformação do mundo precisa dos passos pessoais.» Todo o ser humano possui dois grandes desejos associados a esses passos. O desejo de saber e o de viver. Os fluxos de informação que pretendemos acompanhar a toda a hora e momento, são o espelho de uma humanidade em Grande Aceleração desde os anos 1950, e parecem saciar a nossa sede de saber. Mas, estar informado não é o mesmo que compreender essa informação.

Por outro lado, as novas tecnologias criaram filtros-bolha da informação que nos chega. Isto é, quando as pessoas fazem do Facebook a sua fonte principal de informação, a captura da atenção depende do quanto nos identificamos com a informação a que estamos sujeitos. Logo, os algoritmos inteligentes foram educados pelos programadores a saciar a nossa sede com a “bebida” que gostamos, não o “remédio” que precisamos. Assim, em vez de o nosso pensamento e convicções serem desafiados, são antes confirmados e a informação não gera compreensão, mas validação de possíveis crenças sem fundamento, fazendo de cada um de nós veículo de desinformação. Estudos mostraram que os filtros-bolha levam a que a probabilidade das pessoas partilharem um notícia falsa seja 70% superior à partilha de uma notícia verdadeira, mas que sai da bolha das nossas convicções.

A informação que desconforta e nos impele a um caminho de compreensão do seu conteúdo, leva-nos a percorrer um caminho de sabedoria. O desequilíbrio gerado pela velocidade excessivo de consumo de informação representa um sério perigo ao desenvolvimento da sabedoria. Porém, os passos pessoais que podemos dar para transformar o mundo não passam pela rejeição das novas tecnologias, mas antes pela aceitação de que essas não definem a nossa realidade.

De cada vez que escrevo sobre as redes sociais, desaconselhando o seu uso pelos desequilíbrios que dão à nossa vida, fico sempre a pensar que as pessoas me ligam cada vez menos, ou que omito quais as alternativas. O que recomendo é difícil por implicar um desapego físico da dependência da dopamina que as redes sociais, e as novas tecnologias, produzem em nós. E creio que existe uma alternativa digital a essas que pode levar mais tempo a produzir efeito, mas que nos ajuda, pouco a pouco, a saber aprender a equilibrar a vida real com a digital: sites institucionais. Estranho, mas explico-me.

As instituições que se dedicam às questões da família como o Movimento para um Lar Cristão, ou a novos estilos de vida que ligam a espiritualidade ao contacto com a natureza como a Casa Velha, são fontes de referência para cada um de nós. Confiamos nas instituições credenciadas porque os seus ideais sobrevivem, em todas as circunstâncias, da verdade e das pessoas que a buscam. Daí que a Organização Mundial da Saúde, ou orgãos de comunicação, como a Agência Ecclesia, nos ajudem a distinguir o facto da ficção. Por isso, quando encontramos alguma informação nos seus sites institucionais, sabemos que nos dizem a verdade e confiamos.

Depois, a partilha daquilo que nos informam acontece via os relacionamentos com os outros. Lentos, pé ante pé, mas duradoiros. Pois, tudo o que é sábio e verdadeiro demora tempo a construir. Pensemos naqueles casais com mais idade e décadas de matrimónio que nos testemunham como podemos construir juntos uma vida feliz para sempre. Quantas lágrimas, risos, dores e sucessos. Tudo o que vale a pena na vida que nos é dada, leva tempo a chegar ao equilíbrio, mas constrói um amanhã mais sustentável da nossa espiritualidade.


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