Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Até chegarmos ao início de outubro, os cristãos são convidados a celebrar um Tempo da Criação, mas talvez seja o momento de dar espaço ao Tempo da Criação. Pensamos saber como a criação “deve ser,” mas a realidade é bem diferente. A Criação precisa de gozar de alguma paz sem muitas ideias dos humanos. Aliás, contra muitas das teorias ecológicas, foi isso que aconteceu em Oostvaardersplassen, na Holanda. O ser humano deixou que a natureza se expressasse e os ecossistemas floresceram.

Ecologia

Foto de Hendrik Cornelissen em Unsplash

Frans Vera é um ecologista que tem questionado há alguns anos a noção que temos de um espaço selvagem. Usualmente, consideramos como áreas selvagens aquelas onde os humanos nunca estiveram presentes. Mas, como diz Vera, as áreas onde o ser humano deixou de estar presente acabam por tornar-se, também, selvagens. Porém, a base cultural das teorias predominantes que procuram preservar os ecossistemas terrestres afirmam, como Heinz Ellenberg em 1988 no seu livro ”Vegetation Ecology of Central Europe” que: «a Europa Central seria uma paisagem monótona de árvores, se o ser humano não tivesse criado o mosaico colorido de campos, charnecas, campos de feno e pastagens.» Subjacente a esta visão dos campos agrícolas e jardins como paisagens naturais está uma noção antropocêntrica de que nós é que sabemos o que é bom para a biodiversidade. Será?

A diversidade da vida presente nos ecossistemas terrestres depende de uma rede complexa de recursos naturais e relacionamentos entre as espécies. De certo modo, quanto mais uma espécie vive num ambiente natural, mais se acomoda a esse ambiente, e mais esse ambiente se acomoda a essa espécie. E desta reciprocidade que dinamiza os ecossistemas nasce a sua produtividade e resiliência.

No seu livro Feral, George Monbiot salienta que o desejo de beleza que as pessoas sentem ao pensar nos ambientes naturais provém da ideia de que lhes falta alguma coisa que encontram nesses ambientes: uma maior e plena conexão com a natureza. A vida urbana acaba por nos dar uma sensação de vivermos em desertos artificiais (urbanos) quando comparados com o passado selvagem. Mas quando penso em passear por ambientes selvagens, sei que muitas pessoas ficam impressionadas com os “bichos”, fugindo deles e a experiência de sonho, na realidade, revela ser uma ilusão. Como viver a autenticidade de um Tempo da Criação se muitos têm “medo” dos bichos que lá irão encontrar?

Rezamos e agradecemos a Criação de Deus, mas pisamos o pobre do insecto, ou aspiramos a aranha que não fez mal a ninguém, à primeira oportunidade que temos.

Quando estava no 5ºano de escolaridade, na sala onde tinha naquela hora uma aula de português, alguém reparou numa barata a passear por entre as cadeira. Toda a turma entra em alvoroço com berros, risos, e comentários em voz alta. Eu fui o único que subi para cima da cadeira. Que vergonha… Há quem tenha mais medo de insectos do que ser vítima de um crime violento. De onde vem este medo por seres tão pequenos e que fazem parte da criação de Deus? Talvez porque alguns sejam realmente periogosos e muito feios.

A picada de alguns insectos pode gerar infecções graves e a maior parte dos insectos gera alguma repugnância. O facto de entrarem nas nossas casas sem autorização leva-nos a sentir “invadidos”, acabando por transportar esse sentimento quando estamos fora de casa em ambiente natural. Daí que a maior parte das pessoas prefira os jardins, bem cuidados, com flores, árvores, lagos e mínimo número de insectos e outros animais que receamos. Mas será o cuidado e valorização desses espaços um modo de darmos Tempo à Criação?

Na prática, o pensamento ecológico da nossa cultura está ainda muito influeciado pela ideia que nós tempos de ambiente natural, não da ideia que o ambiente realmente natural nos oferece. Muitos argumentam que Deus pede-nos para cuidar da criação, logo, tudo o que fazemos por garantir a harmonia nos espaços — ditos — naturais, é somente a realização da vocação a que fomos chamados. Mas, e se a Natureza tiver uma ideia diferente da nossa?

Isabella Tree que escreveu o interessante livro ”Wilding – the return of nature to a British farm” convida-nos a algo ousado:

«abre a caixa, e deixa que os processos naturais se desenvolvam, dando às espécies uma visão mais alargada para que se expressem a si mesmas, e terás uma imagem muito diferente. (…) Mínima intervenção. Deixar que a natureza se revele. E o resultado será um ambiente que desconhecemos.»

Se nada fizermos para deixarmos que a Natureza seja por si mesma, daremos mais e melhor espaço ao Tempo da Criação. Um tempo onde as transformações não têm o mesmo ritmo humano, exigem maior paciência, mais contemplação para reconhecer a beleza em cada detalhe. Saber aprender a encontrar dentro de nós o espaço para dar tempo à criação ajuda-nos a desacelerar e a equilibrar os ritmos culturais com os naturais.

Quando vires um jardim que te parece descuidado, inverte o teu olhar. O desleixo casual revela-se como a sabedoria que precisamos neste momento para conhecer melhor a verdadeira e livre criação de Deus que, no fundo, desconhecemos quando lhe damos espaço.

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