Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Se andares a correr atrás do tempo, a culpa não é tua. A culpa é dos ponteiros nos relógios mais antigos, ou dos dígitos nos mais modernos. Basta retirar os ponteiros ou apagar os dígitos e voltas a orientar-te pelo tempo. Diz Marshal McLuhan que — «da nossa divisão do tempo em unidades uniformes e visualizáveis derivou o nosso sentido da duração e a nossa impaciência quando nos custa suportar o intervalo entre dois eventos. (…) Tal como o trabalho teve início com a divisão do trabalho, também a duração começa com a divisão do tempo.» E o resultado é uma vida fragmentada pelo tempo e a perda do sentido de orientação na vida.

Foto de Nathan Anderson em Unsplash

Anualmente celebramos no dia 1 de maio, o Dia do Trabalhador. Um feriado que sempre tive alguma dificuldade em compreender. Não por que o trabalhador não merece ser celebrado, mas qual a motivação? Tudo começou em 1886 com uma greve na cidade norte-americana de Chicago, na luta pela redução das horas de trabalho para as oito horas que temos hoje. É uma luta pelos direitos dos trabalhadores. Nesse dia, celebramos, também, o santo padroeiro dos trabalhadores, S. José, operário. Por isso, comecei por questionar que relação S. José tinha com o trabalho, e que ensinamentos nos pode inspirar, hoje, para o modo como usamos o nosso tempo.

Em S. José percebemos como o trabalho dignifica o ser humano. O trabalho não é somente o modo de sustentarmos a nossa família, mas torna-nos co-criadores com Deus. Assim, quando usamos do nosso tempo para criar alguma coisa, fruto do trabalho das nossas mãos, se o que criámos serve para o bem das pessoas e do ambiente que nos circunda, consideramos como algo digno e dignificante. Quando trabalhamos e nos concentramos naquilo que devemos fazer, essa é a nossa resposta ao convite de fazer bem aquilo que temos para fazer no momento presente. Este é o meu conceito de produtividade. Mas a um nível mais profundo, fazemos a Vontade de Deus no momento presente, como S. José o fazia. Por que razão deixamos que o tempo cronológico domine a vivência do trabalho como meio que nos dignifica humanamente, quebrando esse propósito?

A relação entre o trabalho e o tempo é intrínseca. No trabalho cumprimos horários, prazos, de modo a estarmos sincronizados naquilo que fazemos e a dar espaço a outros domínios importantes da nossa vida como a família e os amigos. Daí o sentido de haver uma hora de saída do trabalho. Mas, no mundo que antes era virtual, e agora remoto, quantas pessoas não trazem o trabalho para dentro de casa. E depois da pandemia, a casa converteu-se no espaço de trabalho de muitos, deixando de haver horários fixos. Tudo é adaptável com o trabalho remoto. O risco de desorientarmos a nossa vida com este desafio é enorme. E o trabalho pode deixar de ser um meio que nos dignifica. Precisamos de uma bússola de valores.

Quem vive somente para o trabalho, sacrifica tudo e todos para realizar as tarefas que lhe competem. Talvez pense mais na bolsa de valores (monetários), do que procura orientar-se por uma bússola de valores que lhe dará as razões que geram resultados, sem compromenter uma vida profunda. Por outro lado, quem não sabe bem o que fazer com o seu tempo, e vive ao sabor do trabalho que consegue no momento, sem se importar com a história que constrói com aquilo que faz, vive à deriva pelas circunstâncias. Esse pensa mais em evitar que a sua bolsa fique vazia, mesmo que isso implique sacrificar os sonhos com as necessidades do momento. É uma situação difícil na qual uma bússola de valores dá a motivação intrínseca que nos impele a desenvolver as capacidades necessárias a uma vida profissional realizada, ainda que isso nos leve a estar, por vezes, numa zona de desconforto.

O relógio não domina o nosso tempo se o usarmos para acertar os nossos ritmos com os ritmos dos outros, em vez marcarmos os nossos ritmos (e os dos outros) com a divisão temporal. É como a diferença entre ver um grupo de dança jazz a realizar os mesmos passos, e uma parada militar. No primeiro experimentamos a harmonia entre o tempo que passa e o tempo certo, e no segundo experimentamos o automatismo que faz de nós máquinas nas mãos do tempo. A grande dificuldade em termos na mão uma bússola dos valores está no menosprezo que damos ao tempo para pensar no que tem real valor na nossa vida.

Quem vive atrás dos eventos, de Zoom em Zoom, de reunião em reunião, de tarefa em tarefa e não pára, corre o risco de parar de vez. Em 2011, António Horta-Osório assumiu a presidência do Lloyds Bank e acabou por viver um difícil período de burnout. Já recuperou, e no seu testemunho partilha a importância que devemos dar ao momentos de descanso, de paragem para regenerar os turbilhões que os nossos trabalhos pode suscitar dentro de nós. O ócio, diz o P. Vasco Pinto de Magalhães s.j., é «ter tempo para escutar, ter tempo para pensar, ter tempo para ler, ter tempo para descansar.» Ou seja, ter tempo para os valores e deixar que esses nos ajudem a viver o tempo certo para viver cada coisa.

Há quem pense que não tem tempo para parar e afirma ser um luxo de quem não faz a mínima ideia do que é o seu trabalho. Mas como diz Henry David Thoreau em “Walden”, «fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.»

Vivemos com pressa demais quando deixamos de usar a bússola dos valores. E em vez de unirmos os momentos que fazem da nossa vida, uma vida plena, usamos o tempo para dividir sem conquistar. Pois, como diz ainda Thoreau, «o tempo é apenas o rio em que vou pescando. Bebo nele, mas ao beber vejo-lhe o leito de areia e percebo quão raso é. A fina corrente logo se esvai, mas a eternidade permanece.»


Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao

Partilhar:
Share