Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Muitos começam de novo a sentir os efeitos da necessidade de maior confinamento para mitigar os efeitos da pandemia. Mas, sabemos, que as partículas que podem contagiar-nos, facilmente se dispersam nos ambientes naturais, daí que esses sejam mais seguros para podermos estar juntos. Estamos todos cientes de que o Inverno implica chuva e frio, mas temos a experiência de que existem dias com céu limpo que permitem passear com a nossa família por ambientes naturais. Enquanto as pessoas de risco não arriscam a tomar parte da comunhão sacramental da Eucaristia, o que é compreensível, creio podermos ser criativos, e ampliar a experiência de comunhão através do modo físico e concreto com que estamos presentes na Natureza usando os vários sentidos do corpo e a mente.

Foto de Rusty Watson em Unsplash

Pensar que a presença e experiência de Deus se reduz aos edifícios, como as Igrejas ou capelas, ou até às celebrações, seria uma visão muito redutora da experiência pessoal de comunhão com Deus. Se a experiência da comunhão sacramental é física porque comemos a hóstia consagrada, também podemos fazer uma comunhão corporal com a natureza, com um sentido diferente do sacramental, mas tão profundo quanto esse. Talvez o maior entrave a experimentar uma comunhão com a natureza esteja no significado restrito que damos a essa palavra. Comunhão significa mútua íntima imanência. É uma experiência de doação recíproca, de intimidade entre nós, e com o que está para além de nós.

A experiência mais comum de comunhão com a natureza acontece através do olhar contemplativo. Um pôr-do-sol facilmente nos eleva e impele a entrar num diálogo silencioso com Deus. Mas as experiências de comunhão com a natureza não se reduzem à visão.

Quando era mais novo e voltava da escola, havia na sebe de uma moradia umas flores cujo néctar era de um doce irresistível.

Numa outra vez, estava com o grupo de escuteiros acampados na Suíça, e ao chover, notei como uma límpida camada de água escorria pela casca incrivelmente lisa de uma árvore. Lembro-me de ter encostado a mão à árvore para criar um fio de água que podia beber. O sabor era tão parecido com o da conhecida água do Luso…

Por fim, a casa de campo dos meus sogros tem à beira de uma parte do terreno uma figueira. Qualquer um pode ir, tirar um figo, e comer. A figueira é um dom para nós como pode ser para os outros. Estas três simples experiências parecem banais, mas longe disso. Não comemos e bebemos o corpo e sangue de Cristo no pão e vinho transubstanciados?

O poeta americano Ralph Waldo Emerson dizia que «o céu é o pão nosso de cada dia para os olhos», frase que nos pode inspirar a fazer de toda a interacção com o mundo natural um alimento para uma comunhão espiritual que nos aproxime mais de Deus. A comunhão com a natureza faz-se através dos sentidos, pelo que, além do olhar contemplativo, temos a audição, o odor, o tacto e, também, o gosto contemplativo (como experimentamos através dos figos).

Se permearmos os nossos sentidos no contacto com a natureza de uma tonalidade espiritual, qualquer acto contemplativo torna-se um momento de comunhão com o mundo natural que faz memória. De certo modo, não é uma repetição, mas uma actualização no presente daquilo que já experimentámos no passado, uma verdadeira anamnese em sentido eucarístico. É como se víssemos cada pôr-do-sol pela primeira vez, renovando o nosso interior, enquanto aprofundamos o relacionamento com a natureza.

Há quem pense que a sagrada comunhão se realiza mais como um acto de envolvimento individual, do que comunitário. Ou há ainda quem seja tentado a pensar que fazer dos sentidos actos contemplativos é puxar demais para uma espiritualidade desenraizada das tradições religiosas, conferindo ao indivíduo uma experiência mais intensa, até da presença de Deus, do que se a vivesse em comunidade. Mas não há acto contemplativo que não seja relacional na sua essência. E os relacionamentos envolvem, também, o acto de dar-se totalmente, mesmo como alimento. Pois, a ligação mais profunda que temos com a natureza é por via do alimento, sem o qual não conseguiríamos sobreviver.

Daí que me pareça particularmente interessante a reflexão do filósofo ambientalista Wendell Berry ao considerar que uma comunhão de teor sacramental com a natureza reside mais no colectivo, do que no indivíduo, o que não sugere que

«(…) possamos viver inofensivamente, ou estritamente à nossa custa; nós dependemos das outras criaturas e sobrevivemos com a sua morte. Para viver, temos de quebrar, diariamente, o corpo, e derramar o sangue da Criação. Quando o fazemos com conhecimento de causa, amando, com destreza, reverência, é um sacramento. Quando o fazemos com ignorância, avidamente, desastradamente, destrutivamente, é uma profanação. E em tal profanação, condenamo-nos a nós mesmos à solidão espiritual e moral, e os outros à carência.»

São palavras fortes que redimensionam a nossa gratidão diante de tudo o que recebemos da natureza. Mas há ainda a uma outra forma de comunhão revitalizante que pode continuar a ampliar o sentido e significado desta palavra na nossa vida. Refiro-me à comunhão que podemos fazer com aqueles que já partiram para o Pai, ou que continuarão o percurso humano pela história, depois de partirmos nós, através da leitura e da escrita. Os primeiros, lemos; os segundos, ler-nos-ão.

Quando nos encontramos em espaços naturais, e levamos um livro connosco para fazer alguma forma de meditação, essa corresponde a uma leitura em profundidade. E envolve-nos mais fisicamente do que pensamos. Henry David Thoreau em ”Walden – ou a vida nos bosques” diz que

«Ler bem, isto é, ler livros verdadeiros com espírito verdadeiro, é um nobre exercício que põe à prova o leitor mais do que qualquer outro exercício tido em alta conta nos hábitos contemporâneos. Exige um treino semelhante àquele a que se submetem os atletas, a firme perseverança de quase toda a vida nesse objectivo. Os livros devem ser lidos com o mesmo cuidado e circunspecção com que foram escritos.»

O que escrevemos pode ser expressão do cuidado pela mensagem que queremos deixar às futuras gerações. Escrever para proporcionar uma leitura em profundidade é algo incompatível com a linguagem dos comentários, mensagens e tweets repletos de superficialidade.

Ler é uma comunhão que vai para além do nosso espaço e tempo. É o alimento da mente proveniente da relacionalidade entre leitor e escritor, que pode dar mais sentido ao alimento do corpo. Pois, um dia, também nós partiremos para o Pai e daremos o nosso corpo em alimento para a natureza. Parece fazer parte da lei da vida: saber aprender a ampliar o comungar, e a dar-se em comunhão.

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