A nossa contemporaneidade assistiu recorrentemente aos anúncios do “fim”. Nesse teatro das hermenêuticas, o belo encontra-se entre essas tragédias crepusculares. Abundam, pois, os tenores do fim do belo e os anúncios da beleza impossível. Propõe-se neste fascículo da revista «Communio» um conjunto de itinerários que procuram situar a mundividência cristã perante as hodiernas indagações e experimentações do belo. Nos itinerários da sociogénese humana, a arte apresenta-se, tal como a técnica ou a magia, como modo de agir sobre o mundo (R. Piñero Moral). A expressão artística acrescenta a esse poder as linguagens da interioridade humana. Assim se entende, talvez, a sua proximidade das experiências do sagrado. Se o cristianismo resistiu à clausura de uma forma histórica ou naturalizada de sagrado, também teria de se distanciar de uma relação imediata entre a beleza e o divino. Na memória bíblica, Deus é impronunciável e a sua beleza somente pode ser entrevista: “as teofanias são acontecimentos desarmantes, porque Deus foge do declarado e do nítido e apresenta-se no impercetível, naquilo que é apenas sussurrado” (J. Tolentino Mendonça). Nesse sentido, os percursos do espiritual na arte contemporânea – como que uma fenda no mundo (P. Vale) – podem ler-se como abertura ao questionamento teofânico, mesmo se resistem à redução do Deus nitidamente figurado. A experiência cristã da arte encontra na liturgia um testemunho privilegiado. Não apenas porque ela se tornou, historicamente, mobilizadora de inúmeros recursos criativos, mas porque na lógica do mistério cristão da Encarnação ela se oferece como abertura ao “Deus que vem”, que a liturgia bizantina celebra na beleza do rosto de Cristo (S. Parenti). A experiência litúrgica continua a oferecer-se aos cristãos como lugar de comunicação estética, não redutível a uma ordem normativa, nem aprisionável nos labirintos do sujeito, aberto sim à comunhão eclesial: “Comunicamos porque estamos já em relação e não para nos colocarmos em relação. Quando nos reunimos atualizamos uma comunicação que pré-existe ao próprio encontro” (J. A. Mourão). Um dos clássicos da teoria social, Max Weber, reconheceu a existência de uma profunda afinidade entre a esfera estética e a religião, reunião que produziu grande parte das criações artísticas da humanidade. Mas na medida em que o domínio estético se foi emancipando, desenvolveram-se tensões que Weber viu cristalizadas na distinção “conteúdo/forma”. Na sua óptica, se as religiões de tipo soteriológico vivem na demanda dos sentidos da realidade para responder aos problemas da humanidade, a arte ter-se-ia emancipado por via do exercício da forma. Mais, a expressão estética pôde tornar-se concorrente da religião, na medida em que, no trânsito das consequências da modernidade, se apresentou como refúgio intelectual para os desiludidos do excesso racionalista. O esteticismo, para Weber, verte-se, assim, numa “redenção intramundana” que chega aos universos da ética, terreno privilegiado das religiões da redenção: o esteticismo substituiria, pois, os juízos éticos por juízos de gosto. No entanto, a questão estética conheceu novas articulações com a ética no contexto da explosão das diferenças que caracteriza as múltiplas modernidades. O grito estético vem, com frequência, do verso do mundo, reivindicando a dignidade da voz e o olhar emancipado. O movimento americano Black is Beautiful, afirmando a cidadania da cultura afro-americana, face à hegemonia do modelo cultural branco, pode ser um lugar particular de observação da contemporânea reivindicação sociopolítica a partir de uma linguagem estética (Maria Luísa Falcão). Historicamente, as teologias cristãs articularam-se com a metafísica clássica, explorando os domínios da relação intrínseca entre o belo, o bom e o verdadeiro. “Frente a uma metafísica abstracta que dissolve a realidade num ‘mundo’ suprassensível ou em conceitos lógico-subjectivos, a trajectória pós-metafísica da estética contemporânea alerta para a vinculação sensível do conhecimento e da nossa compreensão do sentido, permanecendo por isso impreterivelmente ligada à particularidade de entes e de acontecimentos, sem o que se distanciaria nihilisticamente da própria realidade.” (J. Duque). Mesmo se a contingência pode ser o lugar de interpelação do absoluto e incondicional, a fragmentação cultural própria da modernidade radicalizada fragilizou as grandes narrativas legitimadoras dos cânones estéticos, exigindo outras gramáticas para a apreensão das novas poéticas do mundo. Essa transformação envolve o próprio “objecto” de arte e sua circulação. É difícil, hoje, compreender o campo das produções estéticas sem dar atenção às lógicas de mercado que determinam o seu valor – mesmo se o ato criador transporta em si uma transcendência que não cabe nas leis do cálculo (Clara Menéres). O dossier temático constituído termina com um depoimento sobre a bibliofilia – a arte “inexplicável” dos livros (Pedro Azevedo). Na secção «Perspectivas», inicia-se a apresentação de um ensaio antropológico sobre a sexualidade humana (F. Micael Pereira) e abre-se um itinerário de leitura sobre a teologia de S. Paulo (Th. Söding), desígnio que acompanhará a «Communio» durante o ano paulino. Em síntese, eis os textos e autores desta edição: “Eu sou o belo Pastor” (José Tolentino Mendonça); Sobre o belo e o sagrado. Arquitectónica da arte cristã (Ricardo Piñero Moral); A estética na era pós-metafísica (João Duque); A beleza do rosto de Cristo na liturgia bizantina (Stefano Parenti); Para uma estética de comunicação litúrgica (José Augusto Mourão); Arte e mercadoria (Clara Menéres); Uma fenda no mundo. Do espiritual na arte contemporânea (Paulo Vale); Black is beautiful (M. Luísa Falcão); A bibliofilia. Notas ao inexplicável (Pedro F. de Azevedo). M. Luísa Falcão, Alfredo Teixeira, M. Luísa Ribeiro Ferreira/rm, «Communio», n.º 3 (2008)

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