Voluntário português que enfrenta lei italiana por auxílio à imigração ilegal, critica «duplo discurso» do Ocidente que vende armas e fecha fronteiras a quem foge da guerra

Agência Ecclesia/MC

Lisboa, 09 jul 2019 (Ecclesia) – A crise humanitária dos refugiados é para Miguel Duarte, voluntário português do navio de resgate «Iuventa» acusado pela lei italiana de auxílio à imigração ilegal, a crise da atual geração e que anos mais tarde “terá de prestar contas”.

“Um dia mais tarde vamos ter de explicar aos nossos netos como é que deixamos morrer dezenas de milhares de pessoas ao longo de cinco, seis, ou sete anos e eu sei de que lado é que quero estar”, afirma à Agência ECCLESIA Miguel Duarte, atualmente com 26 anos.

Foi por assistir a esta “crise humanitária” e se considerar um privilegiado que não conseguiu ficar sossegado e, em 2015, procurou organizações que aceitassem voluntários para auxiliar os milhares de pessoas que arriscavam a sorte para, em barcos, atravessar o mar Mediterrâneo para procurar asilo e uma vida melhor para si e para os seus filhos.

Miguel Duarte participou em quatro missões, cerca de três semanas cada, ao longo de um ano e conta que ele e a tripulação do «Iuventa» salvaram 14 mil pessoas durante esse período.

“Vejo esse número mais com indignação do que esperança, na verdade. Se uma equipa de 15 voluntários, de cada vez, consegue resgatar 14 mil pessoas ao longo de um ano, alguma coisa está fundamentalmente errada no que está a ser feito para que estas pessoas não percam a vida”, sublinha.

Apesar das vidas salvas, o voluntário português pensa mais nas que não conseguiu resgatar.

“Inevitavelmente há sempre um sentimento de responsabilidade, ficamos sempre a pensar que podíamos ter sido mais rápidos, podíamos ter feito mais”, lamenta.

Os 84 dias no mar Mediterrâneo, não hesita, foram os “mais úteis” da sua vida.

“Não há nada propriamente que nos prepare para o que vamos ver ali, para a emoção, para o sofrimento humano e para as situações que encontramos de facto quando nos encontramos frente a frente com essas pessoas. Uma coisa é ver os vídeos e ler as notícias, outra é estar ali, e ser propriamente a ponte que liga estas pessoas à vida. Nós fomos a única barreira entre eles e a morte, isso é uma responsabilidade enorme e penso que me mudou a vida pelo sentimento de utilidade que tive”, garante.

Miguel fala numa “obrigação moral” da União Europeia na ajuda aos refugiados que chegam à procura de condições de vida.

“Antes de falar de ajudas para o desenvolvimento temos que conversar sobre a venda de armas em situações de conflito. Não podemos estar a lucrar com a venda de armas em países. Estas pessoas estão a fugir das bombas que são criadas em solo europeu e nos Estados Unidos da América, não podemos fechar-lhes as portas quando estão a fugir de armas produzidas por nós”, esclarece o jovem português.

O trabalho de resgate, esclarece, foi feito em “coordenação com as autoridades italianas”: “A esmagadora maioria dos casos que atendemos, as pessoas eram passadas para bordo de navios italianos, que os levavam depois a terra italiana; não éramos nós que tínhamos essa decisão, a decisão era das autoridades italianas que tinha a responsabilidade de coordenar o resgate marítimo”.

A enfrentar a lei italiana, por auxílio à imigração ilegal, Miguel Duarte é perentório: o foco não é ele nem a ação judicial que o tirou do anonimato e fez protagonista de uma campanha de crowfunding «Salvar Vidas não é crime».

“Nós que enfrentamos uma possibilidade de 20 anos na prisão por ajuda humanitária ainda conseguimos ser os privilegiados no meio desta situação, porque há pessoas que todos os dias arriscam a vida simplesmente à procura de segurança e é nessas pessoas e situação que temos de nos focar. E é com isso que temos de nos indignar mais”, indica.

Tendo recolhido entre a sociedade civil portuguesa e algumas instituições um massivo apoio, “consensual” até sobre o problema, Miguel Duarte sublinha haver um dever de informação e indignação que não deve cessar na opinião pública.

“É (preciso) continuar a indignar-se. Informar-se criticamente sobre esta situação, sobre as migrações e não só, e é preciso fazer pressão sobre as entidades que têm poder para fazer alguma coisa em relação a isto. É preciso garantir que os nossos representantes sabem que estamos atentos e que a forma como a UE está a tratar os migrantes e refugiados não é aceitável, e nós não aceitamos isso num estado democrático”, sublinha.

Sem querer porta-voz, “nós queríamos resgatar pessoas, não fazer comunicação”, esclarece, Miguel Duarte voltava amanhã para o mar Mediterrâneo.

“Acho que vivi o melhor e o pior da vida no mar Mediterrâneo. Tive muito em contacto com o desespero das pessoas, mas também com a esperança e entreajuda; vi atos de heroísmo que não pensei que fossem possíveis. Vi pessoas a por em risco a sua própria vida para salvar outras e isso já ninguém me tira”, recorda.

LS

«Não se esquece as pessoas anónimas a quem chegámos tarde»

 

Partilhar:
Share