António Sílvio Couto, Diocese de Setúbal

O ano passado fomos apanhados a meio da Quaresma naquilo que é designado como o primeiro confinamento, que durou de 15 de março (3.º domingo da quaresma) até 31 de maio (domingo do Pentecostes)…
Há quase um ano atrás a surpresa causou medo…o medo gerou suspeita… a suspeita provocou dúvida…a dúvida fez mudar os comportamentos…essa mudança trouxe novas formas de estar em sociedade… essas formas, maioritariamente, foram fechando as pessoas, que se vem tornando mais egoístas, desconfiadas e mesmo interesseiras… umas para com as outras e até para com Deus.
Para encontrarmos pistas de reflexão sobre tudo isto, que nos tem estado a acontecer desde os finais de março do ano passado, vamos cingir-nos a aspetos, desta vez, mais de ordem da dimensão espiritual, não esquecendo as suas manifestações no âmbito cristão/católico… onde se podem incluir algumas iniciativas programadas para este longo tempo de suspensão das celebrações religiosas reformuladas, bem como as necessárias implicações deste longo ‘deserto’ a que fomos confinados por obrigação sanitária e sentido cívico.

a) Linguagem, postura e comunicação
Não podemos usar uma linguagem demasiado do liturguês, porque os não-iniciados não compreendem nem tão básica sem isso possa parecer que os mistérios se reduzem a expressões banais; a postura se é de ver o rosto e as suas expressões, o uso da máscara, para além de ser desnecessário, tal a distância das pessoas umas em relação às outras, inviabiliza qualquer expressividade por muito simples que esta se possa verificar; comunicação é bem diferente de falar para ouvintes e para telespectadores ou internet-ouvintes, estes estão perto embora longe, mas querem ter uma mensagem que possa ser pessoal, próxima e adequada às suas circunstâncias… ou, então, desligam ou procuram quem lhe fale de forma mais do que vazia!
Pôr no ar missas como se estivesse presente uma assembleia presencial não é o mesmo que estar a celebrar para uns poucos – mesmo que representativos – de serviço. Aquelas missas não são ‘teatro’, mas também não podem ser feitas sem cuidado nem menos boa imagem. Mostrar o que se faz é, claramente, diferente de fazer o que se quer mostrar. Há códigos de comunicação e de duração para cada um dos momentos, não se pode, por isso, fazer-de-conta que tudo é igual e com a idêntica valorização. Vamos aprendendo com os erros?

b) Depois do ‘on-line’ que prática presencial?
Há quem considere que o ‘abuso’ de missas na internet, na televisão e nas redes sociais veio enfraquecer a participação presencial – tendo em conta os meses que decorreram desde junho até janeiro – e pode ter criado acomodação a bastantes dos praticantes, agora ‘fidelizados’ à estação televisiva, de rádio ou de linha internet e menos atentos ao incómodo de sair de casa para participar com outros na celebração da fé… Poderemos considerar que certos hábitos de acomodação – já para não falar de negligência ou de omissão – podem trazer consequências graves a curto e a médio prazo: as crianças, os adolescentes e mais velhos deixaram de estar nas nossas assembleias, quando as há; o tempo de ‘catequese’ (nem sequer via internet) não conseguiu criar condições estáveis de fé; alguns ‘ritos’ deixaram a manifesto que eram mais sociais do que cristãos…
Mesmo assim deveríamos mergulhar mais nas causas do que nas possíveis consequências, pois aquelas podem trazer à luz do dia uma nítida falta de evangelização, mesmo que se possa verificar alguma sacramentalização…algo superficial senão mesmo anódina, descomprometida e vazia.

c) Que esperar da quaresma deste ano?
«Neste tempo de Quaresma, acolher e viver a Verdade manifestada em Cristo significa, antes de mais, deixar-nos alcançar pela Palavra de Deus, que nos é transmitida de geração em geração pela Igreja. Esta Verdade não é uma construção do intelecto, reservada a poucas mentes seletas, superiores ou ilustres, mas é uma mensagem que recebemos e podemos compreender graças à inteligência do coração, aberto à grandeza de Deus, que nos ama ainda antes de nós próprios tomarmos consciência disso. Esta Verdade é o próprio Cristo, que, assumindo completamente a nossa humanidade, Se fez Caminho – exigente, mas aberto a todos – que conduz à plenitude da Vida» – mensagem do Papa para Quaresma deste ano.
Cuidemos, por isso, de ter tempo de oração pessoal, familiar e, quanto possível, comunitário. Escutemos a Palavra de Deus diariamente. Usemos os meios que a Igreja nos propõe – jejum, caridade (renúncia quaresmal) e reconciliação. Estamos confinados fisicamente, mas não nos deixemos condicionar espiritualmente, estando atentos às sugestões da nossa diocese e às possíveis propostas da nossa paróquia. Como nos refere o Papa Francisco: «cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai».
Deus cuida sempre de nós. Cuidemos, agora, uns dos outros, em Igreja e como Igreja católica.

 

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