Experiências de missão de profissionais de saúde são abertura ao mundo, às diferenças e momento de valorização humana

«O que faço é a minha vida e o meu mundo, mas o meu coração está lá»

Lisboa, 23 out 2021 (Ecclesia) – Inês Sousa, enfermeira no Serviço de Cardiologia no Hospital de Santo António, no Porto, fez duas missões em Angola, o que a levou a reconfigurar as diferenças no mundo e a descobri um modo diverso de fazer saúde.

“O ambiente influencia muito e eu sou uma privilegiada. Tenho saúde, tenho os meus pais, tive oportunidade de estudar e isso não existe lá. A minha vida seria diferente se eu tivesse nascido lá. É importante ter essa noção, perceber que somos um povo privilegiado e que devíamos ajudar as outras pessoas a ter mais do que têm”, afirma à Agência ECCLESIA a enfermeira intensivista de 26 anos.

O desejo de ir para Angola surgiu cedo na sua vida: “Queria ir fazer a diferença, mudar alguma coisa, dar o meu contributo. Não queria conhecer a terra mas as pessoas e de que maneira poderia ajudar”, acrescenta.

Uma semana depois de estar licenciada, em 2017, partiu para o Zango 3, bairro da periferia de Luanda para dar formação no Centro Socioprofissional das Irmãs Salesianas; em 2019 voltou para o mesmo local, para as mesmas pessoas, para o mesmo trabalho.

“Adoro o que faço, é a minha vida e o meu mundo, mas metade do meu coração está lá”, assume com um brilho no olhar.

O contraste entre o stresse no Hospital no Porto e o trabalho que realizou em Angola é muito grande, porque a visão sobre a saúde em ambos os países é muito diferente.

“O trabalho que se pode fazer é de educação e prevenção na saúde, e algum trabalho de monitorização de doentes hipertensos, diabéticos. Ia fazendo acompanhamento, mas muito na base da educação porque não há medicamentos. É uma perspetiva muito diferente da perspetiva da saúde que temos cá”, indica.

Os cuidados que presta a doentes críticos e a vida sem rotinas que assume adorar em Portugal, não retiveram Inês de ir descobrir uma forma de fazer saúde que “dá gosto fazer”.

“Tem muitos mitos para desmistificar. Por exemplo, uma expressão que usamos muito e eu disse lá: «É como andar de bicicleta, nunca se esquece». E numa das aulas disseram-me «O que é uma bicicleta?» Outra questão, na área da reprodução, perguntei: «De onde nascem os bebés?»; resposta «Da bexiga». Entretanto percebi que nasce da bexiga porque quando rompe o saco, sai líquido amniótico e como o único líquido que sai é urina, os bebés saem da bexiga»”, recorda.

Inês recorda o trabalho como “muito desafiante”, porque leva o profissional de saúde a confrontar-se com “questões básicas que se pensam garantidas”, e valoriza o impacto imediato que o total de dois meses no Zango 3 lhe deu.

“Mudou-me como pessoa e acaba por mudar toda a minha vida e o que me rodeia. Para a profissão tive bem a noção do contexto alterar as pessoas. Fez-me estar mais desperta para o facto de não termos todas a mesma condição. Fiquei mais empática e compreensiva com a pessoa em si e não só com a doença”, assume.

A missão confirmou a Inês um caminho de humanização da saúde, necessária e não exclusivamente dependente de governos e leis.

“É preciso ter cuidado e atenção especial à parte humana. Estamos a caminho de uma saúde cada vez mais humanizada. Mas há ainda por onde evoluir e não é só governativa e legislativa, mas é um trabalho individual de cada pessoa estar desperta”, indica.

O regresso ao Zango 3 vai concretizar-se, não fosse a pandemia e já teria acontecido, porque para além dos cuidados e da formação em saúde, Inês Sousa não esquece os fins de tarde, com o pôr-do-sol, a fazer ginástica com as muitas crianças e jovens.  

Acompanhar e cuidar na Guiné-Bissau

Gabriela Poças é médica de família há 12 anos no Centro de Saúde de Leça da Palmeira, em Matosinhos, local onde, acredita, a sua missão se concretiza diariamente, entre dificuldades e alegrias, com colegas de trabalho e pacientes.

Decidiu-se, no 4º ano da sua formação, pela especialização em medicina geral e familiar porque percebeu que “mais do que curar ou resolver”, queria “cuidar e estar com”.

O desafio da missão surgiu no aproximar da celebração dos seus 40 anos.

“Fui desafiada. Nunca tinha pensado fazer missão AdGentes. Sempre pensei que a minha missão era aqui, neste edifício com os meus pacientes, médicos, a minha família. Essa é a missão que custa, no dia-a-dia; mais fácil é ir para a Guiné-Bissau dois meses”, explica à Agência ECCLESIA.

O sonho de Gabriela Poças não seria salvar o mundo, mas reconhece que na viagem rumo à Guiné-Bissau levava algum idealismo e orgulho, no entanto, essa expetativa caiu por terra ao pisar as terras africanas.

“Foram buscar-me ao aeroporto e, de noite, fomos de Bissau até Bafatá e a meio do caminho encontramos dois homens atropelados – um deles já morto e outro achávamos que o podíamos ajudar. Ainda pusemos na carrinha para o hospital mas faleceu. Logo ai, foi dificílimo para mim, tirou-me logo a ilusão. Não era esse o sentido da minha missão. Não ia salvar ninguém, ia dar um testemunho do Evangelho”, recorda.

No Hospital de Gabu, na diocese de Bafatá, num sistema de “baixa tecnologia”, sem recursos, Gabriela centrou-se no tratamento da desnutrição, da malária, de diarreias agudas, entre mães e crianças, apresentando também os cuidados na alimentação e na higiene, e ocasionalmente visitava as aldeias.

“Dei algum apoio na casa das mães, com grávidas de risco, com gravidez gemelar ou desnutrição, e fazia visita aos recém-nascidos. Esporadicamente ia a tabancas, e ai era o médico na aldeia. (Encontrei) muitas lesões de pele, algumas grávidas. Tive uma situação de uma senhora com uma barriga com líquido, um fígado enorme como eu nunca tinha apalpado na vida, percebei que tinha um cancro de sangue, em colaboração com amigas oncologistas, conseguimos providenciar alguns cuidados paliativos”, recorda.

Com humildade, a médica de família garante “não ter feito muito”, apesar de reconhecer que a especialidade lhe permitiu ter uma visão holística sobre os cuidados a prestar e acabar por se revelar “muito produtiva”.

Mas a maior mudança que Gabriela Poças reconhece é a “interna”.

“A tolerância, a compreensão pelo que é diferente, pelas pessoas com valores diferentes, (fui desafiada a) estar atenta a isso. Quando achamos que uma coisa é muito boa queremos que outros tenham, mas não tem de ser assim. Naqueles dois meses, do que vi e senti, aprendi o acolhimento com quem me acolheu”, recorda.

Na Guiné-Bissau, Gabriela Poças descobriu que a tarefa de mudar o mundo foi concretizada com os seus gestos de cuidado e acompanhamento, entre as pessoas com quem se cruzou: “As coisas mais importantes acontecem dentro de nós”.

O desejo de ser enfermeira do mundo

Salomé Henriques, enfermeira, de 24 anos, é herdeira de uma ligação familiar à Juventude Hospitaleira, ligada aos irmãos de São João de Deus e às Irmãs Hospitaleiras, por isso quando surgiu o convite para trabalhar na área da saúde mental e rumar a Timor, a sua resposta foi pronta.

“Desde pequena que ouço falar em missão, a minha mãe fez parte da Juventude Hospitaleira. Sempre quis ser enfermeira mas em missão: Nunca tive a ideia de ficar em casa na vida rotineira. Sempre quis ir para o mundo e ajudar as pessoas pelo mundo fora. No início de 2019 surgiu oportunidade, estava a acabar o curso. E eu disse: «Vamos embora»”, conta à Agência ECCLESIA, a partir de Laclubar, no município de Manatuto, em Timor, onde se encontra desde julho.

Antes da viagem para Timor, Salomé passou um ano e meio na Casa de São João de Deus, no Telhal, em Portugal, para conhecer o trabalho junto dos pacientes, mas sempre com o horizonte de partir.

Na chegada à Ásia, as diferenças sobressaíram.

“Em Portugal, uma enfermeira que prescreve medicamentos pode perder a licença; Aqui, porque não há médicos, psiquiatras, são os enfermeiros de apoio à saúde, que prescrevem e avaliam a medicação, conforme as necessidades”, conta.

No interior de Timor, rodeada de montanhas e de natureza, onde os animais e o ritmo do sol marcam os seus dias, Salomé procura colmatar a “grande falta de cuidado de saúde mental” nas suas tarefas diárias, procurando apresentar os cuidados médicos num local onde “persiste a procura pela medicina tradicional”.

“Se houver entrada de utente, vou recebê-lo; preparo altas, faço educação para a saúde, insisto na toma dos medicamentos, algo muito importante me saúde mental. Faço educação para a lavagem das mãos, etiqueta respiratória; ajudo nas atividades de vida diária, como comer, andar, conversar, algo que na saúde mental é uma das mais importantes atividades, e adequo estratégias ajusto medicação”, explica. 

Entre pacientes, Salomé Henriques cresce também como pessoa, quando apresentada a uma cultura muito diferente da sua.

“Os timorenses ensinam-se tétum – é muito fácil aprender com eles porque têm muita paciência. E partilham comigo histórias de vida, da sua cultura e acabo por aprender a melhorar os cuidados de saúde que presto”, valoriza.

Por enquanto é no trabalho no Centro de Apoio à Saúde dos Irmãos São João de Deus, em Timor, e junto dos pacientes em saúde mental, que Salomé Henriques se concentra, mas esta jovem enfermeira sabe que um dia, levando o tétum no coração, e um thai à volta do pescoço, será a outra população que irá prestar cuidados de saúde.

“Não vai ser num dia próximo, não, se algum dia sair desta, vou para outra (missão)”, assume.

LS

Créditos das fotos: Inês Sousa, Gabriela Poças e Salomé Henriques

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