«A Mística do Arado – Busca de um Deus possível» reúne textos que o missionário da sociedade da Boa Nova quer dirigir a todos numa dimensão «pré-religiosa»

Lisboa, 14 set 2021 (Ecclesia) – O padre Adelino Ascenso afirmou que “Deus não pode ser colocado num caixilho” ou “limitado” e que, ao escrever o livro ‘A Mística do Arado – Busca de um Deus possível’, quis “abranger o ser humano numa dimensão pré-religiosa”.

“Não podemos colocar Deus num caixilho, numa gaveta, num espaço limitado. Deus está sempre para lá da nossa imaginação. Não podemos dominar Deus, nem o Espírito. O Espírito é rebelde e é bom que assim seja. Nós, na Igreja, necessitamos ser rebeldes para encontrar o Espírito nessa trepidação. Há folhas secas que devem cair, a árvore precisa ser abanada, para dar lugar a novos rebentos. A Igreja tem uma grande peregrinação a fazer”, explicou o superior geral da Sociedade Missionária Boa Nova numa entrevista à Agência ECCLESIA.

“Não posso restringir-me a um grupo, a esse grupo de crentes, cristãos ou católicos. A minha intenção é abranger o ser humano, numa dimensão pré religiosa, o tal terreno que tem de ser lavrado antes de lançar a semente. Somos muito semelhantes, ai está a dimensão mais antropológica”, acrescentou.

O livro, recentemente editado pela Paulinas editora, apresenta diversas reflexões do missionário, revela viagens que o padre Adelino Ascenso realizou na ásia e na América Latina, sempre na “busca do Deus possível”.

“Ainda hoje sou um buscador, de forma diferente, claro, mas ainda um buscador insaciável do divino”, reconhece.

A publicação, apresentada hoje no programa ECCLESIA (RTP2), “não é um roteiro para uma viagem normal, mas para uma viagem interior”.

“O Deus possível que nunca se concretiza, cuja presença vamos tateando, mas que desaparece assim que temos consciência de algo transcendente e infinito. O Deus possível nunca é determinado. Está para além das minhas possibilidades. É um Deus que se vai fazendo conforme vamos caminhando e peregrinando”, indica o autor.

O padre Adelino Ascenso diz que encontrou Deus nos lugares onde não imaginaria, “junto de um pistoleiro na selva”, porque, conta, “Deus mergulha no lodo de qualquer pessoa, seja ela cristã ou não, esteja ou não relacionada com a nomenclatura que se atribui a Deus”.

“Temos de resistir à tentação de dar respostas congeladas. Devemos antes ser solidários na pergunta, para ajudar a pessoa a aprofundar a pergunta. Devemos pedir a Deus que nos ajude a fazer as verdadeiras perguntas. E depois, a pessoa encontrará a própria resposta”, sublinha.

Para o missionário da Boa Nova “os buscadores entrelaçam-se”.

“Um cristão que busca aproxima-se muito de um ateu que busca. O diálogo com uma pessoa que me disse não gostar de religiões, abriu-me horizontes contra o que pode ser a mesquinhez da nossa fé. A fé sem dúvida é crendice. Uma fé tem de estar misturada na dúvida, misturada na busca, misturada no encontro com o diferente, com aquele que age, pensa e crê de uma forma diferente”, reconhece.

O padre Adelino Ascenso acrescenta ainda que os sentidos “são uma linguagem comum” entre todos e são capazes de “abrir janelas” para a “parte mais íntima e profunda” do ser humano.

LS

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