Padre inglês esteve em Portugal a falar do impacto que os abusos sexuais na Igreja tiveram em padres não abusadores, no I Encontro do Cuidar

Lisboa, 30 jun 2022 (Ecclesia) – O padre Barry O’Sullivan, que desde 1995 trabalha na salvaguarda e proteção das crianças, em Inglaterra, destacou a importância de uma Comissão independente que ajude a Igreja a ser “aberta e transparente”.

“Abertura e transparência são as palavras-chave quando estamos a falar de salvaguarda. Não me parece que possamos ter um inquérito sobre abusos se não for independente, caso contrário não vai ter peso. Na realidade inglesa, por mais doloroso que fosse, foi essencial porque deu credibilidade. Algumas coisas que tivemos de ouvir, mudou-nos, fomos desafiados e foi-nos dito que ou mudaríamos ou mudavam-nos”, disse à Agência ECCLESIA.

O autor do livro ‘The Burden of Betrayal: Non-Offending Priests and the Clergy Child Sexual Abuse Scandals’ esteve em Portugal a participar no I Encontro do Cuidar, esta quarta-feira, no qual afirmou a importância de se “acolher e abraçar” o trabalho independente para ajudar a Igreja a fazer melhor o que melhor faz.

Desconheço o trabalho da comissão em Portugal, mas se é independente, encorajem-na e eu aconselharia a hierarquia a abraçá-la e a acolhê-la. Mostrem às pessoas que são abertos, transparentes e que se há algo de errado temos de o mudar. Trata-se de ser humilde. Não há más intenções, mas se nos puderem ajudar a ser uma melhor Igreja, a melhor chegar aos marginalizados, seremos melhores”.

O sacerdote recordou que na realidade inglesa, que acompanha, foi necessário que “doesse”.

“Era necessário que doesse e só é pena que tenhamos sido forçados a fazê-lo. Deveríamos ter sido nós a começa-lo, com uma comissão independente. Enquanto algumas pessoas estavam receosas sobre uma comissão a escrutinar a Igreja com um inquérito independente, eu assumi-o de braços abertos. Só depois deste passo poderemos dizer que somos abertos, claros e transparentes”, valorizou.

O padre Barry O’Sullivan regista “esforços consideráveis” a ser desenvolvidos e afirma-se hoje mais confiante do que em 1995 – “Há 30 anos atrás a maior parte das pessoas nesta sala não estariam aqui porque não teriam sido convidadas. Aqui se percebe como estão à frente” – mas lamenta que a Igreja seja ainda mais “reativa” do que proativa.

“A prova de que a salvaguarda entrou no espírito da Igreja vai ser quando deixarmos de falar em proteção de crianças e começarmos a falar do cuidado com as crianças e adultos vulneráveis. Hoje acho que ainda somos reativos e estamos a reagir à crise a nível mundial”, explica.

Sacerdote há 35 anos, o responsável lamenta que a Igreja não tenha sido imune a um “cocktail perigoso” comum a organizações e sistemas que “usam riqueza, ambição e poder”, mas sublinha que o desespero não é solução.

Não teremos uma Igreja saudável em termos de segurança enquanto o nosso coração e cabeça não abraçarem isso como princípio, porque a salvaguarda não foi algo imposto, mas é antes um imperativo do Espírito. Trata-se do que somos como Igreja e isso define-nos como Igreja”.

Na conferência em que apresentou o impacto dos abusos sexuais na Igreja em padres não abusadores, o sacerdote inglês afirmou a preocupação com o futuro da Igreja.

“Há um sentimento de traição: a hierarquia sabia e não fez nada, mudou os abusadores de lugar, e portanto, há um sentimento de perda de credibilidade, se já nos desiludiram porque é que nos vão ouvir?”, deu conta.

O padre Barry afirmou que o caminho é entender um ministério de proteção ao invés de a Igreja ficar na proteção como uma necessidade.

“A proteção dos marginalizados está no testamento da Igreja, está no ADN e nos ossos e fará sempre parte dela. Estamos a passar da proteção como uma necessidade para a noção de um ministério de proteção. Se assim não for estamos a falhar como padres”, indicou.

LS

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