Projeto ‘Mais Natal Priscos’ dá trabalho a presos há cinco anos no maior Presépio ao vivo da Europa, que nasceu em 2006.

Um projeto que que vive o Natal com pessoas e causas e aposta na reinserção social de quem cometeu um crime e se prepara para regressar à liberdade. Dois “sonhos” que movem o padre João Torres, pároco de Priscos e coordenador da assistência aos Estabelecimentos Prisionais de Braga e Guimarães

Foto Paulo Teixeira, padre João Torres

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Paulo Rocha (Agência ECCLESIA)

800 participantes, num espaço com 30 000 m2, 90 cenários com referência às culturas egípcia, judaica, romana, assíria, grega e babilónica e, desde há cinco anos, com reclusos a trabalhar na construção do maior Presépio ao vivo da Europa. Que avaliação faz desta iniciativa?

A ambição de cada uma das edições do Presépio não é ter mais figurantes, participantes ou visitantes. Dizer que somos os maior Presépio ao vivo da Europa não é o nosso objetivo, antes proporcionar um encontro entre pessoas, que sejam capazes de adotar o estilo de Jesus. Vamos até à gruta de Belém e aí cada um bebe a água que quiser beber, os cheiros, os rostos…

Hoje em dia um pai tem muita dificuldade em dizer a um filho o que é o Natal. E nós queremos dar uma resposta a esses pais com pessoas. E quem nos visita pode sentir isso, com as pessoas voluntárias, entre 600 a 800 figurantes, muita gente, gente que é crente e não é crente.

 

E tem dificuldade no recrutamento, sobretudo em meio prisional?

Nós temos 14 mil e muitos reclusos em Portugal. E qualquer recluso que lhe seja proposto este projeto, não olha para trás. Estamos a falar de liberdade entre as 8h30 e as 17h00, de um ambiente que tentamos que seja o máximo familiar possível (eles não estão num “jardim zoológico”), fazem todo tipo de trabalhos, aprendem um ofício e são remunerados. Nós não temos escravos: temos pessoas que cometeram um crime, estão a pagar por um crime que cometeram, mas são pessoas.

 

Um Presépio que ajuda na reinserção dos reclusos

A ideia de incluir os reclusos neste grande projeto partiu da sua experiência na Pastoral Penitenciária, em Braga. Como avalia a reinserção de reclusos em Portugal?

Para avaliarmos, tínhamos de ter um trabalho minimamente sério. E não temos um trabalho sério nessa matéria em Portugal. Cometeu-se um erro grave, que ninguém o avalia, que foi juntar os serviços prisionais à reinserção social. Eles estavam divididos.

Falar mal por falar, não será o caminho. Mas a reinserção social em Portugal tem de ter mais meios, mais pessoas, mais financiamento. Acredito que um técnico de reinserção social que tenha 100, 200 ou 300 reclusos para acompanhar, não vai fazer um trabalho minimamente sério (com isto não quero dizer que aquelas pessoas não dão, todos os dias, o melhor de si).

Um exemplo: num estabelecimento prisional do nosso país, há um recluso com uma saída precária no Natal e é uma dificuldade enorme saber onde ele vai ficar. Depois de cumprir determinados anos de pena, ele tem o direito de sair numa saída jurisdicional, geralmente chamada saída precária, e, não tendo família, alguém, uma instituição, deveria ajudá-lo. Neste caso é a Pastoral Penitenciária de Braga que lhe vai proporcionar uma estadia num Hotel e vai ter acompanhamento de amigos, dos amigos que estiveram dentro da prisão.

 

Senão teria de ir para a rua?

Sim…

 

Com maior possibilidade de reincidir…

Claro… Ou ficaria numa pensão com pessoas problemáticas e obviamente que a reincidência é muito maior.

 

É por isso que a taxa de reincidência em Portugal é das maiores da Europa?

Sim! Porque nós, em Portugal, não temos uma política de recuperação de pessoas: Os senhores juízes determinam que alguém deve ser detido, durante ‘x’ tempo, a pessoa está detida, mas depois onde está o plano pessoal de reinserção social de cada recluso?

 

“Muitos reclusos são tratados como se fossem lixo”

Recentemente, o presidente da Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos denunciou numa entrevista à Renascença o que chamou de “ascensão no sistema penal da via punitiva”. Estamos a voltar a essa via punitiva?

Acho que sim! Vou dizer uma coisa que não é muito simpática de se ouvir: muitos reclusos, em Portugal, são tratados como se fossem lixo. E em Portugal já temos um tratamento especial para o lixo. Não temos é um tratamento especial para aquelas pessoas: elas cometeram um crime e estão a pagar por ele, mas vão voltar à rua. E em que condições? Se voltarem ao mesmo bairro onde praticavam crimes, à mesma rua, quem vai pagar são os cidadãos!

Com este projeto, não estarmos só a ajudar estas pessoas a ter um caminho de vida diferente, a ter hábitos de trabalho, a poder sonhar com a sua própria dignidade humana, sabendo que são pessoas e tem de lutar pelos seus sonhos e por um contributo diferente à sociedade; mas, ao mesmo tempo, estamos a lutar para que estas pessoas não voltem a cometer um crime. E, neste caso, estamos a pensar nas vítimas! Quando recuperamos reclusos não estamos só a pensar nos reclusos, mas em possíveis vítimas futuras. Claro que também estou muito preocupado com as pessoas que já foram vítimas, as que mataram ou roubaram. Mas tenho de fazer de tudo para que esta pessoa não volte a provocar mais vítimas.

 

Portugal é o país da União Europeia com maior tempo médio de cumprimento de penas: em Portugal, um recluso cumpre em média 32 meses de prisão; na União Europeia são, em média 8 meses. O que é que isto diz do nosso sistema prisional e da aposta, ou não aposta, na reinserção?

Também era importante juntar a esse dado o dos reclusos que estão detidos e têm meios para ter uma verdadeira defesa nos tribunais… A maior parte dos reclusos no nosso país é gente pobre, que não pode recorrer…

 

A justiça é para ricos em Portugal?

A justiça a sério, nosso país, é para gente que tem meios financeiros, que tem bons escritórios de advogados.

De resto, estamos a falar de reclusos que vão a tribunal e conhecem o seu advogado 30 minutos antes do julgamento. Como é que alguém pode ter, assim, uma verdadeira defesa? E não estou a falar mal dos advogados. Até porque esses advogados não recebem o que lhes é devido e, quando recebem, recebem muito tarde e ainda têm de pagar impostos sobre isso. As pessoas que defendem estes reclusos, nomeadamente os senhores advogados, têm de viver. Se têm um cliente que tem mais meios financeiros vão defender mais depressa esse cliente de um potencial cliente que não tem onde cair na própria vida! Por isso é que está preso…

 

Sendo Portugal um país seguro, não é paradoxal este largo tempo médio de prisão efetiva? Porque é que é necessário manter tanta gente presa durante tanto tempo?

Se não temos políticas de verdadeira reinserção social, se os senhores juízes não têm outras alternativas para além da prisão, só os podem deter numa prisão.

 

É um modo de esquecer algumas pessoas?

Sim… Até ver! Depois vai ter de sair.

Quando há uma saída em liberdade condicional, fazem-se estudos e relatórios, que não são verdadeiros, muitas vezes. Porque estamos a falar de um técnico que tem 200, 300 reclusos e como pode fazer um trabalho minimamente sério? Não pode! E isto não é demagogia!

Eu não estou aqui só a falar mal. Estas pessoas que trabalham nas prisões na reinserção social certamente dão o seu melhor, mas não chega. Nem sequer um carro têm! Como é que posso visitar a família de um recluso para ver se ele tem condições para regressar a casa e se só posso fazer um telefonema, se não posso ir lá ao local, se não tenho tempo sequer para lá ir?

 

O subcomité das Nações Unidas para a prevenção da tortura recomendou a Portugal, no ano passado, que mude o foco do seu sistema penitenciário, substituindo o encarceramento pela reabilitação dos reclusos…

Sim!

Os reclusos que temos no Presépio ao Vido de Priscos são uma realidade concreta que tem cinco anos. Já podemos avaliar este projeto. Já passaram por lá cerca de 40 reclusos. E quando alguns deles me vão visitar, eu não os reconheço: vêm com família, já realizei até alguns batizados de filhos deles e vêm completamente mudados, com um sorriso no rosto e outra capacidade de sonhar a vida. Cometeram um crime, pagaram por ele, mas têm todo o direito de voltar à sociedade e voltar a sonhar.

Nós não podemos ter estabelecimentos prisionais em Portugal sem perspetiva de sonho, nenhum!

Em Braga, quando se pergunta um recluso “o que é que tu esperas nos próximos tempos?”, eu fico muito feliz quando ele diz “eu espero chegar a Priscos”. Deveria haver mais estabelecimentos, em Portugal, onde o recluso dissesse “eu quero chegar àquele patamar”, que significa liberdade, mas também responsabilidade (porque as pessoas só vão para Priscos depois de passar várias fases).

 

A Noite de Natal é quando existe mais silêncio na prisão

Como é a vivência do Natal no ambiente prisional, nomeadamente em Braga?

Faz-se o possível…

Eu nunca desejo a nenhum recluso ‘Feliz Natal’. Porque não é feliz Natal: estão longe da família, num ambiente que é frio. O dia em que mais silêncio existe na prisão, na de Braga e certamente nas outras, é quando fecham as celas às sete da noite, no dia 24 de dezembro, na noite de consoada.

Eu lembro-me de,  num ano, ter dito a um recluso “feliz Natal e para o ano certamente já estás lá fora e alguém há de estar à tua espera”. E ele respondeu-me: “não há ninguém à espera de mim”.

Isto deixou-me muito triste e muitas vezes penso nisto. Não há ninguém à espera das pessoas que cometeram crimes e ficam sozinhas. E com isto não quero dizer que temos de olhar para eles como coitadinhos! Mas é horrível não termos ninguém que espere por nós.

 

O projeto “um postal, uma esperança”, em que os jovens são convidados a escrever aos reclusos, é mais um passo nessa busca de reinserção, de conforto e de humanização?

Este projeto existe há cerca de 5 anos e fiquei encantado quando os reclusos liam os postais uns dos outros. Depois de fecharem as celas, cada um tem o seu postal ou a sua carta, mas depois liam os postais dos outros. E, pelo menos durante alguns minutos, eles sentem que é Natal e esquecem-se que estão presos. E é alguém que escreve e, para escrever, tem de se sentir recluso. Aconselhamos as pessoas que não digam frases banais, mas possam dar uma palavra de conforto, de esperança, porque o Natal é isso mesmo.

 

O projeto do Presépio ao vivo de Priscos

Que transformação aconteceu em Priscos, nas pessoas, com este Presépio ao Vivo? Passou a ser o centro destes dias de Natal, não só nas redondezas, mas em Portugal inteiro?

Sim. Acho que tentamos dar um mote diferente. Não estamos a falar do Natal como folclore, coreografias publicitárias, aparatos de luzes, presentes ou ritos comerciais. Estamos a falar do Natal para o qual o Papa Francisco alertou, na última carta que escreveu: o Natal é a figura do Menino Jesus, de um São José humilde e de uma mãe fantástica, Maria, cheia de surpresas interiores, porque Deus lhe deu um presente e ela ainda está a descobrir qual é, aquele Menino pequenino.

Quem nos visita, sente isso, que o Natal é uma grande maravilha cheia de pessoas e de causas. E, ao longo de muitos anos, vamos também juntando-nos a causas: fizemos um poço de água em Moçambique; com o Presépio ao vivo de Priscos organizámos a aldeia das religiões, em 2012, com 32 líderes de confissões religiosas muito diferentes; o ano passado convidámos Rui Rosinha, um bombeiro, para alertar para essas pessoas que dão todos os dias o seu melhor, não só no verão, nos incêndios; e este ano temos uma família de refugiados. Este ano construímos uma ponte romana, feita de pedra, que é como uma onda: toca quase no senado, que representa o poder político, para alertar o poder político, não só da Europa, mas do mundo, para a necessidade de construir pontes e derrubar muros. E parece que, cada vez mais, temos gente muito preocupada em construir muros

 

Como é desenvolver a logística que envolve cerca de 800 participantes? Tem uma equipa a trabalhar consigo?

Sim, uma equipa enorme. Eu sou só um comandante do navio. Quem o constrói são os reclusos e o povo de Priscos. Mas quem faz o navio navegar é o povo de Priscos: quando pegamos nas pessoas e lhes damos algo que tenha mesmo valor, e Jesus continua a ter valor hoje, quando as pessoas abraçam esse projeto nascem coisas fantásticas.

 

Que ligação existe entre o Presépio ao vivo de Priscos e o Vaticano?

Já tivemos uma mensagem do Papa Emérito Bento XVI, uma visita especial do cardeal Baldisseri, enviado pelo Papa Francisco, com uma mensagem… Somos tão pequeninos, mas o Vaticano e o Papa olha para nós e deve sorrir. Acredito que ele tem conhecimento deste Presépio, que faz Natal durante todo o ano. Faz nascer gente! E esse é o nosso objetivo.

 

Priscos é conhecido pelo seu pudim e agora tem mais visibilidade com o Presépio ao vivo. Já está a pensar no do próximo ano?

Já. Como o mundo parece que vai estar em guerra, para o próximo ano vamos construir um acampamento militar para as pessoas verem quanto dinheiro se gasta na guerra e quanto pouco dinheiro se gasta a construir a paz.

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