Politóloga analisa resultados eleitorais e defende que tomar uma posição «é deixar de ser morno»

Lisboa, 12 fev 2026 (Ecclesia) – A politóloga Sílvia Mangerona afirmou ter acompanhado com “particular interesse” a forma como vozes católicas se afirmaram no terreno durante a última campanha presidencial.
“Essa afirmação política de católicos, essa tomada de posição por uma candidatura humanista que defenda valores humanistas, creio que veio aqui a fazer muito sentido”, afirmou a professora universitária, em declarações ao Programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2.
A 2ªvolta das Eleições Presidenciais 2026 realizou-se no passado domingo, tendo sido eleito António José Seguro como novo presidente da República reunindo 66,82% dos votos contra 33,18% de André Ventura.
Sílvia Mangerona assinalou que “Portugal tem uma posição católica muito relevante” e que “é de assinalar” o facto de vozes terem afirmado uma posição de forma “muito categórica” ao longo da campanha.
Para um católico há valores que são intocáveis. O respeito pelo outro, o respeito pelo bem comum, a procura de consenso, a moderação, o acolhimento”, destacou.
Doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Católica Portuguesa, a professora realça que hoje vive-se um “tempo polarizado e extremado” e que a manifestação de uma opinião, seja por católicos ou não, “é muito importante”.
“A tomada de posição de hoje tem repercussões no amanhã. E tomar a posição é deixar de ser morno. Mas ser moderado não é a mesma coisa que ser morno”, salientou.
A entrevistada sublinhou que “a moderação é essencial”, é quando cada um se sabe colocar nos sapatos do outro, é ser empático e solidário, “é ouvir a opinião do outro com tanto ou mais interesse” do que aquela que se emite.
“Creio que isso é que estamos a perder e é isso que temos que reforçar. A posição dos católicos veio a esse encontro. É preciso tomar posição, sair do muro, não ser morno, mas ser moderado”, referiu.
Sobre a análise dos resultados das eleições, a docente universitária refere os indicadores foram claros: “O eleitorado uniu-se contra uma direita mais extremada, pelo menos que verbaliza esse extremo”.
Os eleitores fizeram “uma opção pelo conhecido, pela moderação, por uma revelação mais democrática”, disse Sílvia Mangerona.
A professora defende que “todos os votos são dignos e merecem o mesmo respeito” e que o facto de o candidato presidencial André Ventura ter verbalizado “um discurso mais extremado, mais xenófobo, com uma atitude um pouco mais radical, talvez tenha assustado um povo que é pela moderação, pelo acolhimento”.
“Os tempos que vivemos internacionalmente requerem moderação, atenção e cautela. E, portanto, creio que um perfil mais diplomático, que não exclua interlocutores, que faça justiça ao multilateralismo, que é o nosso apanágio há tantas décadas, creio que vai ser mais prudente. E o resultado respaldou essa prudência”, indicou.
A opção do eleitorado foi, para a politóloga, “um sinal de maturidade democrática e de responsabilidade”.
“Creio que todos temos sempre imensas opiniões, é bom que tínhamos liberdade para as emitir, mas quando falamos, emitimos opinião, não podemos descurar a responsabilidade, o impacto das nossas palavras”, menciona Sílvia Mangerona.
Sobre o facto de o candidato presidencial derrotado na 2ªvolta das eleições se ter assumido como líder da direita em Portugal, a professora universitária entende que “é difícil” afirmá-lo “de forma categórica”, mesmo que a percentagem fosse mais elevada.
“Ainda é muito cedo para tirar assunções dessa natureza. Há várias direitas e há uma direita humanista cristã que não pode ser desprezada nesse contexto”, enfatizou.
Sílvia Mangerona observa que “um líder uníssono, de um pensamento único, faz levantar bandeiras vermelhas”.
Relativamente aos cinco anos que se seguem, com António José Seguro como presidente da República, a politóloga considera que será “um mandato com muitos desafios”, mas que o novo chefe de Estado, que toma posse a 9 de março, “estará à altura”.
“Digo muitas vezes que será uma magistratura de serviço, creio mesmo que deu sinais de que isso vai acontecer. Uma magistratura de serviços, uma magistratura do diálogo, às quintas-feiras, como costumo dizer, com o Governo, e depois com os recados necessários para a Assembleia da República, que é aí a sede que tem de ser o contraponto de todas as outras políticas”, concluiu.
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