Padre Lino Maia destaca impacto do aumento do preço dos combustíveis na vida das IPSS

Porto, 04 out 2026 (Ecclesia) – O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) alertou para a insustentabilidade do Estado Social em Portugal, receando que o foco orçamental na Defesa desvie “o dinheiro das instituições”.
“Não queria ser catastrofista, mas temo, temo um bocado, até porque são definidas prioridades e sabemos, todos nós, que agora a Defesa é considerada como uma prioridade para chegar aos 5% do PIB”, explicou o padre Lino Maia em entrevista conjunta à Agência Ecclesia e Renascença, emitida e publicada hoje.
O responsável assumiu que a situação é “muito complicada”, acrescentando que os sinais “não são muito positivos”, por parte do Estado
“78% do que se faz em ação social em Portugal é feito por estas instituições que brotam da sociedade”, ilustrou.
O presidente da CNIS explicou que a inflação específica neste setor é “muito mais elevada”.
“O Estado, ou desperta para um apoio mais significativo a estas instituições, ou então muito mais gente ficará abandonada, ficará para trás”, alertou.
O padre Lino Maria sublinhou que a atual crise agrava o desfasamento financeiro, considerando que a comparticipação estatal é insuficiente.
“O custo médio em Portugal por utente de ERPI [Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas], ou Lar de idosos, anda nos 1706 euros, e o apoio do Estado é de 700 euros”, exemplificou o dirigente.
Se não fossem estas instituições, o que seria feito dos nossos idosos? Ainda temos muitos que vivem isolados, em casa, abandonados, ainda temos muitos, mas seria muito pior a situação.”
O padre Lino Maia reivindicou a consagração da proteção social como direito universal na Constituição da República, relatando que os grandes partidos “se manifestaram muito sensíveis” a esta alteração estrutural.
O sacerdote aludiu ainda à recente conversão de camas de cuidados continuados em ERPI, lamentando que nesta área “o apoio do Estado é manifestamente insuficiente”.
“O combustível a aumentar como está a aumentar, e não há perspetiva de baixar o preço, o Estado tem de apoiar”, apelou o responsável, considerando a anunciada ajuda governamental de 600 euros anuais como mera “publicidade enganosa”.
O presidente da CNIS recordou que muitas viaturas de apoio domiciliário “percorrem mais de 800 quilómetros por dia” em zonas deprimidas para assistir populações isoladas.
O padre Lino Maia admitiu o receio de que as IPSS se desviem da sua missão fundacional, ao serviço dos mais carenciados.
“Se têm custos elevados, se o Estado não apoia suficientemente, se os utentes não podem comparticipar, estas instituições podem desviar-se e começar a privilegiar não os que mais precisam, mas aqueles que podem pagar”, observou.
O entrevistado apontou ao fim do seu mandato de mais duas décadas no próximo mês de janeiro, defendendo a importância de eleger “pessoas que venham com outras ideias” para rejuvenescer a confederação.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
