Sacerdote que ajudou a consolidar rede de cuidados de solidariedade cumpre 50 anos de ordenação

Lisboa, 08 ago 2019 (Ecclesia) – Os 50 anos de sacerdócio do padre José Maia constituem uma ocasião para olhar para a realidade atual das respostas sociais em Portugal, numa entrevista à Agência ECCLESIA em que alerta para a urgência de “uma nova geração de políticas públicas”.

Primeiro como responsável pelas IPSS do Distrito do Porto, e depois à frente da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UIPSS), a atual Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social (CNIS), o padre José Maia conta com larga experiência neste setor.

O sacerdote destaca um quadro social que precisa de um olhar atento, e para o qual “as políticas públicas não têm tido minimamente resposta”, que é “o problema terrível da quantidade de pessoas idosas, sós, pobres e doentes” no país.

Uma realidade difícil que o faz recordar o contexto que encontrou quando, há várias décadas, teve em mãos a reorganização das soluções de solidariedade, um trabalho que o levou à liderança da CNIS, entre 1989 e 1993.

“A metodologia que eu tenho sempre, que não conheço outra, é ver a realidade, e ao ver e estudar a realidade vi que de facto havia muito a fazer. Fomos fazendo crescer a UIPSS, depois transformada em CNIS, e infraestruturámos o país como uma autêntica rede social”, recorda o padre José Maia.

Para o antigo presidente da CNIS, é essencial continuar hoje a reforçar ou mesmo “duplicar” essa rede de cuidados, e sobretudo garantir o surgimento de “uma nova geração de políticas sociais”.

A afirmação “dos cuidadores informais poderá ser um caminho, se for tomado a sério”, reconhece aquele responsável, mas é preciso fazer mais e ir mais fundo, também no que toca ao papel e à responsabilidade do Estado no apoio às instituições sociais.

“Eu tenho muito receio de que as políticas sociais, da maneira como isto está a caminhar, em vez de serem mais apoiadas possam ser desapoiadas”, alerta o padre José Maia, que vai mais longe e sublinha que seria “um problema grave” se as IPSS fossem deixadas à sua sorte “por razões ideológicas”.

Hoje é tudo estatal. Estatal porquê? O Serviço Nacional de Saúde é nacional, não é privado ou público, isto é uma nação. Há uma série de coisas em que a ideologia está a entrar de mansinho e custa-me ver isso, porque isto é um mau sinal”.

Ao longo desta entrevista ao Programa ECCLESIA, que pode ser acompanhada esta quinta-feira na RTP2, o padre José Maia passa em revista cinco décadas de missão sacerdotal, junto das comunidades católicas e da sociedade em geral.

O diálogo toca também as origens da vocação do sacerdote de 77 anos, natural de Ribeirão, que contou com a “ajuda” da Beata Alexandrina de Balasar, e a sua posterior ordenação em Roma, a 6 de abril de 1969.

“Foi um tempo interessante, com o maio de 68, o Concílio Ecuménico, eu ainda me encontrei nos finais do Concílio Vaticano II. Tive a sorte de me encontrar num tempo de muitas mudanças”, reconhece o padre José Maia.

Toda esta conjuntura, com destaque para os ventos de mudança do Concílio Vaticano II, foram decisivos para a sua formação como sacerdote e para a linha pastoral que sempre seguiu, muito centrada “nas pessoas”.

No entanto, foi a entrada na Paróquia da Areosa, comunidade que ajudou a fundar e a consolidar há 40 anos, que marcou decisivamente a sua vida.

“Tinha aquele entusiasmo, daquilo que eu aprendi, mas aqui não me serviu muito. Foi na Areosa que eu tive um encontro com a realidade que marcou todo o meu sacerdócio. Foi para mim um verdadeiro mestrado de tudo o que eu possa ter”, recorda o padre José Maia.

Que nesta entrevista partilha projetos passados, mas aponta sobretudo para o futuro, porque “novos tempos” trazem “novos desafios”.

Por exemplo, nós temos neste momento 83 ruas nesta paróquia e durante um ano o nosso trabalho, de todos, vai ser conhecer até onde for possível cada rua das 83, sobretudo junto de idosos em situação de solidão”.

A pobreza extrema, o desemprego e a exclusão social, a ausência de respostas sociais e educativas, o diálogo intercultural, neste caso com a comunidade de etnia cigana, o crime, a delinquência juvenil, foram algumas das problemáticas com que o padre José Maia teve de lidar ao longo destes anos, no apoio às populações da Areosa.

Sem esquecer outras causas, que ainda hoje são atuais, como os maus-tratos a menores e o apoio às mães solteiras, temas a que dedicou inclusivamente dois discos, numa incursão pela música: os álbuns ‘As crianças também são gente’ e ‘Mãe solteira’.

“Naquele tempo a mãe solteira era quase apedrejada e eu entendi que devia também sair em defesa através do disco. Não cantei, fiz a música e a letra, apanhei muita porrada em entrevistas que dei na Renascença, mas uma porrada que eu gostei de apanhar porque a história é bonita”, assinala o padre José Maia, que ainda trauteia a letra.

“A minha história faz-te sofrer, eu sei minha mãe, amaste e eu nasci, és minha mãe. Aquilo tinha que ser dito e cantado, e ficou. Gostei muito dela”, conclui.

O padre José Maia, que cumpre este ano as suas bodas de ouro sacerdotais, celebra 50 anos de ordenação, é o convidado no espaço de entrevista do Programa ECCLESIA desta quinta-feira, que pode ser acompanhado a partir das 15h00, na RTP2.

PR/JCP

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