Com o país a viver uma seca sem precedentes, a que se junta uma vaga de calor, as autoridades alertam para o risco de incêndio num território marcado por grandes assimetrias onde o Interior luta contra o progressivo despovoamento. Carlos Neves, militante da Ação Católica Rural, é convidado esta semana da Renascença e da Agência Ecclesia

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Foto: RR/Henrique Cunha

A nova equipa nacional da Ação Católica, eleita na passada semana, assume a necessidade de uma mudança económica e social. Essa mudança deve começar por quem governa?

A mudança deve partir de nós. Na Ação Católica, dentro do “ver, Julgar e agir”, o método de revisão de vida, na parte da transformação primeiro procuramos transformar-nos a nós próprios e depois desafiar, então, os outros, ir ao encontro dos outros. Ir ao encontro mesmo dos políticos e dos responsáveis.

Da minha experiência, tanto como dirigente da Ação Católica, na Diocese do Porto, ou de base, como agricultor e como dirigente associativo, muitas vezes faz-nos falta simplesmente ir ao encontro das pessoas, falar e apresentar os nossos problemas, não apenas protestar. Mudar as nossas pequenas atitudes e depois de ir ao encontro, desafiar, dizer o que precisamos. A agricultura e o meio rural precisam de muita coisa, para continuarem a existir.

 

Deixa alguma sugestão nesse sentido, das preocupações que tem consigo e daquelas que estão a ser refletidas pela Ação Católica Rural?

A Ação Católica Rural está, naturalmente preocupada com a crise económica, desenvolveu uma campanha – ‘Cinco pães e dois peixes’ – de ajuda aos mais necessitados, neste período de pandemia, em que estivemos muito online, muito afastados uns dos outros fisicamente, mas a trabalhar, cada um da sua forma. Esse é um aspeto importante, termos em conta as dificuldades económicas das pessoas. Estamos agora com um problema, a inflação, o preço dos alimentos que estão a subir, mas temos um outro ponto: o problema dos agricultores, que eu sinto na pele, que sentem muitos colegas, porque está tudo mais caro. O gasóleo está mais caro, as rações, a energia e depois, muitas vezes, querem que sejam os agricultores a segurar o preço dos alimentos, porque as pessoas, de facto, não têm meios para poderem comprar os alimentos básicos de outra maneira.

Temos de encontrar um equilíbrio, uma solidariedade entre toda a sociedade, para que não haja um descalabro na inflação, mas também para que os agricultores recebam aquilo que precisam, o que nós chamamos o preço justo, que lhes permita continuar a trabalhar.

 

Estamos agora muito preocupados com as alterações climáticas, com a seca, com os incêndios sobretudo em meio rural. Chegados aqui, percebemos que só nos lembramos do Interior em momentos de aflição?

Sim. Quando está frio, vai-se a Trás-os-Montes; quando está calor, vai-se ao Alentejo; e quando há incêndios. vai-se a correr atrás do prejuízo. Isto tem muito a ver com floresta, que é uma questão de gerações, não é de um momento para o outro, e tem muito a ver com o abandono da agricultura.

Tínhamos um ponto de equilíbrio, há umas dezenas de anos, embora com uma pobreza muito grande: as pessoas viviam na aldeia, cultivavam os terrenos mais próximos para as suas hortícolas, onde tinham as suas vacas, e nos terrenos mais afastados, nos baldios andavam os rebanhos de cabras.

 

Está tudo interligado, não é? Tem a ver também com o despovoamento…

Exatamente. Éramos pobres e íamos buscar lenha; hoje, os pobres, graças a Deus, têm algumas ajudas e já têm dinheiro para comprar gás. Portanto, sobram estes materiais. A agricultura está abandonada, os terrenos estão abandonados, a erva cresce no inverno, no verão está a seca e arde com uma velocidade enorme. Nas aldeias restam velhos.

Esse é um problema e é um problema do abandono da agricultura, sobretudo, mais no Interior. Se não temos agricultura, depois também não temos segurança alimentar e estamos sujeitos à importação de produtos, com uma maior pegada ecológica e com um custo muito maior, o que nos acontece quando importamos petróleo e quando importamos cereais.

 

O que aconteceu em 2017 obrigou-nos a uma grande reflexão e, pelo menos houve uma grande manifestação de intenções de mudar, de alterar. Chegados a 2022, corremos os riscos de 2017?

E eu não sou especialista em incêndios e floresta, mas posso dizer o que eu observo. Por exemplo, houve um esforço das autarquias e das autoridades para a limpeza junto às habitações, junto as junto às estradas. Mas depois temos o oposto. Um familiar meu, que tem uma pequena bolsa, como nós dizemos aqui no Norte, de um lado é de um concelho e tinha de limpar cinco metros; do outro lado da bolsa já era doutro concelho, a frase tinha de limpar dez metros e sobra pouco. Aquilo que as pessoas pagam para limpar, a venda da madeira não paga. É um problema que nós temos, um problema de desordenamento do território, que se nota mais aqui no Norte – apesar de tudo, como ainda temos agricultura, temos campos de milho irrigados, temos horticultura, nestas zonas o risco de incêndios é menor, porque regamos os campos. Muitas vezes ataca-se a agricultura, porque gasta água, mas nós não gastamos a água, não a deitamos fora. Primeiro, perde se nos sistemas de regadio, as maiores perdas são aí. Depois, é com essa água que nós produzimos alimentos e, ao mantermos os terrenos limpos, verdes e cultivados, prevenimos os incêndios.

Isto tem de ser no inverno e tem de ser um trabalho ao longo de anos, de levar a sério a parte da floresta. O que a gente faz em Portugal, infelizmente, é lembrarmo-nos de Santa Bárbara quando troveja.

 

Estamos a viver um ano particularmente difícil. Nesse contexto, temo que haja consequências muito graves da seca, sobre a agricultura?

Não tenho dúvidas disso. Eu, pessoalmente estou num cantinho do céu, moro em Vila do Conde, tivemos alguma chuva no mês de junho e, de momento, ainda temos as reservas nos poços. Está curto, mas deve chegar.

Os agricultores no Interior, quem depende da pastagem… nós dizemos, muitas vezes, que é bonito termos as vacas e as ovelhas na pastagem, mas depois estamos completamente dependentes, são sistemas agrícolas completamente dependente do clima. As charcas, as poças estão vazias, já foram gastando, ao longo dos meses, os alimentos que tinham e o que há são javalis. O javali é uma praga que se está a espalhar e esses animais, tendo fome, tendo sede, também se aproximam mais das populações e destroem os campos de milho.

Dizem um senhor, a comentar uma publicação no Facebook: “na minha aldeia produziam 20 toneladas de milho, agora não produzem nada porque os javalis destroem tudo”. É o retrato da nossa realidade.

 

A questão é que estamos ainda, praticamente, no início do verão. O cenário ainda pode ser mais difícil…

Sim. E em relação à água há outra coisa: nós podemos e devemos, naturalmente, investir na modernização do regadio e usar técnicas que nos permitam produzir, gastando menos água. Por exemplo, há um sinal de esperança, que para mim foi uma novidade: sei que o arroz normalmente é cultivado debaixo de água, com rega de alagamento, e fizeram um teste, ao que parece com bastante sucesso, até agora, de produzir arroz com gota a gota, gastando metade da água. Eu faço o milho com gota a gota, com outros sistemas de irrigação; tenho conseguido produzir milho sem rega, semeando cedo e aproveitando as chuvas da primavera, nas minhas condições e nas minhas temperaturas. Portanto, há aqui um trabalho de investigação que a gente tem de fazer, aproveitar a investigação e aproveitar a água. Apesar de tudo, chove no inverno, corre muita água para o mar e, portanto, se tivéssemos mais minibarragens, mais represas, mais charcas, poderíamos estar em melhores condições. Tem de se aproveitar o tempo das vacas gordas para as vacas magras – que com as alterações climáticas serão cada vez mais. Temos de nos preparar para isto.

 

A guerra, para além das consequências trágicas ao nível da perda de vidas, também nos confronta com a inflação e com a escassez de alguns bens de primeira necessidade, como é o caso dos cereais. Sentem-se já reflexos desta realidade?

Sentem-se. Eu comprava ração para as vacas a 30 cêntimos, agora compro a 50. Em compensação, vendia o leite a 30 cêntimos o litro, agora vendo a 40 e pouco. Tenho um défice, como têm todos os agricultores. Isto é válido para quem compra ração, para as galinhas, para os coelhos, para as pequenas culturas do meio rural. Quem quer cultivar, paga o adubo mais caro, paga-se mais caro o gasóleo para rega ou a energia. Sentimos tudo isso como consequência da guerra e do que já vinha de trás, a desaceleração da economia mundial depois da pandemia. Por isso é importante não deixar acabar a agricultura, conversar com os agricultores e ter noção das necessidades que têm.

Nós precisamos, dentro do possível, de ter comida de proximidade, agricultura de proximidade, de consumirmos os produtos da época, os produtos mais próximos, digamos assim, do mercado, e não andar com produtos a viajar de um lado para o outro no mundo. Para além do custo de transporte, muitas vezes o custo de conservação, do frio, etc., é um consumo energético enorme e temos de ir refletindo sobre isso. E não fazer essas mudanças contra os agricultores.

Há uma quase uma batalha campal na Holanda, nalguns países, porque o governo quer proibir os agricultores ou quer obrigar a reduções enormes, nalguns casos, de aplicar adubos, e as pessoas estão revoltadas. No fundo, entrou-se aqui num extremismo de ideologias, que não é bom. Os agricultores têm de ser parte da solução.

Ainda em Portugal temos agricultura, somos autossuficientes no leite, nas hortícolas, no azeite. Somos deficitários nos cereais, por isso é que sentimos…

 

A crise na Ucrânia pode ser um alerta para essa excessiva dependência do exterior, como acontece precisamente no caso dos cereais?

Sim, é sem dúvida. O problema é que até agora não faltou nada em Portugal, apesar de tudo. As coisas ficaram mais caras. Sendo nós pobres, no meio da Europa, somos ricos para a média do mundo e por isso não faltou nada. Isso cria uma ilusão nas pessoas, pois acham que há tudo no supermercado, mas não há.

Voltando ao princípio, quando produzimos local, temos produtos de proximidade, temos aí o dinheiro que fica na nossa economia, os produtos ficam aqui, e temos a possibilidade de manter uma reserva estratégica de alimentos; não apenas dos que nós produzimos, obviamente, mas até dos que nós compramos. Não podemos agora também querer ser autossuficientes em tudo, querer em Portugal produzir todo o trigo e todo o milho de que precisamos. Se nós temos condições para produzir fruta ou para produzir azeite, então vamos exportar e vamos também adquirir outras coisas onde somos menos eficientes ou não temos condições. Mas vamos também pensar em ter alguma coisa armazenada para não irmos ao mercado.

O que aconteceu em toda a cadeia económica e toda a cadeia logística é que se comercializou e ninguém tem em stock, ninguém tem peças, manda-se vir. Foi-se aumentando esta globalização, e nós agora estamos num processo de desglobalização. Estávamos dependentes da fábrica da China, estávamos dependentes da energia da Rússia. De repente, vemos que estes fornecedores não são assim lá muito de confiança. Portanto, estamos aqui num colete de forças, e temos de perceber que a agricultura é essencial, que a comida é essencial. E é essencial para o meio rural, para evitarmos e para nos protegermos dos incêndios, mas essencialmente para termos alimentos para a população.

 

Olhando para ela, sobretudo para esse mundo rural, há um fenómeno que é muito acentuado, que é a questão do despovoamento; o despovoamento do interior tem sido também uma das grandes preocupações da ação católica rural. Os investimentos que têm sido anunciados e que têm sido criados para a fixação das pessoas têm dado algum resultado. O cenário a longo prazo continua a ser assustador?

Eu até agora não percebido uma inversão dessa tendência da desertificação.

 

Significa que os incentivos não são os melhores?

Não sei responder. É uma tendência geral. E, por exemplo, nós temos cada vez menos agricultores e as pessoas que saíram da agricultura foram para uma vida melhor, não as vamos criticar por isso. Mas agora não vamos pensar que elas vão voltar. Não vamos pensar que faz sentido agora vivermos com a agricultura de subsistência, que é o que às vezes algumas cabeças pensantes pensam. Não vamos passar a viver só da agricultura de subsistência, mas temos que encontrar um novo equilíbrio. Como eu dizia no início, nós tínhamos um sistema equilibrado, mas da pobreza. Melhoramos o nível de vida. As pessoas vivem melhor, porque já não vivem em Portugal ou vivem melhor porque já não vivem no interior. E voltando um bocadinho aos incêndios, tem muito a ver com isso, com o abandono das culturas, com abandono dos animais, com o abandono da população. O que é que se pode fazer? Eu acho que há uma coisa simples que é conversar sobre o assunto, estudar o assunto e ver os bons exemplos, procurar os bons exemplos.

 

Voltando à pergunta anterior: Não vê, então a inversão dessa curva do despovoamento do interior?

Não, não vejo. Haverá algumas situações, mas eu não vejo. Eu sou um agricultor urbano, costumo dizer. Não estou no meio da cidade, mas estou aqui perto, aqui no litoral. Mas mesmo na minha atividade, na área da produção de leite, em cada ano há menos produtores de leite. Há uma tendência de abandono e nesta altura, até alguns com grande dimensão, que mudam de atividade. Que dizem: se não me pagam vou produzir outra coisa, vou produzir milho, ou vou produzir fruta, ou vou produzir amêndoa que é o que aconteceu mesmo no Alentejo, onde muitos deixaram os cereais para produzir, por exemplo, olival, que é uma cultura mais rentáveis. E o que eu noto é que continuam a faltar as infraestruturas. Temos estradas apesar de tudo, mas falta muita coisa ainda no meio rural e falta, por exemplo, o respeito.

 

Este despovoamento é também um certamente um desafio para o movimento?

É sem dúvida porque o próprio movimento também sofre com isso, com o envelhecimento, com o despovoamento, com a falta de jovens. Porque os jovens entram no movimento e depois vão estudar e saem. É uma dificuldade enorme para o movimento ser capaz de fazer uma reflexão e de se adaptar aos novos tempos e de usar mais o online e criar outro tipo de proximidade de grupos, porque nós não vamos andar para trás, não vamos ruralizar o país. Depois vem o Covid e as pessoas parece que iam todas mudar-se para o campo, mas foram para lá uns meses e depois voltam à sua vida anterior. O campo é bom quando se vai de férias, mas depois viver lá o ano todo com a internet fraca, por exemplo, que é uma coisa que muitas pessoas se queixam de ter falhas de redes, é complicado viver no interior e na zona rural.

 

Começamos por falar da eleição da nova equipa nacional, da Ação Católica Rural e da reflexão que foi levado a cabo no movimento. Entre os desafios para o próximo ano estão identificadas a Jornada Mundial da Juventude, que vai decorrer em Lisboa, e o Sínodo dos Bispos, o processo que foi convocado pelo Papa Francisco. Como é que têm sido vividas estas dinâmicas no movimento?

Eu tenho acompanhado um pouco mais a questão da preparação das Jornadas Mundiais da Juventude, uma grande expectativa, nomeadamente os jovens, mas não só. Porque vai ser um grande acontecimento e para o movimento é um objetivo concreto que mobiliza os jovens e que nos permite uma experiência única….

 

E que vai dinamizar também a Ação Católica Rural?

Que vai dinamizar também a Ação Católica. Como foi a Expo 98, vai ser um evento único para recordar e eu sendo já um jovem há bastante tempo, espero também estar presente, pelo menos no momento da eucaristia final. Do outro lado, e da parte da Igreja, a Ação Católica sempre foi um movimento e da minha experiência aqui na diocese, que se preocupou sempre em estar em sintonia com o bispo e em acompanhar no fundo a caminhada da igreja, sendo que não é fácil, porque a Ação Católica também é um movimento da periferia. O militante da Ação Católica é desafiado a sair da igreja, a fazer o trabalho no terreno. Temos por exemplo as questões sociais, outras vezes as questões relacionadas com o ambiente, e também as questões culturais, pois da Ação Católica nasceram muitos ranchos folclóricos, grupos que também dinamizam e que permitem dar alguma vida, tanto ao movimento como ao meio rural.

 

Outra prioridade assumida aponta à defesa da vida na busca efetiva da proximidade e da interajuda. Falou ainda antes dessa necessidade de interajuda. O debate em curso sobre a eutanásia, por exemplo, é um desafio para o movimento?

É seguramente um desafio para o movimento, para toda a sociedade, porque isto tem tudo a ver com o meio rural envelhecido e com o desafio que é acompanharmos normalmente os mais velhos, os mais frágeis, os mais doentes. E tem a ver também com toda esta problemática na sociedade em que nos habituamos ao mais fácil, ao descartável e a não termos uma visão da vida completa. Mas tudo faz parte da vida; tanto os momentos mais de prazer como os momentos de sofrimento. E é um debate em que temos participado de uma forma serena, porque mais importante do que os debates teóricos ou os debates nas redes sociais em que passamos a vida a discutir com pessoas que não conhecemos de lado nenhum, são as coisas que se fazem, tanto na defesa da vida, como na ajuda às mães solteiras e aquelas pessoas que querem ter os seus filhos. E também a quem está só, a quem está doente e a quem tem a seu cargo de cuidar dos mais idosos, dos mais velhos. Tanto para as pessoas que estão doentes, como para os cuidadores, é um sacrifício enorme a que a sociedade tem que dar mais atenção.

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