Os números da inflação não descem, os casos de pobreza e dificuldade continuam a aumentar, as notícias sobre a privação das famílias e pessoas invadem o nosso quotidiano. É sobre esta realidade que fala a presidente do Conselho Nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Para situar quem nos ouve, começo por lhe perguntar pelo trabalho que as Conferências Vicentinas realizam nas paróquias portuguesas.

Nós somos um grupo de cerca de 10 mil pessoas, vicentinos e vicentinas, que, seguindo o carisma do nosso patrono e do nosso fundador Frederico Ozanam, estão inseridos em pequenas comunidades, chamadas Conferências, e aí procuramos minimizar as dificuldades das famílias mais desfavorecidas, através do nosso carisma.

 

Da experiência no terreno, podem confirmar o cenário de um progressivo aumento de dificuldades?

É com muita tristeza que confirmo, porque cada dia vamos tendo ecos, dos vicentinos que estão no terreno, das dificuldades e da situação grave que estão a passar muitas das nossas famílias, por diversos tipos de carências.

 

As conferências vicentinas têm manifestado sempre preocupação com a chamada pobreza envergonhada, que persiste em Portugal e dificulta a ajuda a situações de fragilidade. Teme que a situação se agrave?

Nós começamos por ajudar, principalmente, pessoas de idade que estavam sós e que tinham dificuldades. Hoje, infelizmente, o cenário é outro. Nós temos muitas famílias jovens, muitos casais jovens que enfrentam muitas dificuldades e, portanto, penso que a situação que estamos a viver é muito complicada, vai agravar-se e não vai ser fácil. Mas temos fé.

 

Estamos a falar de pessoas que trabalham ou que um dos membros do casal trabalha, mas que os rendimentos não chegam para fazer face às despesas…

Exatamente, muitos que, para mitigar a fome dos filhos, prescindem da sua refeição normal.

 

É sobretudo ao nível da alimentação que radica o vosso apoio, ou têm outras valências que merecem também muita procura?

Começamos por alimentação e distribuição de roupa. Hoje, nós, com a ajuda de muitas famílias também, temos outros tipos de carências: temos de pagar rendas, eletricidade, água ou gás, principalmente também a questão da saúde, a medicação e até algumas consultas, porque as pessoas realmente não têm capacidade.

 

Essa ajuda no pagamento de faturas tem aumentado muito?

A percentagem eu concretamente não poderei dizer, mas devo dizer que, sem me enganar muito, 30 ou 40% à vontade aumentaram, porque os pedidos são cada vez maiores e as dificuldades vão começando a ser sentidas pelas próprias conferências, pelos seus membros, porque também se vão esgotando os recursos de que dispõem. Claro, contamos com a ajuda dos párocos em muitas das nossas conferências e também da boa vontade das pessoas que frequentam as igrejas e que, com os seus poucos haveres, nos ajudam também a mitigar esta situação.

 

Relativamente à habitação e a rendas, tivemos ainda há pouco tempo a antecipação de uma situação que poderia vir a ocorrer, por parte de um especialista no combate à pobreza, Farinha Rodrigues, que nos dizia que perante este congelamento das rendas de aumento de 2%, muitos proprietários poderiam não renovar os contratos de arrendamento. Já chegou alguma preocupação a este nível?

Também, é uma situação a que nós estamos atentos e que tentaremos também minimizar, dentro das nossas possibilidades.

 

Voltando à questão da alimentação, que é uma das preocupações básicas, já começa a haver situações de fome? Onde é que têm detetado mais dificuldades?

Há muitas situações de fome, as conferências recorrem ao Banco Alimentar, mas reconhecemos que as dificuldades são cada vez maiores e há zonas do nosso país com graves problemas de falta de alimentação.

 

Quais são essas zonas?

Poderia indicar as zonas mais do Interior e algumas zonas também do Sul do país. Não estou a dizer que nas outras zonas não existam algumas em que as situações são mais agudizadas, até nas grandes cidades.

 

E no terreno, não sentem falta de articulação entre as diversas entidades públicas e privadas que promovem a ajuda?

Temos situações em que a colaboração das autarquias é extraordinária, aqui na zona de Lisboa, do Porto e outras. Na grande maioria, as autarquias, as câmaras municipais e as juntas de freguesia colaboram imenso connosco e prestam imensos serviços e ajudam -nos muito, principalmente na questão da medicação e também na alimentação.

 

Para fazer face à crise e à inflação, o Governo avançou com um conjunto de medidas de onde se destaca o pagamento extra de meia pensão e a atribuição de 125 euros a pessoas com rendimentos mensais inferiores a 2700 euros. Sentem algum impacto destas medidas? Nos vossos contactos o que ouvem da parte das pessoas?

É uma medida que o Governo tomou e que poderá minorar um pouco. Relativamente aos 125 euros, é um subsídio único e minimiza, quando é recebido, mas não serve, não resolve a situação. Digamos que as pessoas ficam felizes quando recebem, mas rapidamente se apercebem de que é muito pouco, face às necessidades que têm.

 

A crise intensifica-se de dia para dia. Vão ser necessárias mais e novas medidas?

Penso que sim e penso que a situação nos leva para isso, que o ano 2023 será, para nós, cada vez mais preocupante. Mas, como Vicentinos, acreditamos, porque para além dos apoios materiais nós também damos o apoio espiritual.

Para além dessa falta de alimentos e de alguns pagamentos, de alguns géneros, de algumas outras tipos de faturas, temos pessoas que vivem este momento de solidão e este momento de desespero. Aquilo que nós, no fundo, procuramos é levantar-lhes a autoestima, dar-lhes alguma autonomia e, essencialmente, vão tentar que elas recobrem um pouco da alegria que vão perdendo face a situações tão difíceis. É evidente que, no meio disto tudo, o que nos realça mais é a necessidade de dizer que a esperança, que o Espírito Santo e que Deus nos vão ajudar neste nosso serviço, que pomos à disposição daqueles que mais precisam.

 

Essa mobilização espiritual e também material que tem vindo falar é um recurso para assumir como desígnio a erradicação da pobreza em Portugal. Mas vamos ficando cada vez mais longe desse objetivo…

Algumas medidas vão sendo tomadas nesse, mas há muitos anos esta é uma luta enorme que vamos traçando para a tentar erradicar. Ficamos longe? Apercebo-me que sim, mas nós acreditamos e acreditamos seriamente que havemos de conseguir chegar. Nos momentos mais próximos, não, mas no futuro conseguiremos, parcialmente, minimizar este problema da pobreza.

 

Em 2019, o presidente da República falava da necessidade de retirar da rua até 2023 todas as pessoas em situação de sem-abrigo, mas a verdade é que, quase no final de 2022, os números apontam para uma população ainda próxima dos 8 mil. Onde falhamos?

Às vezes nós temos estruturas que nos permitem ajudar, mas infelizmente também temos muitos sem-abrigo que não querem abandonar essa situação. São-lhes dadas muitas vezes condições e eles não as aceitam, é também para eles uma mudança radical de vida e nem todos estão preparados para isso.

 

É um problema muito complexo, que pode ter a ver com um problema de saúde mental, com uma série de adições, mas aquilo que está a dizer é que há população que vai voltar à rua…

Eu penso que sim. Iremos lutar contra isso, certamente, porque é essa a nossa função. Estamos disponíveis e estamos alerta para esta situação. Temos uma vantagem em relação a outras instituições: visitamos as nossas famílias nas suas casas, não as desinstalamos para saber o que se passa. E assim vamos tomando consciência da realidade, das dificuldades que têm e do desespero em que vivem.

Mas acreditamos também que as coisas vão melhorar. Temos de ter esperança e depois temos de seguir aquele ideal do nosso patrono, São Vicente de Paulo: o amor é inventivo e nós havemos de inventar soluções para estes casos tão difíceis.

 

Mas, para além dessa resistência à mudança por parte de muitos sem-abrigo, a montante não haverá outros problemas que, de alguma forma justificam os números atuais?

É provável, mas como resolvê-los é difícil e são medidas em que o Estado também terá de intervir. A nossa ação é muito diminuta para problemas tão complexos, que envolvem tantas vertentes.

 

Nós estivemos a falar há pouco já da próxima pergunta, mas vou insistir nela. Tem a ver com as dificuldades de quem ajuda, não só de quem recebe. Acredito que as Conferências não sejam imunes a esta situação de crise. Aliás, pergunto lhes, depois das limitações da pandemia, esta situação de inflação, de aumento generalizado de preços, teve algum impacto nos donativos, por exemplo?

Muito. Teve um grande impacto. Mas nós portugueses temos esta característica. Às vezes, e para surpresa nossa quando fazíamos recolhas nos bancos junto de algumas entidades comerciais, víamos, com muita alegria interior, que afinal nós, mesmo tendo pouco; do pouco que temos, distribuímos. E acreditamos que as ajudas junto das Conferências não irão terminar. Diminuem substancialmente os donativos e pesa-nos também que alguns sejam feitos para terem compensações a nível de Estado, a nível de devolução de parte fiscal (impostos). Mas de qualquer forma, sem essa ajuda não podemos manter. Temos já algumas conferências com dificuldade, mas estamos a tentar e até mesmo o Conselho Nacional, neste momento está a pensar seriamente como ajudar, através dos Conselhos Centrais, as Conferências que estão com mais carências.

 

Mas essas dificuldades têm já efeitos práticos na vossa ajuda ou ainda não?

De momento não.  Pelo que vou sabendo não. Aliás, esta entrevista foi um pouco antecipada, porque nós vamos ter reunião de Assembleia-geral e normalmente juntamente com os presidentes dos Conselhos Centrais apercebemo-nos das realidades, porque eles fazem-nos os retratos reais das suas dificuldades. Mas daquilo que eu vou sabendo, eu penso que há já algumas dificuldades, mas na grande maioria ainda vamos conseguindo dar solução.

Ficamos muito, muito apreensivos relativamente ao futuro. Vemos com muita apreensão o que será o ano 2023. Foram criadas estas expectativas nos 50% da reforma – eu não sei se de forma ou injusta, não estou aqui para justificar isso – dos 125 euros, mas tudo isso é muito pouco. E vamos criando esta alegria às pessoas e depois, quando chegar a janeiro, apercebem-se realmente que o subsídio de Natal já passou, os 125 euros já passaram, a ajudas através das reformas já passaram. E há que enfrentar esta realidade e é aqui que nós queremos estar presentes e queremos que eles não desanimem e que enfrentem com a nossa ajuda, porque nós estamos sempre disponíveis para os ajudar, dentro das nossas limitações. Queremos realmente a ajudar a enfrentar esta situação que vai ser muito difícil.

 

Eu vou agora falar de um tema que abordou de passagem ainda pouco. Nós na última semana ficamos a saber que 44.500 idosos vivem sozinhos ou isolados, ou em situação de vulnerabilidade. São dados que foram sinalizados pela GNR na operação Censos Sénior 2022, que decorreu em outubro. Pergunto-lhe se são dados preocupante? 

São. São dados preocupantes. A solidão é terrível e há muitos idosos que estão a viver em solidão e inclusive com muita dificuldade em enfrentarem essas situações. Nós temos realmente muita gente que vive só e está desanimado.

 

E a pandemia veio agravar essa situação?

Sim. Uma das coisas que a pandemia impediu foi que nós fizéssemos as nossas visitas. E isso agravou. Porque eles gostam das nossas visitas. Claro que arranjámos outras formas de ultrapassar essa situação. Quer pelas visitas ao fundo das suas portas, quer através de alguns meios informático, mas realmente não está a ser fácil. A pandemia criou-nos esta incapacidade de podermos estar e de visitar as pessoas, que é uma das nossas características.

 

E também provocou receios, sobretudo receios junto dessa população idosa. Esses receios mantêm se, o que não permite, de alguma forma, que possam voltar a desenvolver o nosso trabalho junto dessas pessoas?

Não, eles estavam realmente ansiosos de nos encontrarem e de estarem connosco. E vemos que realmente neste momento já há uma abertura que nos permite visitar com alguma regularidade essas mesmas famílias.

 

Até porque as visitas domiciliárias são um fator importante para responder a esta solidão e também criar laços, não é?

Aliás, como eu disse há pouco é aquilo que nos distingue e é aquilo que nos permite, tendo conhecimento da realidade ajudar de uma maneira mais direta e mais concreta as famílias, porque sabemos as suas preocupações e vivemos as suas alegrias vivemos as suas tristezas e procuramos que elas façam parte da nossa família, da grande família que é a família vicentina.

 

Olhamos para o futuro das Conferências Vicentinas. É importante cativar também os jovens e as famílias para a vivência destes valores de solidariedade e de fé?

Claro que sim. Nós, quando falamos em vicentinos, normalmente fica-nos a imagem daquelas pessoas de idade, de cabelo branco. E isto teve sentido no início das Conferências, porque havia que ter disponibilidade total, porque nós estamos sempre disponíveis e as pessoas que trabalhavam, ou os jovens na altura não tinham tanta disponibilidade, Isto apesar de o nosso fundador ser um jovem que sentiu a crise precisamente na altura da guerra em França. Mas nós sentimos que há essa necessidade e temos uma oportunidade ótima agora, com a JMJ e as pré-jornadas dos jovens vicentinos a nível internacional, que se realizam em Felgueiras uma semana antes da Jornada Mundial, para tentar sensibilizar e cativar realmente mais jovens para esta grande realidade e para este grande sonho que é tornar possível a melhoria das famílias.

 

Como é que as Conferências Vicentinas entraram na sua vida?

É engraçado, porque eu desde sempre senti uma certa apetência pelo social. Sou professora, ou fui professora e mesmo nessa ocasião eu estava ligada ao setor social das escolas, aos apoios a essas estruturas que realmente visavam esta parte social. E depois fui convidada e achei que realmente esta forma de ajudar, de um modo discreto, de um modo simples, mas que é interventivo e que é uma forma de contactarmos com as realidades, e de que podemos falar com as pessoas e de podermos viver os seus problemas e de podermos sentir os seus problemas, cativou-me. E a partir daí entrei no movimento. Entrei na Sociedade de São Vicente.

 

E este elemento deste movimento não corre riscos? Digo isto porque houve anos em que muitas conferências vicentinas como que, de alguma forma, hibernaram durante algum tempo e depois houve dificuldade em reativá-las?

Nós, neste momento estamos a perder algumas conferências. É verdade. Porquê? Precisamente porque as pessoas que as formavam e, portanto, que as geriam eram pessoas já numa certa idade. E quanto à idade é já avançada, chega a um limite em que não conseguem continuar e por vezes não é fácil a renovação.

Estamos muito empenhados em solicitar a ajuda dos párocos. É muito importante isso. E de outros movimentos que existem nas paróquias, nomeadamente os movimentos da catequese. Porque há um momento em que os jovens saem da sua jornada, da sua caminhada de catequese e são momentos propícios para os sensibilizar para a realidade do que é a Sociedade de São Vicente de Paulo e no modo como podem ter, através da ação, a aplicação de tudo aquilo que foram aprendendo, apreendendo e assimilando. E é muito importante realmente continuar a acreditar que Cristo ajuda, que Cristo está presente e que o Espírito Santo nos guia todos os dias em todos os momentos e só por isso é possível aos Vicentinos realmente continuarem a tarefa difícil. Difícil, mas agradável – perdoem-me a expressão – mas entusiasmante, de perceber que por vezes basta um sorriso. Basta uma palavra meiga. Porque às vezes é mais importante do que aquilo que se dá ou em dinheiro ou em alimentos. É evidente que faz falta tudo isso que é material, mas o sorriso e o estarmos presentes e saberem que a qualquer momento nos podem contactar e que serão por nós atendidos, em detrimento muitas vezes do jantar, ou do abandonar a refeição, ou de ter que abandonar a família para ir ajudar essas mesmas famílias.

 

 

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