«Um motivo de grande orgulho e esperança» para todos os que se empenham na defesa dos direitos das pessoas com deficiência

Lisboa, 18 mar 2015 (Ecclesia) – O movimento católico ‘Fé e Luz’, de defesa dos direitos das pessoas com deficiência, considera que o Prémio Templeton 2015, entregue hoje ao seu fundador, Jean Vanier, é um sinal para quem “desvaloriza e descarta” a diferença.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, a coordenadora da Província Lusitana do movimento, Olga Maria Grilo, encara esta ocasião como “um motivo de grande orgulho e esperança” para todos os que se empenham na afirmação de que “a vida vale a pena ser vivida muito para lá das capacidades físicas ou intelectuais de cada um”.

“É a mensagem de que a linguagem da competitividade, do querer ser mais eficaz, mais inteligente e ter mais qualidades do que o próximo na verdade não é a mais importante. A relação coração a coração, como diz Jean Vanier, é efetivamente a única que nos é capaz de tornar pessoas mais felizes”, salienta aquela responsável.

Fundado em 1971, pelo filósofo e teólogo Jean Vanier e a professora francesa Marie Helene Mathieu, o “Movimento Fé e Luz” procura ajudar pais com filhos portadores de deficiência a superarem os seus desafios, muitas vezes vividos “em isolamento”.

Atualmente presente em 82 países, incluindo Portugal, o projeto integra comunidades de encontro e reflexão, constituídas por pais, filhos e jovens sem deficiência, onde é valorizada a dimensão “espiritual” de cada pessoa.

“A mensagem do movimento é aceitarmo-nos como somos e a pessoa com deficiência descobrir que é amada por Deus assim como ela é”, realça Olga Maria Grilo.

Segundo Alice Caldeira Cabral, do Comité de Nomeação Provincial do movimento, a questão da pessoa com deficiência é hoje tão “perigosa” que há uma mentalidade “que se tornou socialmente evidente: se houvesse possibilidade, estas pessoas deveriam ter sido eliminadas durante a gravidez”.

Uma mentalidade que, segundo aquela responsável, tem feito “voltar atrás a sociedade, na maneira como ela vê as pessoas com deficiência”, e que deve fazer “questionar” o rumo que a humanidade está a seguir.

Alice Caldeira Cabral sublinha ainda que vários apoios ao nível das famílias com filhos portadores de deficiência estão atualmente “muito ameaçados, cada vez mais”.

E os que existem funcionam por vezes na base de uma realidade mais ou menos escondida, como se a palavra “deficiência” estivesse “mais ou menos banida”.

Na escola, por exemplo, “fala-se de necessidades educativas especiais e não da deficiência de um modo que faça as pessoas sentirem-se solidárias umas com as outras”, sustenta.

Ao nível do país, a maior dificuldade do “Fé e Luz” tem sido mesmo “chegar às famílias”, porque muitos pais “não querem que os filhos frequentem outros sítios onde haja pessoas com deficiência”, não querem “encarar a realidade”.

“O trabalho com a pessoa com deficiência intelectual é muitas vezes mais fácil do que com as famílias. É certo que é sempre difícil aceitar que um filho que não é como se gostaria, mas quanto mais cedo isso for feito mais fácil será depois dar um passo rumo ao amor verdadeiro”, frisa Olga Maria Grilo.

O Prémio Templeton, atribuído anualmente pela Fundação Templeton, sediada nos Estados Unidos da América, distingue todos os anos figuras que tenham contribuído de forma relevante para afirmar a dimensão espiritual da vida.

Jean Vanier, de 86 anos, é responsável também pela criação do projeto ‘A Arca’, que hoje conta com mais de 147 comunidades espalhadas pelo mundo, nas quais pessoas com e sem deficiência vivem em conjunto.

JCP

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