«Não há diálogo entre as religiões, há diálogo entre as pessoas» – Padre Adelino Ascenso

Lisboa, 21 jun 2022 (Ecclesia) – A Igreja Católica em Portugal – congregações missionárias e a Conferência Episcopal – está a organizar um congresso, intitulado ‘Fraternidade sem fronteiras’, que vai decorrer nos dias 14 e 15 de outubro, no auditório Cardeal Medeiros, na Universidade Católica, em Lisboa.

“Falar de missão é falar de partilha: Partilha da fé, partilha de valores. Até agora falávamos de ir evangelizar, e agora também falamos de receber e é este intercâmbio entre povos e culturas, com experiências diferentes, culturais e evangélicas, isto é a missão, disse hoje o diretor das Obras Missionárias Pontifícias à Agência ECCLESIA.

Segundo o padre José Rebelo, missionário Comboniano que esteve em África e na Ásia, mesmo que alguns povos não precisem de missionários “é importante a presença” destes agentes porque “são testemunhas de uma tradição, de uma maneira de ser, até do ponto de vista dos valores”, e são testemunhas de uma riqueza grande, porque quem vai em missão também é enriquecido.

“Em vez de irmos converter pessoas, nós vamos em primeiro lugar para nos convertermos a nós próprios. E penso que o paradigma da missão terá de passar um pouco por aí: Não termos a pretensão de que vamos converter alguém mas termos o desejo bem vincado de nos convertermos a nós próprios”, acrescentou o padre Adelino Ascenso, que esteve durante muitos anos no Japão.

O sacerdote, que é o superior geral da Sociedade Missionária da Boa Nova, e presidiu aos Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG), refere que sair em missão inclui naturalmente estar disposto “a acolher”.

“Devemos ser como recipientes, só esvaziando-nos é que podemos colher: Podemos colher a mensagem que o outro tem para nos dar. Podemos ir para a missão tão cheios, tão cheios, que não recebemos nada. E isso seria como ponto de partida absolutamente errado”, explicou.

O padre José Rebelo salienta que missão “é intercâmbio entre todos” e lembra que a vocação missionária é de todos, “é constitutiva do ser cristãos”, e salienta que existem, cada vez mais, “leigos que partem, famílias, não só consagrados que fizeram votos evangélicos”.

O Congresso Missionário que está a ser anunciado hoje regressa uma década depois do último, e vai ter como lema a ‘Fraternidade sem fronteiras’; Do programa constam seis conferências e dois painéis, nos dias 14 e 15 de outubro, no auditório Cardeal Medeiros, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

“Um dos propósitos naturalmente é o diálogo, principalmente em três setores: Estimular o diálogo com a cultura, com os indiferentes, os indiferentes são os descontentes, mesmo aqueles que consideram não professam qualquer religião, e naturalmente o diálogo entre as religiões”, adianta o padre Adelino Ascenso.

Segundo o missionário, estas três frentes têm como base comum a fraternidade, e realça que onde está o ser humano está a dimensão antropológica, “e a fraternidade tem que começar nesse estrado antropológico”.

O Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram a Declaração de Abu Dhabi, centrada na fraternidade humana, a 4 de fevereiro de 2019, nos Emirados Árabes Unidos.

E o padre Adelino Ascenso assinala que o Papa “tem sido muito inspirador nos encontros concretos” que tem sobre alguma temática, como este na capital dos Emirados Árabes Unidos, e destaca, a partir deste exemplo, que “não há diálogo entre as religiões” mas “há diálogo entre as pessoas” e tem de existir encontro.

O Congresso Missionário ‘Fraternidade sem fronteiras’ vai começar com o documento Abu Dhabi, que “é um patamar chave para a fraternidade”, com o cardeal Miguel Ángel Ayuso, presidente do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso da Santa Sé.

Ainda no primeiro dia, a reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil, e Guilherme de Oliveira Martins, são os oradores de duas conferências, e no sábado, os participantes vão ouvir, D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima e presidente da CEP, Diana de Vallescar Palanca, sobre interculturalidade e diálogo inter-religioso – e o cardeal José Tolentino Mendonça.

O primeiro painel é dedicado às religiões monoteístas, com um representante do judaísmo, do islamismo e do cristianismo, na sexta-feira 14 de outubro, e no dia seguinte, centram-se nas religiões místicas, o hinduísmo, o budismo e o catolicismo.

PR/CB

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