Investigador Germano Silva apresenta enquadramento histórico e cultural da celebração popular na cidade invicta

Foto: C. M. Porto

Porto, 23 jun 2019 (Ecclesia) – Germano Silva, jornalista e investigador das tradições que marcam a cidade do Porto, disse à Agência ECCLESIA que a celebração do São João faz do santo, uma figura austera, patrono de uma festa popular que inunda as ruas da cidade.

“A festa a São João Batista é um grande enigma: como é que um santo austero, que se retirava para o deserto vestia pele de camelo e comia gafanhotos, aparece como patrono de uma festa rapioqueira e brejeira? Há uma explicação, quando o anjo Gabriel anuncia a Zacarias que iria ser pai, mesmo em idade avançada, diz-lhe que esse filho vai ser motivo de muita alegria e muita festa”, defende o jornalista.

A origem da festa de São João, segundo o investigador, vem de rituais pagãos, ligados ao sol, terra e fogo, pois já “antes do cristianismo os povos, no solstício de junho, colhiam os frutos e agradeciam aos deuses, que era a natureza, e daí esses elementos ligados ao São João”.

O investigador portuense destaca ainda a “característica de nesta festa não haver programa”, na qual “as pessoas vêm para a rua e cumprimentam-se, antigamente com alho porro e agora com o martelinho”.

Esta é uma das tradições que marca a noite de São João, 23 de junho, e que faz com que muitos portuenses façam a festa na rua.

“Embora o santo da devoção do Porto não seja propriamente o São João, ele é o padroeiro da festa, mas o santo dos portuenses é o Santo António, ele está nos cafés, mercearias, no comércio…  Nós temos o Hospital Santo António, Santo António das Antas, dos Congregados, em azulejos por todo o lado e de São João na cidade só conheço dois”, refere.

A festa de São João Batista, juntamente com a da Virgem Maria, é uma celebração do nascimento e Germano Silva aponta a relação com o Natal: “Há um paralelismo com o Natal por celebrar o nascimento de São João e pela realização das cascatas de São João, que são pequenas aldeias com rituais da água em tudo semelhante aos presépios”,

“É a representação de uma comunidade, tem de haver sempre o rio e a ponte e depois a atividade: a peixeira, a leiteira, as figuras da tradição popular e depois a procissão, a banda, o coreto, tudo ligado à festa e ao trabalho fazem parte da festa”, acrescenta.

Germano Silva nasceu em Penafiel, veio com a família para o Porto quando tinha somente um ano de idade, e as tradições da cidade invicta marcam a sua vida.

“Tomo conhecimento destas tradições nos arquivos distritais, mas também no convívio com as pessoas, que me vão transmitindo e acho que o mais rico património desta cidade é a sua gente, muito prestáveis e com um sentido de partilha muito alargado”, confessa.

Da sua meninice recorda as rusgas na noite de São João onde as pessoas, depois da meia noite, “compravam pão, faziam café na fogueira e organizavam-se a cantar ao São João”.

“Vivi numa ilha no Campo Alegre, fazia-se uma grande festa ao São João, trabalhava-se todo o ano para a festa. Com balões com velas lá dentro, pegavam nuns ramalhos e vinha-se a cantar, tudo improvisado”, recorda.

Este jornalista contou ainda que atualmente há vários locais de festa ao São João, mas que os locais foram mudando à medida que a cidade se foi desenvolvendo.

“A rua do Almada, por exemplo era uma rua da burguesia, eles festejavam o São João, nas traseiras da casa, com fogo de artifício; depois na Ribeira as pessoas acorrem pelo fogo de artifício. As Fontainhas surgiram porque, no século XIX, havia um senhor que ali vivia que resolveu fazer uma cascata e oferecia arroz doce e café. Tornou-se famoso e ali passou a ser a ‘meca’ do São João”, relata.

No dia dedicado a São João, 24 de junho, a festa litúrgica é, alternadamente, em São João Novo ou São João da Foz ambas com este santo popular como padroeiro.

PR/SN

 

 

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