É conhecido o frequente incómodo dos que, avisados ou de surpresa, enfrentam o olho negro duma câmara de televisão para uma entrevista ou um testemunho. Mas quem, por dever de ofício, se coloca por detrás do estranho «aparelhómetro», não fica imune a emoções, seja o operador de imagem ou de som, realizador ou técnico de pós-produção.

Durante largos anos aprendiz de feiticeiro no «70×7», bem conheço esse aperto no peito que quase sempre nos assalta antes da tripla voz «silêncio – gravar – acção!», por muito calo que o tempo nos tenha dado. Mais do que o brio profissional, é a consciência de estarmos a tocar a maravilha de gente de carne e osso, que o Espírito misteriosamente anima, sejam pobres ou doutores, excluídos da sociedade ou figuras de relevo.

Há sempre uma intromissão na esfera do privado que a imagem – longe de ser neutra – pode caricaturar, deformar, falsificar. E isto está muito para além do desejo de que o trabalho seja escorreito e honesto. Mas há um outro tipo de sentimento que não poucas vezes me invadiu e cuja etiologia é ligeiramente diversa – um nó na garganta quando a autenticidade, na sua pureza mais singela, se expõe, desarmada, ao olho indiscreto da objectiva.

Há uma boa meia dúzia de anos, uma comunidade de monjas de clausura abriu-nos as portas do seu mosteiro. Era notória a mútua curiosidade: de um lado, três homens com câmaras, micros e luzes, não pouco embaraçados por aquele espaço de silêncio, trabalho e oração; do outro, mulheres de vida cortada da confusão dos tempos modernos, no desejo sorridente de acolher a estranheza electrónica e a curiosidade jornalística. Eram dois mundos frente a frente que, pela primeira vez, procuravam comunicar e entenderem-se. Confesso que a ponte foi lançada e atravessada com muito mais agilidade e rapidez pelas religiosas. Foi vê-las a quererem à viva força esticar cabos e carregar tripés, mudarem os horários do Ofício Divino para que os senhores da televisão não tivessem que se levantar tão cedo, deixarem que gravássemos em som e imagem os seus trabalhos no campo e na costura, a cozinha e as parcas refeições, o estudo, a oração, o tempo de recreio e até – privilégio único! – o espaço da sua clausura.

Perante a singela disponibilidade, o escrúpulo era nosso. Mostramos estes planos? Vamos deixar esta entrevista? Cristãos, mas nem todos praticantes, a equipa estava abismada e comovida. E sem saber bem como, vimo-nos a contar àqueles rostos atentos e acolhedores, pedaços das nossas vidas. E à noite, na oração da comunidade, ouvimo-las pedir por nós e pelas nossas famílias, entre tantas outras intenções a que não eram estranhos nenhum dos grandes problemas do mundo. Com um nó na garganta, sentimos que tínhamos tocado ao de leve o sentido daquelas vidas.

Pouco tempo depois, fui submetido a uma intervenção cirúrgica de alguma gravidade. Certa noite a minha mulher recebeu um inesperado telefonema. Era a madre superiora, em nome das irmãs, a saber do meu estado e a dizer que toda a comunidade, todos os dias, rezava por mim.

Manuel Frazão, Ex-realizador do 70×7

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